Fedro 2.2

A velha e a garota que amavam um jovem

Que os homens são de todo modo espoliados pelas mulheres,

amem ou sejam amados, aprendemos certamente pelos exemplos.

Uma mulher não inexperiente, ocultando seus anos

com elegância, amava um certo homem de idade mediana

e desse mesmo homem uma linda jovem tinha conquistado o coração.5

As duas, querendo parecer iguais a ele na idade,

começaram a arrancar alternadamente os cabelos do homem.

Este, que achava que era cuidado pelo capricho das mulheres,

de repente ficou careca; pois a garota tinha arrancado

pela raiz os brancos e a velha, os negros. 10

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.18

A mulher prestes a dar à luz

Ninguém retorna de bom grado ao local que o prejudicou.

No instante do parto, uma mulher, completados os meses,

estava deitada no chão, soltando dolorosos gemidos.

O marido exortou-a a estender seu corpo na cama,

onde melhor liberaria o ônus da natureza. 5

“De modo algum”, diz, “eu confio poder

terminar o mal no lugar em que seu início foi concebido.”

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Esopo 218

O leão trancafiado e o lavrador

Um leão entrou no estábulo de um lavrador. Este, no desejo de apanhá-lo, fechou a porta do cercado. Impossibilitado de sair, o leão dizimou primeiro os rebanhos e, depois, se voltou também para os bois. E o lavrador, temendo por sua própria vida, abriu a porta. Quando o leão já estava longe, sua mulher, ao vê-lo chorando, disse: “Mas é bem feito para você! Por que resolveu trancafiar esse animal, que até de longe você devia evitar?”.

Assim, aqueles que provocam os mais fortes amargam com razão os próprios descuidos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 318

Esopo 268

A mulher e a galinha

Uma mulher viúva, dona de uma galinha que botava um ovo todos os dias, imaginou que, se lhe desse uma quantia maior de ração, ela botaria dois ovos por dia. A mulher, então, passou a fazer isso, mas sucedeu que a galinha engordou e não conseguia botar nem mesmo uma vez por dia.

A fábula mostra que os cobiçosos que estão sempre em busca de um lucro a mais perdem até o que já possuem.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 381

Esopo 269

A mulher e as servas

Uma mulher viúva e trabalhadeira costumava acordar suas jovens servas para os afazeres, ainda à noite, com o canto do galo. E elas, sempre exaustas, concluíram que precisavam torcer o pescoço daquele galo, imaginando que o responsável por seus sofrimentos era ele, que acordava a patroa à noite. Mas aconteceu que, com essa decisão, elas se afundaram em desgraças piores, pois a patroa, sem saber a hora dos galos, passou a despertá-las para o trabalho em hora mais noturna ainda.

Assim, para muitos homens, suas próprias decisões se tornam causa de males.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 382

Esopo 270

A mulher e o marido bêbado

Uma mulher tinha um marido bêbado e, no desejo de livrá-lo do vício, bolou o seguinte plano: ao notar que ele estava grogue de bebida e insensível feito um morto, ela o ergueu nos ombros, levou-o ao cemitério e, depois de acomodá-lo no chão, foi embora. Quando calculou que ele já estivesse novamente sóbrio, voltou lá e começou a bater na porta do cemitério. “Quem está batendo?”, perguntou ele. E a mulher: “Sou eu, a pessoa que traz comida para os mortos!”. E ele: “Ô, fulano, não me ofereça de comer, e sim de beber. Pois você me dá aflição ao fazer-me lembrar de comida, e não de bebida!”. E ela, dando golpes no peito, disse: “Ai de mim, desgraçada! De nada adiantou meu plano. Você, marido, não só não aprendeu a lição, como ainda ficou pior, pois seu vício já se tornou um hábito”.

A fábula mostra que não se deve persistir nas más ações, pois há um momento em que, mesmo que não se queira, o hábito se impõe ao homem.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 383

Esopo 271

A mulher feiticeira

Uma feiticeira que se oferecia para fazer encantamentos e esconjuros contra a ira dos deuses vivia sempre cheia de trabalho e, com ele, conseguia fartos recursos para viver. No entanto, algumas pessoas registraram queixa contra ela por causa dessas práticas e, levando-a ao tribunal sob a acusação de instituir novidades a respeito das coisas divinas, fizeram-na condenar à morte. Ao vê-la sendo retirada do tribunal, uma pessoa lhe disse: “Mas você, que alardeava rechaçar os rancores das divindades, como não conseguiu aplacar os seres humanos?”.

Desta fábula pode servir-se uma pessoa em relação a uma mulher impostora que faz alarde de prodígios, mas se revela incapaz de realizações banais.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 384