Fedro 1.14

De sapateiro a médico

Um mau sapateiro, perdido na miséria,

após começar a exercer medicina em lugar desconhecido

e vender um antídoto com um falso nome,

adquiriu fama com seus verborrágicos rodeios.

Como jazesse abatido por uma grave doença, 5

o rei da cidade, para experimentá-lo,

pediu um copo; em seguida, verteu água no copo

fingindo misturar ao antídoto um veneno

e mandou-o beber, depois de prometer uma recompensa.

Ante o temor da morte, ele então confessou 10

que se tornara médico famoso não pelo domínio da ciência,

mas graças à estupidez do povo.

Após convocar uma assembleia, o rei acrescentou o seguinte:

“De quão grande loucura julgais estar vós,

que não hesitais em confiar vossas cabeças 15

a quem ninguém confiou os pés para calçá-los?”

Eu diria realmente que isto diz respeito àqueles

cuja estupidez é o lucro da falta de vergonha.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Esopo 53

A cabra e o burro

[A fábula mostra] Que quem maquina velhacarias contra outra pessoa é o principal desencadeador de seus próprios males.

Uma pessoa criava uma cabra e um burro. A cabra, que sentia inveja do burro por causa de sua ração farta, ficava dizendo: “Você tolera castigos sem fim, ora fazendo girar a moenda, ora carregando fardos”. E sugeria que ele se fingisse de epilético, caísse num buraco e lá ficasse, imóvel. Ele se deixou persuadir e caiu, quebrando-se todo. Então o dono chamou o médico e pediu ajuda. Para recobrar a saúde do burro, o médico receitou uma infusão feita com pulmão de cabra. Foi então que eles sacrificaram a cabra e medicaram o burro.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 101

Esopo 119

O doente e o médico

Quando o médico perguntou ao doente como havia passado, ele respondeu que tinha suado mais que o normal. O médico disse: “Bom sinal!”. Mas quando, numa segunda oportunidade, o médico indagou-lhe como estava, ele respondeu que fora acometido de arrepios, seguidos de tremedeira. “Bom sinal também!”, disse o médico. E quando ele, na terceira visita, lhe fez perguntas a respeito da doença, o doente falou que estava sofrendo de diarreia. “Isso também é bom sinal!”, disse o médico, e foi embora. Então, a um parente que veio visitá-lo e lhe perguntou como estava, ele respondeu: “Eu, se quer mesmo saber, estou morrendo sob o efeito de bons sinais!”.

Assim, muitos homens são considerados venturosos pelos vizinhos, que se baseiam numa avaliação puramente exterior de coisas que eles próprios têm a maior dificuldade de suportar.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 181

Esopo 251

O médico incompetente

Um médico incompetente acompanhava um enfermo e, enquanto os outros médicos diziam ao doente que ele não corria perigo e que apenas ia continuar com a doença por um longo tempo, ele foi o único a recomendar ao paciente que fizesse seus preparativos, “pois de amanhã você não passa”. Disse isso e retirou-se. Depois de um certo tempo, o doente se levantou e saiu, mesmo pálido e caminhando com dificuldade. O médico, ao topar com ele, disse: “Salve! Como vão os moradores das regiões infernais?”. E o outro respondeu: “Estão serenos, pois beberam da água do rio do Esquecimento. Mas, não faz muito tempo, a Morte e o deus Hades estavam planejando castigos terríveis a todos os médicos, porque eles não deixam morrer os doentes, e estavam anotando os nomes de todos eles. Iam registrar até o seu nome, mas eu me prostrei em súplica diante deles e jurei que você não era médico de verdade e que tinha sido incriminado sem razão”.

A presente fábula põe em tela os médicos despreparados, ignorantes e de conversa elaborada.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 359

Esopo 252

O médico no funeral

Enquanto acompanhava o enterro de um parente, um médico dizia aos que seguiam o cortejo: “Esse homem, se fizesse abstinência de vinho e tivesse feito lavagem intestinal, não teria morrido”. Um dos presentes, então, lhe disse: “Mas você não devia dizer isso agora, que não adianta mais! Devia ter-lhe feito essas recomendações anteriormente, quando ele podia tê-las aproveitado”.

A fábula mostra que devemos prestar socorro aos amigos nos momentos de necessidade, e não dizer ironias depois do desengano dos fatos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 360

Esopo 357

A velha e o médico

Uma velha senhora, doente dos olhos, contratou os serviços de um médico. Ele vinha à sua casa, passava remédio em seus olhos e, enquanto ela os mantinha fechados, aproveitava para surrupiar algum de seus móveis. E, depois que levou tudo embora, encerrou o tratamento e cobrou o valor combinado. Tendo ela se recusado a fazer o pagamento, o médico levou-a ao tribunal. A senhora, no entanto, confirmou que tinha, sim, proposto a remuneração, se ele curasse seus olhos, mas na realidade o que aconteceu foi que com aquele tratamento ela tinha ficado pior do que antes. “Pois naquela época”, afirmou, “eu enxergava todos os móveis da casa, e agora não consigo ver nenhum!”.

Assim, os homens malvados não percebem que, por cobiça, arrastam contra si as provas de sua malvadeza.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 512