Fedro 3.6

A mosca e a mula

Uma mosca pousou no timão e, repreendendo a mula,

diz: “Que lerda és! Não queres ir mais rápido?

Olha que eu vou te picar o pescoço com o meu ferrão.”

Respondeu aquela: “Não sou movida por tuas palavras;

mas temo esse que, estando sentado no primeiro banco, 5

tempera as minhas costas com seu flexível flagelo

e contém a minha boca com freios espumantes.

Por isso, leva embora a tua frívola insolência;

pois eu sei quando devo ir devagar e quando devo correr.”

Por esta fábula pode ser merecidamente ridicularizado 10

aquele que sem valor profere vãs ameaças.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Esopo 35

O burro e a mula

Um burriqueiro colocou fardos sobre um burro e uma mula e pôs-se a tangê-los. Enquanto o caminho seguia pela planície, o burro suportou o peso, mas quando chegaram à montanha ele já não aguentava mais e pediu à mula o favor de assumir uma parte de seu fardo, para que ele pudesse continuar transportando o restante. Mas ela não deu atenção ao pedido. O burro, então, despencou numa ribanceira e arrebentou-se. Sem saber o que fazer, o burriqueiro colocou o fardo do burro sobre a mula e, depois de escorchá-lo, pôs sobre ela também a pele do burro. Foi então que, sob forte exaustão, ela disse: “Bem feito para mim! Se eu tivesse me deixado convencer pelo burro, que me pediu o favor de aliviá-lo um pouco, agora não estaria carregando o burro juntamente com seus fardos!”.

Assim, também, alguns credores avarentos, para não conceder descontos aos devedores, muitas vezes acabam perdendo o próprio capital.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 77

Esopo 36

O burro e a mula com cargas iguais

Um burro e uma mula faziam um mesmo trajeto quando o burro, ao ver que os dois levavam fardos iguais, ficou indignado e pôs-se a reclamar, dizendo que a mula, apesar de ser contemplada com uma dupla quantia de ração, nem por isso estava levando um peso maior. E, tendo eles avançado apenas uma pequena parte do trajeto, o burriqueiro notou que o burro não estava aguentando. Então, tirou-lhe uma parte da carga e depositou-a sobre a mula. E, depois de terem avançado mais um tanto, notou que o burro estava ainda mais extenuado. Então de novo repartiu a carga, até que a retirou toda do burro e colocou-a sobre a mula. Foi aí que ela olhou bem para o burro e disse: “E então, meu caro, você não considera justo que eu mereça uma ração dupla?”.

Pois é. Portanto, convém que também nós julguemos o modo de ser de cada pessoa não pelo princípio, mas pelo fim.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 78

Esopo 267

A mula

Uma mula se empanturrou de cevada e, em seguida, se pôs a saltar, enquanto dizia para si bem alto: “Meu pai é um cavalo, rápido na corrida, e eu sou parecida com ele em tudo”. Veio, porém, o dia em que a necessidade obrigou a mula a correr. E quando a corrida chegou ao fim, ela, com cara de tacho, lembrou-se imediatamente de seu pai, o burro.

A fábula mostra que a pessoa não deve esquecer sua própria origem, ainda que as circunstâncias lhe confiram prestígio, pois a vida é instável.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 380