A raposa e víbora
Uma raposa, ao cavar o seu covil, enquanto tirava a terra
e fazia muitas galerias muito profundas,
chegou ao recôndito antro de uma víbora
que guardava tesouros ocultos.
Assim que a avistou: “Primeiro peço-te que concedas perdão 5
para a minha imprudência; depois, já que vês perfeitamente
o quanto o ouro não é conveniente para a minha vida,
que me respondas com benevolência: que fruto obténs
deste trabalho ou quão grande é a recompensa
para que te prives do sono e passes a vida nas trevas?” 10
“Nenhuma” diz aquela, “mas isto me foi incumbido
pelo supremo Júpiter”. “Então nem tiras para ti
nem doas nada a ninguém?” “Assim agrada aos Fados”.
“Não quero que fiques brava, se eu disser francamente:
nasceu com os deuses irados quem é semelhante a ti”. 15
Tu, que hás de partir para onde partiram os antepassados,
por que, com a mente cega, torturas a tua vida desgraçada?
Digo a ti, avarento, alegria de teu herdeiro, que enganas
os deuses com incenso e a ti próprio com comida,
que ouves triste o som musical da cítara, 20
a quem aflige a alegria das flautas,
a quem os preços dos alimentos arrancam um gemido,
que, enquanto amontoas centavos ao teu patrimônio,
aborreces o céu com sórdido perjúrio,
que aparas toda despesa do funeral 25
para que a Libitina não tenha algum lucro com o que é teu.
Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.