Fedro 4.16

O mesmo [Prometeu]

Um outro perguntou que razão tinha procriado

lésbicas e machos afeminados; o velho explicou:

“O mesmo Prometeu, criador do povo de barro

que, assim que se choca com a fortuna, se quebra,

após ter moldado separadamente durante o dia todo 5

as partes da natureza que o pudor oculta com a veste,

para que mais tarde pudesse adaptá-las ao seus corpos,

foi de repente convidado por Líber para um jantar;

depois de ter encharcado suas veias com muito néctar,

voltou tarde para sua casa com o pé titubeando. 10

Então com o coração sonolento e por um ébrio engano,

aplicou a vagina no gênero masculino,

e pôs membros masculinos nas mulheres.

Assim agora a libido é desfrutada com um prazer torto”.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Esopo 12

O alforje

Quando outrora Prometeu moldou os homens, pendurou neles dois alforjes, um cheio de vícios alheios e, o outro, repleto de vícios pessoais, acomodando na frente o primeiro e prendendo atrás o segundo. Disso resultou que os homens enxergam num relance os vícios dos outros, mas não notam os próprios.

Desta fábula pode servir-se uma pessoa em relação a um homem muito ocupado que não tem olhos para seus próprios afazeres, mas se ocupa daqueles que não lhe dizem respeito.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 48

Esopo 214

O leão, Prometeu e o elefante

Um leão vivia se queixando com Prometeu porque este o havia feito grande e belo, havia munido sua mandíbula de dentes e fortalecido suas patas com garras; fizera-o, enfim, mais poderoso que os outros animais. “Mas eu, com tais regalias”, dizia ele, “tenho medo do galo!” E Prometeu respondeu: “Você não tem motivo para me culpar, pois recebeu de mim tudo o que eu pude fazer. E é só diante desse animal que seu ânimo esmorece!”. Mas o leão se deplorava, recriminando a própria covardia e, por fim, quis morrer. Estava com essas ideias na cabeça, quando encontrou por acaso um elefante. Este o cumprimentou e se deteve a conversar. Ao ver que ele abanava as orelhas o tempo todo, o leão disse: “O que há com você? Por que não sossega um pouco essa orelha?”. E o elefante, que justamente naquele momento estava com um mosquito voejando ao seu redor, respondeu-lhe: “Você está vendo esta coisa minúscula, este zumbidor? Se ele entrar no buraco do meu ouvido, estou morto!”. E o leão tornou: “Ora! Por que eu, que sou o tal, deveria morrer, se sou muito mais sortudo que o elefante, uma vez que o galo é bem mais que um mosquito?”.

Você está vendo a força que tem o mosquito, a ponto de amedrontar até um elefante!

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 312-313

Esopo 310

Prometeu e os homens

Por ordem de Zeus, Prometeu criou os homens e os bichos. Mas, quando Zeus viu que os animais irracionais eram bem mais numerosos, mandou Prometeu eliminar alguns deles, transformando-os em seres humanos. Prometeu cumpriu a determinação e o resultado foi que aqueles que não foram no início criados como homens têm forma humana, mas almas bestiais.

A fábula reprova o homem irascível e bestial.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 434

Esopo 383

Zeus, Prometeu, Atena e Momo

Assim que Zeus, Prometeu e Atena concluíram suas obras – a de Zeus era um touro, a de Prometeu, um homem, e a de Atena, uma casa –, escolheram Momo para juiz. E ele, com inveja dos artefatos, disse, logo de saída, que a falha de Zeus era não ter colocado os olhos do touro nos chifres, para ele enxergar onde ia bater. A falha de Prometeu, por sua vez, era não ter pendurado o coração dos homens na parte externa, para os malvados não passarem despercebidos e para ficar visível o que cada um tinha em mente. E, em terceiro lugar, disse que Atena devia ter acrescentado rodas na casa, para uma pessoa se mudar com facilidade, no caso de vir a ter um vizinho malvado. Mas Zeus se irritou com ele por causa dessa falta de consideração e o enxotou do Olimpo.

A fábula mostra que nada é tão perfeito que seja inteiramente isento de crítica.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 543