A pantera e os pastores
O mesmo favor costuma ser devolvido pelos menosprezados.
Certa vez uma pantera distraída caiu num buraco.
Os camponeses a viram; uns a espancam com bastões,
outros tacam pedras; alguns, ao contrário, compadecidos
dela que certamente morreria mesmo que ninguém a ferisse, 5
atiraram um pão para que ela mantivesse a respiração.
Sobreveio a noite; voltam para casa seguros
de que, no dia seguinte, eles iriam encontrá-la morta.
Mas ela, assim que refez suas debilitadas forças,
livra-se do buraco com um ágil salto 10
e com rápido passo apressa-se para sua toca.
Passados uns poucos dias, sai voando,
trucida o gado, mata os próprios pastores
e, devastando tudo, investe furiosa num ataque raivoso.
Então, temendo por si os que tinham poupado a fera 15
não reclamam do prejuízo, rogam somente por sua vida.
Mas ela: “Eu lembro quem me atacou com pedra,
quem me deu pão; vós, deixai de ter medo;
volto como inimiga daqueles que me feriram.”
Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.