Esopo 227

O lobo e a cabra

Um lobo viu uma cabra pastando no alto de uma escarpa e, como não conseguisse atacá-la, falou-lhe para descer um pouco mais – não fosse ela cair por descuido! – e disse que onde ele estava o prado era melhor, principalmente porque a relva estava bem viçosa. E ela respondeu: “Mas não é por causa do pasto que você está me chamando. É que você mesmo não tem o que comer!”.

Assim, também, os homens malfeitores, quando praticam maldade perto de quem os conhece, não tiram proveito de seus artifícios.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 329

Esopo 228

O lobo e a garça

Engasgado com um osso, um lobo andava à procura de alguém que o curasse. Ao deparar com uma garça, propôs a ela que lhe retirasse o osso, mediante um pagamento. Então a garça enfiou a cabeça na garganta dele, extraiu o osso e, depois, exigiu o pagamento combinado. E ele respondeu: “Mas você, minha cara, não satisfeita de ter retirado incólume sua cabeça da goela de um lobo, ainda exige pagamento?”.

A fábula mostra que a maior recompensa de uma ação praticada em benefício dos perversos é não receber deles, em retribuição, uma crueldade.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 331

Esopo 229

O lobo e a ovelha

Um lobo já estava saciado de comida, quando viu uma ovelha estirada ao chão. Ao notar que ela havia caído por medo dele, chegou perto e se pôs a encorajá-la, dizendo que a deixaria livre se ela dissesse três sentenças verdadeiras. Então ela começou dizendo, em primeiro lugar, que não desejara encontrá-lo. E, em segundo, disse que, visto seu desejo ter-se frustrado, queria tê-lo encontrado cego. E acrescentou a terceira: “Tomara que todos os lobos morram de morte cruel, pois vocês, malvados, nos fazem guerra, apesar de não lhes fazermos nenhum mal”. E o lobo, reconhecendo que ela não mentia, libertou-a.

A fábula mostra que, muitas vezes, a verdade tem força até junto dos inimigos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 332

Esopo 230

O lobo e a velha

Um lobo faminto zanzava à procura de comida. Ao chegar numa estalagem, ouviu uma criança choramingando e uma velha dizendo, em tom de ameaça: “Pare de chorar, senão vou jogar você para o lobo!”. E o lobo, crente de que a velha falava sério, parou e ficou à espera. A tarde caiu e o lobo, ao ver que nada se seguia àquelas palavras, foi embora, dizendo para si: “Nessa estalagem, as pessoas falam uma coisa mas fazem outra!”.

Esta fábula cairia bem para aqueles homens cujas ações não se coadunam com suas palavras.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 333

Esopo 231

O lobo e o cão

Ao ver um cão enorme preso na coleira, um lobo perguntou: “Quem foi que prendeu você e lhe deu tanta comida?”. E o cão: “Um caçador”. E o lobo: “Tomara que não aconteça uma coisa dessas com um lobo que é amigo meu! A fome é mais leve que a coleira!”.

A fábula mostra que, nas desventuras, nem o estômago sente prazer.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 334

Esopo 232

O lobo e o cavalo

Ao caminhar por uma plantação, um lobo encontrou cevada, mas, como não podia usá-la como alimento, abandonou-a. Estava indo embora, quando encontrou um cavalo. Então o lobo tentou conduzi-lo até a plantação, dizendo que tinha encontrado cevada, mas não a comera, pois a deixara reservada para ele, sobretudo porque sentia prazer em ouvir o barulho de seus dentes. E o cavalo disse, em resposta: “Mas se lobos pudessem se alimentar de cevada, você jamais teria posto as orelhas na frente do estômago!”.

A fábula mostra que os perversos por natureza não merecem confiança, mesmo que façam alarde de boas intenções.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 335

Esopo 233

O lobo e o cordeiro

Um lobo viu um cordeiro bebendo água de um rio e desejou devorá-lo com um pretexto bem articulado. Assim, postou-se mais acima e começou a recriminá-lo, dizendo que ele estava turvando a água e impedindo-o de beber. O cordeiro respondeu que bebia com a ponta dos lábios e que, de mais a mais, não podia ser que ele, que estava abaixo, estivesse turvando a água do lado de cima. E o lobo, fracassando nessa acusação, disse: “Mas no ano passado você injuriou meu pai!”. E, como o cordeiro revidou que naquela época ele ainda não tinha um ano de vida, o lobo lhe disse: “Ora, se suas defesas forem bem-sucedidas, eu não vou comer você!”.

A fábula mostra que, junto daqueles cujo propósito é praticar a injustiça, nenhuma defesa justa tem valor.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 336

Esopo 234

O lobo e o cordeirinho

Um cordeirinho estava sendo perseguido por um lobo e buscou refúgio num templo. Então o lobo se pôs a chamá-lo e a dizer que, se o sacerdote o apanhasse, iria sacrificá-lo ao deus. O cordeirinho respondeu: “Mas para mim é mais aceitável ser sacrificado a um deus do que ser morto por você”.

A fábula mostra que, se é imperioso morrer, é melhor morrer com glória.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 337

Esopo 235

O lobo e o leão

Certa vez um lobo estava levando para sua toca um cordeiro roubado de um rebanho, quando um leão topou com ele e tomou-lhe a presa. Então o lobo estacou e lhe disse, de longe: “Você tomou desonestamente o que era meu!”. E o leão revidou, com um sorriso: “E por acaso você o recebera honestamente de algum amigo?”.

Gatunos e bandidos presunçosos, que trocam acusações quando se veem em alguma complicação, a fábula denuncia.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 338

Esopo 236

O lobo e o pastor

Um lobo seguia um rebanho de ovelhas sem molestá-las. O pastor, a princípio, tomava tento nele, seu inimigo, e, temeroso, vigiava-o de perto. Mas como ele ia seguindo ao seu lado, sem fazer nada de errado ou insinuar qualquer ameaça de roubo, o pastor entendeu que o lobo era antes um protetor do que um embusteiro e, quando precisou ir à cidade, deixou com ele as ovelhas e partiu. Então, o lobo aproveitou a chance e dizimou a maioria. Quando o pastor retornou e viu o rebanho dizimado, disse: “Mas é bem-feito para mim! Por que fui confiar ovelhas a um lobo?”.

Assim, também, os homens perdem com razão os depósitos que confiam a pessoas ambiciosas e sem escrúpulos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 339