Fedro 4.21

A raposa e víbora

Uma raposa, ao cavar o seu covil, enquanto tirava a terra

e fazia muitas galerias muito profundas,

chegou ao recôndito antro de uma víbora

que guardava tesouros ocultos.

Assim que a avistou: “Primeiro peço-te que concedas perdão 5

para a minha imprudência; depois, já que vês perfeitamente

o quanto o ouro não é conveniente para a minha vida,

que me respondas com benevolência: que fruto obténs

deste trabalho ou quão grande é a recompensa

para que te prives do sono e passes a vida nas trevas?” 10

“Nenhuma” diz aquela, “mas isto me foi incumbido

pelo supremo Júpiter”. “Então nem tiras para ti

nem doas nada a ninguém?” “Assim agrada aos Fados”.

“Não quero que fiques brava, se eu disser francamente:

nasceu com os deuses irados quem é semelhante a ti”. 15

Tu, que hás de partir para onde partiram os antepassados,

por que, com a mente cega, torturas a tua vida desgraçada?

Digo a ti, avarento, alegria de teu herdeiro, que enganas

os deuses com incenso e a ti próprio com comida,

que ouves triste o som musical da cítara, 20

a quem aflige a alegria das flautas,

a quem os preços dos alimentos arrancam um gemido,

que, enquanto amontoas centavos ao teu patrimônio,

aborreces o céu com sórdido perjúrio,

que aparas toda despesa do funeral 25

para que a Libitina não tenha algum lucro com o que é teu.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.