Esopo 273

O náufrago e o mar

Tendo sido arremessado à praia, um náufrago ali jazia, prostrado de fadiga. Pouco depois, levantou-se e, ao olhar o mar, começou a censurá-lo porque ele seduzia os homens com sua aparência tranquila, mas quando os tinha em seu poder se enfurecia e os destruía. Então o mar, assumindo a forma de mulher, lhe disse: “Mas não dirija censuras a mim, meu caro, e sim aos ventos. Por natureza eu sou tal qual você me vê neste momento. Mas eles me assaltam de repente, provocam ondas e me põem em fúria”.

Pois é. Portanto, devemos culpar também nós não aqueles que praticam atos injustos a mando de outros, e sim os que têm autoridade sobre eles.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 388

Esopo 295

O pastor e o mar

Um pastor pastoreava seu rebanho num local à beira-mar e, enquanto contemplava o mar calmo e sereno, sentiu desejo de viver da navegação. Vendeu então as ovelhas, comprou tâmaras de palmeiras e, após carregar um navio, lançou-se ao mar. No entanto, o navio soçobrou, em decorrência de uma forte tempestade, e o homem, tendo perdido toda a carga, conseguiu a duras penas chegar a nado à terra. E já estava de volta a bonança quando ele, ao ver uma pessoa em terra enaltecendo a mansidão do mar, observou: “Caríssimo, esse aí está querendo suas tâmaras!”.

Assim, muitas vezes, os sofrimentos se tornam, para os homens ajuizados, ensinamentos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 418

Esopo 340

Os rios e o mar

Os rios formaram uma comitiva e foram até o mar fazer uma queixa, dizendo assim: “Quando entramos em suas águas, somos água doce e potável, mas você nos converte em água salgada e intragável. Por quê?”. E o mar, vendo que eles o repreendiam, replicou: “Ora, não venham e não fiquem salobres!”.

Esta fábula representa aquelas pessoas que responsabilizam os outros inoportunamente, mesmo que deles estejam recebendo uma ajuda.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 479