Esopo 283

O passarinheiro e a cegonha

Um passarinheiro estendeu redes com visgo e ficou espreitando a caça de longe. E, assim que uma cegonha pousou entre os visgos, ele foi correndo apanhá-la. Ela, então, lhe pediu que a soltasse, dizendo que não era nociva aos homens; bem ao contrário, era muito útil, pois apanhava e matava as serpentes e os demais répteis. Então o passarinheiro respondeu: “Mas se realmente você não é maléfica, merece punição exatamente por isto: por envolver-se com malvados”.

Pois é. Portanto, também nós devemos evitar o convívio com os malvados, para não passar a impressão de sermos coniventes com a maldade deles.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 404

Esopo 284

O passarinheiro e a cotovia

Um passarinheiro montou armadilhas para pássaros. Então uma cotovia, que o observava, perguntou o que ele estava fazendo. Ele respondeu que estava construindo uma cidade e, em seguida, afastou-se dali. E a cotovia, que dera crédito às palavras do homem, aproximou-se da armadilha e, ao comer a isca, sem perceber ficou presa no laço. Então ela disse ao passarinheiro, que veio correndo pegá-la: “Mas se você, meu caro, construir cidades como essa, não irá encontrar muitos moradores!”.

A fábula mostra que casas e cidades se esvaziam mais ainda quando os administradores são insuportáveis.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 405

Esopo 285

O passarinheiro e a perdiz

Já era tarde da noite quando um passarinheiro recebeu um hóspede em casa. E, como não tivesse o que lhe oferecer, avançou sobre sua perdiz domesticada, e estava prestes a sacrificá-la quando ela começou a chamá-lo de mal-agradecido, pois inúmeras vezes lhe tinha sido útil, sempre que atraía suas semelhantes para as mãos dele. E agora ele ia matá-la!? Então o passarinheiro rebateu: “Mas é bem por isso que vou matar você, pois nem suas semelhantes você poupa!”.

A fábula mostra que aqueles que traem os parentes conquistam o ódio não só dos injustiçados, como também dos que se beneficiam da traição.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 406

Esopo 286

O passarinheiro e as pombas

Um passarinheiro estendeu as redes e prendeu nelas algumas pombas domésticas. Em seguida, ficou parado a uma certa distância, espreitando o que ia acontecer. Assim que algumas pombas agrestes chegaram perto e se enroscaram nos laços, ele correu para apanhá-las. Então elas culparam as pombas domésticas, dizendo que essas, mesmo sendo suas irmãs de raça, não as alertaram da armadilha. E aquelas, em resposta, disseram: “Mas é melhor nos proteger dos patrões do que alegrar nossos parentes!”.

Assim, também, não merecem censura os servos que, por afeição aos patrões, põem de lado a consideração pelos próprios parentes.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 407