Fedro 3.2

A pantera e os pastores

O mesmo favor costuma ser devolvido pelos menosprezados.

Certa vez uma pantera distraída caiu num buraco.

Os camponeses a viram; uns a espancam com bastões,

outros tacam pedras; alguns, ao contrário, compadecidos

dela que certamente morreria mesmo que ninguém a ferisse, 5

atiraram um pão para que ela mantivesse a respiração.

Sobreveio a noite; voltam para casa seguros

de que, no dia seguinte, eles iriam encontrá-la morta.

Mas ela, assim que refez suas debilitadas forças,

livra-se do buraco com um ágil salto 10

e com rápido passo apressa-se para sua toca.

Passados uns poucos dias, sai voando,

trucida o gado, mata os próprios pastores

e, devastando tudo, investe furiosa num ataque raivoso.

Então, temendo por si os que tinham poupado a fera 15

não reclamam do prejuízo, rogam somente por sua vida.

Mas ela: “Eu lembro quem me atacou com pedra,

quem me deu pão; vós, deixai de ter medo;

volto como inimiga daqueles que me feriram.”

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.15

O burro para o velho pastor

Na mudança de governo, frequentemente

os pobres nada mudam, exceto os costumes de seu senhor.

Que isso é verdade esta pequena fabulazinha mostra.

Um velho medroso apascentava seu burro no prado.

Aterrorizado pelo repentino clamor dos inimigos, ele 5

aconselhava ao burro que fugisse, para que não pudessem ser capturados.

Mas aquele, tranquilo: “Pergunto: acaso julgas

que o vencedor me porá duas cargas?”

O velho disse que não. “Então que diferença faz para mim

a quem eu sirva, se carrego a minha carga?” 10

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Esopo 1

As abelhas e o pastor

Fábula da abelha e do pastor, a qual exorta a não se auferir ganhos desonestos.

No oco de um carvalho, as abelhas fabricavam mel. Um pastor encontrou-as casualmente e decidiu pegar uma porção do mel, mas elas, vindo daqui e dali, puseram-se a voejar em volta dele e, com seus ferrões, o fizeram recuar. “Vou embora”, disse, por fim, o pastor, “não preciso de mel, se tenho que dar de cara com abelhas.”

As más vantagens são um perigo para quem as persegue.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 31

Esopo 10

A águia, a gralha e o pastor

Uma águia desceu voando do alto de um rochedo e apanhou um cordeiro. Uma gralha viu isso e, por inveja, quis imitá-la. E então, precipitando-se com muito estardalhaço, foi ter sobre um carneiro, mas suas garras se enroscaram nos tufos de lã. Sem conseguir alçar voo, ela ficou se debatendo, até que o pastor, ao notar o que se passava, foi correndo apanhá-la, aparou as pontas de suas asas e, quando caiu a noite, levou-a para suas crianças. E, quando elas perguntaram que pássaro era aquele, ele disse: “Pelo que eu bem sei, é uma gralha, mas, pelo que ela pretende, é uma águia”.

Assim, a rivalidade com os superiores, além de não levar acrescenta o riso a nada, ainda às desgraças.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 46

Esopo 54

A cabra e o pastor de cabras

Um pastor de cabras chamou suas cabras para o redil, mas uma delas ficou para trás, saboreando a pastagem. O pastor atirou contra ela uma pedra e sua boa pontaria quebrou-lhe o chifre. Depois, ficou implorando à cabra que não contasse nada ao patrão. Mas ela respondeu: “Mesmo que eu me cale, como vou esconder? Pois é evidente para todo mundo que meu chifre está quebrado!”.

[A fábula mostra] Que, quando a culpa é evidente, não há como ocultá-la.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 102

Esopo 213

O leão, a raposa e a corça

Um leão, que jazia doente em uma caverna, disse à estimada raposa, com quem mantinha convívio: “Se você me quer vivo e saudável, ludibrie com palavras a maior corça que vive na floresta, faça com que ela venha às minhas mãos, pois ela tem um coração e entranhas que despertam o meu apetite”. A raposa se foi e, ao encontrar a corça a saltitar na floresta, saudou-a efusivamente e, em seguida, lhe disse: “Vim trazer boas novas! Você sabe que o leão, nosso rei, é meu vizinho. Ele está doente, moribundo, e se pôs a considerar sobre qual dos animais iria sucedê-lo. O javali é sem juízo”, afirmava ele, “o urso, balofo, a pantera, ranzinza, o tigre, fanfarrão. A corça é a mais digna da realeza, porque tem porte altivo, vida longa e um chifre que intimida as serpentes. Bom, mais delongas para quê? Por decisão dele, você assumirá o reinado! E eu, que recompensa vou ganhar por ter-lhe dado essa notícia em primeira mão? Vamos, prometa-me alguma coisa. Estou com pressa, não vá ele sentir a minha falta! Ele me tem como conselheira para tudo. Se você quer ouvir a mim, que sou velha, o meu conselho é que você venha também e aguarde junto do moribundo”. Assim disse a raposa. Com essas palavras, a corça ficou toda cheia de si e foi à caverna, ignorando o que ia acontecer. O leão, então, lançou impetuoso suas garras sobre ela, dilacerando-lhe somente as orelhas, pois a corça tratou de fugir rapidamente para a floresta. Enquanto a raposa dava murros porque havia feito esforços em vão, o leão gemia, entre fortes rugidos, pois a fome e o desgosto o dominavam. Então ele suplicou à raposa que fizesse uma segunda tentativa para trazer a corça novamente, por meio de um ardil. “A tarefa que você me atribui é difícil e penosa. Contudo, vou lhe dar esse apoio”, disse a raposa. Assim, como um cão farejador, saiu à procura da corça e foi tramando trapaças rumo à floresta, seguindo a indicação de uns pastores, a quem ela perguntou se tinham visto uma corça sangrando. A raposa a encontrou esbaforida e parou diante dela com a maior cara de pau. Indignada, a corça arrepiou o pelo e disse: “Nunca mais você me pega, sua peste! E se chegar perto de mim, não sairá viva! Vá raposinhar com outros, inexperientes, estimulando-os a se tornarem reis!”. A raposa rebateu: “Você é tão frágil e covarde assim, que desconfia de nós, seus amigos? O leão, quando agarrou sua orelha, ia dar conselhos e recomendações a respeito desse cargo tão importante, porque ele está morrendo! E você não tolerou nem mesmo um arranhão da pata de um enfermo! Agora a indignação dele é muito maior que a sua, e ele pretende tornar rei o lobo. Ai de mim, um senhor malvado! Mas venha, não se deixe sugestionar por nada, comporte-se como um cordeiro. Juro por todas as folhas e fontes que não sofrerá nenhum mal da parte do leão. Quanto a mim, quero apenas o seu bem”. Com tais ludíbrios, a raposa convenceu a medrosa a acompanhá-la uma segunda vez. E quando a corça adentrou a caverna, o leão agarrou a sua janta e se pôs a comer os ossos todos, o tutano e as entranhas. A raposa ficou parada, observando. Nisso cai o coração da corça e a raposa sorrateiramente o apanha e devora, como prêmio de seu empenho. E quando percebeu que o leão farejava todas as partes mas não achava o coração, ela, postada à distância, lhe disse: “A bem da verdade, essa fulana aí não tinha coração. Nem adianta procurar! Que espécie de coração teria ela, que veio ter por duas vezes à morada e às mãos de um leão?”.

