Esopo 57

O caçador covarde e o lenhador

Um caçador que estava procurando pegadas de um leão perguntou a um lenhador se ele tinha visto as pegadas e onde o leão estava deitado. “Vou já lhe mostrar o próprio leão!”, respondeu o lenhador. E o caçador, amarelo de medo e batendo os dentes, replicou: “Só estou procurando as pegadas, e não o próprio leão!”.

Os atrevidos e covardes a fábula censura, os que são destemidos no falar e não no agir.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 108

Esopo 226

O lenhador e Hermes

Um homem estava cortando lenha às margens de um rio, quando deixou cair na água seu machado, que foi levado pela correnteza. Sentado no barranco, ele ficou a chorar, até que Hermes se compadeceu, foi até lá e, ao saber do motivo de seu pranto, desceu no rio e voltou com um machado de ouro. Logo após, o deus lhe perguntou se aquele era seu machado, mas ele disse que não, que não era aquele. Na segunda vez, Hermes trouxe um machado de prata e perguntou se era aquele que o lenhador tinha deixado cair no rio. E, como ele negou que fosse aquele, Hermes lhe trouxe, na terceira vez, o machado dele, que o homem reconheceu que era mesmo o seu. Impressionado com sua honestidade, Hermes lhe deu de presente todos os três machados. O lenhador aceitou os presentes e, mais tarde, quando foi ter com seus companheiros, contou-lhes detalhadamente o sucedido. Então um deles, que estava de olho grande nessa história, decidiu viver a mesma experiência: pegou um machado, foi à beira do mesmo rio e, enquanto cortava lenha, deixou de propósito cair o machado na correnteza. Depois, sentou-se a chorar. E, quando Hermes apareceu e lhe perguntou o que havia ocorrido, ele citou a perda do machado. Mas, assim que Hermes retirou do rio um machado de ouro e lhe perguntou se era aquele que ele havia perdido, o homem, de olho no lucro, mais do que depressa falou que era aquele. O deus, porém, não o recompensou e também não lhe entregou o que lhe pertencia.

A fábula mostra que a divindade ampara os justos tanto quanto hostiliza os injustos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 327-328

Esopo 330

A raposa e o lenhador

Enquanto fugia de caçadores, uma raposa viu um lenhador e lhe pediu que a escondesse. Ele sugeriu que ela entrasse em sua cabana e se ocultasse lá dentro. Não muito tempo depois, vieram os caçadores e perguntaram ao lenhador se ele tinha visto uma raposa passar por ali. Em voz alta ele negou tê-la visto, mas com a mão fez gestos indicando onde ela estava escondida. Entretanto, como eles não prestaram atenção nos seus gestos, deram crédito às suas palavras. Ao constatar que eles já estavam longe, a raposa saiu em silêncio e foi indo embora. E o lenhador se pôs a repreendê-la, pois ela, salva por ele, não lhe dera nem uma palavra de gratidão. A raposa respondeu: “Mas eu seria grata, se os gestos de sua mão fossem condizentes com suas palavras”.

Desta fábula pode servir-se uma pessoa a propósito daqueles homens que nitidamente proclamam ações nobres, mas na prática realizam atos vis.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 468