Fedro 3.18

O pavão para Juno a respeito de sua voz

O pavão veio a Juno, queixando-se com indignação

porque ela não lhe atribuiu o canto do rouxinol;

que aquele era admirável para todas as aves

e que ele era zombado assim que soltava sua voz.

Então, para consolá-lo, disse a deusa: 5

“Mas vences na beleza, vences no tamanho;

o brilho da esmeralda resplandece em teu pescoço,

e tuas penas pintadas estende uma cauda de pedras preciosas”.

“De que me vale”, diz, “a beleza muda, se o som me vence?”

“As qualidades vos foram dadas pelo arbítrio dos fados; 10

a ti, a beleza, as forças à águia, ao rouxinol o canto,

o augúrio ao corvo, à gralha os presságios favoráveis;

e todas as aves estão contentes com seus próprios dotes.

Não queiras pretender o que não te foi dado,

para que tua esperança frustrada não acabe em queixa”. 15

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.3

A gralha presunçosa e o pavão

Para que ninguém se meta a vangloriar-se com bens alheios

mas, antes, procure levar a vida conforme sua própria condição,

Esopo nos apresentou este exemplo.

Uma gralha, impada de vão orgulho,

pegou do chão as penas que tinham caído de um pavão 5

e se enfeitou. Em seguida, desprezando os seus,

se misturou a um formoso bando de pavões.

Estes, porém, arrancam as penas da ave descarada

e a afugentam a bicadas. Duramente desancada, a gralha,

abatida, pôs-se a voltar para junto dos de sua espécie; 10

repelida por eles, teve de aguentar uma triste infâmia.

Então uma daquelas que ela tinha desprezado antes:

“Se tivesses ficado contente com nossas moradas

e aceitado conformar-se com o que a natureza te dera,

nem terias sofrido aquela afronta 15

nem a tua desgraça sentiria esta repulsa”.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Esopo 296

O pavão e o gaio

Estavam as aves deliberando a respeito do poder real, quando um pavão achou que merecia ser aclamado rei por causa de sua formosura. E, como as aves estavam dispostas a votar nele, um gaio disse: “Mas se você for o rei, como vai nos socorrer se uma águia vier atrás de nós?”.

A fábula mostra que os soberanos devem exibir como adorno não a beleza, mas o poder.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 419

Esopo 297

O pavão e o grou

Um pavão zombava de um grou, ridicularizando sua cor e dizendo assim: “Eu me visto de dourado e de púrpura, enquanto você não tem nenhuma beleza em suas asas”. E o grou respondeu: “Mas eu solto minha voz bem perto dos astros e voo no alto do céu, enquanto você caminha aqui embaixo, no meio de galinhas, feito um galo”.

[A fábula mostra] Que é melhor malvestida e ilustre uma pessoa ser do que viver se gabando de sua riqueza, mas no anonimato.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 420