O pássaro e o galo
Um amigo chegou de repente à casa de um passarinheiro,
quando ele se preparava para jantar aipo e segurelha.
Nada havia na gaiola, pois ele não havia ido à caça.
Ele teve o impulso de degolar uma perdiz sarapintada,
domesticada, que mantinha como chamariz de caça, 5
mas ela pediu-lhe que não a matasse, suplicando assim:
“E depois, meu caro, o que farás com a rede,
quando fores à caça? Quem reunirá para ti
um vistoso bando de pássaros gregários?
Ao som de que melodia irás dormir?” 10
Ele então deixou a perdiz e foi decidido
apanhar um galinho de barbicha.
Mas ele, no seu poleiro, soou o cocoricó e disse:
“Como saberás quanto falta para o nascer da aurora,
se matares a mim, teu profeta das horas? Como saberás 15
se Órion do arco de ouro já completou o seu curso?
E de tuas tarefas matinais quem te lembrará,
quando os pássaros têm as asas cobertas de orvalho?”
E o outro disse: “Tu és muito competente em horas,
contudo o meu amigo ali precisa ter o que comer.” 20
[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]