[A fábula mostra] Que o amor pelas honrarias turva a mente humana e subestima as consequências dos perigos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 309-311

Esopo 225

O leitão e os cordeiros

Um leitão se meteu num rebanho de cordeiros e ali ficou pastando. Mas um dia, o pastor o agarrou e ele se pôs a berrar e a espernear. Então os cordeiros lhe chamaram a atenção, por causa de seus berros, dizendo: “Ele nos agarra constantemente e nós não gritamos!”. Ele respondeu: “Mas ele me agarra diferente! Ele cerca vocês por causa da lã ou do leite, mas de mim ele quer a carne!”.

A fábula mostra que têm razão de chiar aqueles que veem ameaçadas não suas posses, mas suas vidas.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 326

Esopo 236

O lobo e o pastor

Um lobo seguia um rebanho de ovelhas sem molestá-las. O pastor, a princípio, tomava tento nele, seu inimigo, e, temeroso, vigiava-o de perto. Mas como ele ia seguindo ao seu lado, sem fazer nada de errado ou insinuar qualquer ameaça de roubo, o pastor entendeu que o lobo era antes um protetor do que um embusteiro e, quando precisou ir à cidade, deixou com ele as ovelhas e partiu. Então, o lobo aproveitou a chance e dizimou a maioria. Quando o pastor retornou e viu o rebanho dizimado, disse: “Mas é bem-feito para mim! Por que fui confiar ovelhas a um lobo?”.

Assim, também, os homens perdem com razão os depósitos que confiam a pessoas ambiciosas e sem escrúpulos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 339

Esopo 287

O pastor brincalhão

Um pastor tangia seu rebanho para bem longe da aldeia e passava o tempo se divertindo com a seguinte brincadeira: punha-se a gritar aos aldeões por socorro, dizendo que havia lobos atacando suas ovelhas. E os aldeões, por duas ou três vezes, saíram aturdidos em disparada e, depois, voltaram para trás, ridicularizados. Mas por fim aconteceu que os lobos vieram de verdade e, enquanto iam estraçalhando o rebanho, o pastor se pôs a pedir socorro aos aldeões. Mas estes, crentes de que ele estivesse brincando como de costume, pouco se importaram. E assim se deu que o pastor ficou sem suas ovelhas.

A fábula mostra que os mentirosos só têm este lucro: não merecem crédito nem quando dizem a verdade.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 409

Esopo 288

O pastor de cabras e as cabras selvagens

Um pastor tocou suas cabras para o pasto e, ao vê-las confundidas com cabras selvagens, tangeu todas juntas, ao anoitecer, para sua gruta. No dia seguinte, uma forte borrasca o impediu de levá-las à costumeira pastagem. Então ele se pôs a cuidar delas lá dentro: às suas próprias cabras dava comida na quantia exata para elas não sentirem fome, mas às estranhas adicionava muito mais, no intuito de tomá-las para si. Findo o temporal, ele as conduziu todas juntas para o pasto, mas as cabras selvagens, quando alcançaram os montes, puseram-se em fuga. O pastor começou a acusá-las de ingratidão, visto que o estavam deixando após terem recebido tratamento diferenciado. Elas, então, se voltaram e disseram: “Mas é por isso mesmo que ficamos mais alertas, pois se você, desmerecendo suas companheiras de longa data, concedeu privilégios a nós, que só ontem nos tornamos suas conhecidas, é claro que, mais tarde, se outras cabras também surgirem, você dará primazia a elas e não a nós!”.

A fábula mostra que não devemos acolher os afetos que concedem das pessoas privilégios a nós, seus amigos recentes, em detrimento dos amigos de longa data. Devemos considerar que, mesmo que nossa amizade se torne duradoura, elas vão sempre dar preferência para aqueles com quem venham a travar amizade.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 410