Bábrio 2.124

O pássaro e o galo

Um amigo chegou de repente à casa de um passarinheiro,

quando ele se preparava para jantar aipo e segurelha.

Nada havia na gaiola, pois ele não havia ido à caça.

Ele teve o impulso de degolar uma perdiz sarapintada,

domesticada, que mantinha como chamariz de caça, 5

mas ela pediu-lhe que não a matasse, suplicando assim:

“E depois, meu caro, o que farás com a rede,

quando fores à caça? Quem reunirá para ti

um vistoso bando de pássaros gregários?

Ao som de que melodia irás dormir?” 10

Ele então deixou a perdiz e foi decidido

apanhar um galinho de barbicha.

Mas ele, no seu poleiro, soou o cocoricó e disse:

“Como saberás quanto falta para o nascer da aurora,

se matares a mim, teu profeta das horas? Como saberás 15

se Órion do arco de ouro já completou o seu curso?

E de tuas tarefas matinais quem te lembrará,

quando os pássaros têm as asas cobertas de orvalho?”

E o outro disse: “Tu és muito competente em horas,

contudo o meu amigo ali precisa ter o que comer.” 20

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Fedro 1.9

O pássaro dando conselhos a uma lebre

Que é tolice dar conselho aos outros e não se precaver

mostraremos em poucos versos.

Um pássaro recriminava uma lebre que, apanhada por uma águia,

dava sentidos soluços: “Onde está”, diz,

“aquela tua conhecida rapidez? Por que os teus pés pararam assim?” 5

Enquanto falava, um gavião o arrebata, sem que ele se dê conta,

e, enquanto ele grita em vão lamento, o mata.

E a lebre, já meio morta, diz em consolo de sua morte:

“Tu, que há pouco em segurança rias de minha desgraça,

com queixa similar, lamentas o teu destino.” 10

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Esopo 136

O gaio e os pássaros

Zeus, pretendendo instituir o rei dos pássaros, marcou uma data em que eles deveriam se apresentar como canditados. Então, um gaio, consciente de que não tinha chance devido à sua feiura, aproximou-se, recolheu as penas que caíam de outros pássaros e prendeu-as ao redor de seu corpo. Quando chegou o dia marcado, o gaio, multicolorido, foi também até Zeus. Mas na hora em que Zeus estava prestes a levantar a mão para designar rei o gaio por conta de seu esplêndido visual, os pássaros indignados o rodearam e cada um arrancou dele a pena que lhe pertencia. Então, aconteceu que ele, depenado, voltou a ser gaio.

Assim, também, os homens devedores, enquanto estão com a riqueza alheia, acham que são os tais, mas quando a devolvem mostram ser exatamente o que eram desde o início.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 206

Esopo 147

O gato que convidou pássaros para um jantar

Um gato fez de conta que ia comemorar seu aniversário e convidou pássaros para um jantar. Em seguida, ficou de lado observando e, quando todos já tinham entrado, fechou a porta. Então começou a devorá-los, um por um.

Esta fábula cai bem para aqueles que se entregam a uma alegre expectativa e vivenciam o contrário.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 223