O ladrão e a lucerna
Um ladrão acendeu a lucerna no altar de Júpiter
e saqueou o próprio deus com sua própria luz.
Quando ele estava indo embora, com a carga do seu sacrilégio,
a sagrada Religião enviou de repente sua voz:
“Ainda que essas oferendas fossem de homens perversos 5
e odiosas para mim, a ponto de eu não me ofender terem sido roubadas,
mesmo assim, celerado, pagarás tua culpa com a vida,
um dia, quando chegar o dia designado para a tua pena.
Mas para que não ilumine o crime o nosso fogo,
por meio do qual a piedade honra os deuses veneráveis, 10
proíbo que haja tal comércio de luz”.
Por isso hoje não é lícito a lucerna acender-se
da chama dos deuses nem da lucerna, o fogo sagrado.
Quantas coisas úteis este enredo contém
ninguém mais do que quem o descobriu explicará. 15
Significa, primeiramente, que muitas vezes os que tu alimentas
serão identificados principalmente como teus adversários;
em segundo lugar, mostra que os crimes não são punidos 19
pela ira dos deuses, mas pelo tempo designado dos fados; 18
por último, veda que o bom compartilhe 20
com o maléfico o uso de alguma coisa.
Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.