Bábrio 1.24

O Sol e as rãs

As núpcias do Sol estavam ocorrendo no verão.

Os animais organizavam para o deus alegres festejos

e nos charcos também as rãs dirigiam coros.

Interrompendo-as, disse-lhes um sapo: “Não é de peãs

o momento que vivemos, e sim de cuidados e de aflição. 5

Pois ele, que é um só, já resseca todo o brejo,

que males não sofreremos se, depois de casado,

procriar um filhote igual a si?”

Muitas pessoas levianas em excesso se alegram

com coisas que não lhes proporcionam alegria alguma. 10

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Fedro 1.2

As rãs pediram um rei

Quando Atenas florescia sob leis justas,

uma desenfreada liberdade tomou conta da cidade

e a libertinagem soltou o antigo freio.

Aí, tendo os partidos das facções conspirado,

o tirano Pisístrato ocupa a cidadela. 5

Como os atenienses chorassem a triste servidão,

(não porque ele fosse cruel, mas porque toda carga é pesada

para os não acostumados) e começassem a queixar-se,

Esopo contou então a seguinte fábula:

As rãs, que vagavam livres nos pântanos, 10

com grande clamor pediram a Júpiter um rei,

que reprimisse com energia os costumes dissolutos.

O pai dos deuses riu e lhes deu

um pequeno pedaço de pau, que, lançado repentinamente,

aterrorizou, com o movimento e barulho da água, a medrosa espécie. 15

Este permaneceu imerso no lodo por muito tempo, até que,

casualmente, uma pôs silenciosamente a cabeça para fora do charco

e, após examinar o rei, chama todas as outras.

Aquelas, perdido o medo, chegam nadando em desafio,

e a turba atrevida salta sobre o pedaço de pau. 20

Depois de ultrajá-lo com todo tipo de afronta,

enviaram rãs que pedissem um outro rei a Júpiter,

visto ser inútil aquele que lhes havia sido dado.

Então ele lhes enviou uma hidra, que, com seu dente cruel,

começou a dilacerá-las uma a uma. Inertes, 25

tentam em vão fugir da morte, o medo lhes apaga a voz.

Então furtivamente dão a Mercúrio recados para Júpiter,

para que ele socorresse as aflitas. Então o deus, em resposta,

disse: “ Porque não quisestes suportar o vosso bem-estar,

suportai a desgraça.” “Vós também, ó cidadãos”, diz Esopo, 30

aguentai este mal, para que não venha um maior”.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.6

As rãs para o sol

As concorridas núpcias de um ladrão, vizinho seu,

viu Esopo e, de imediato, começou a narrar:

Como um dia o Sol quisesse casar-se,

as rãs ergueram para os astros uma gritaria.

Movido pelo alvoroço, quis Júpiter saber 5

o motivo da queixa. Então, uma habitante do charco

disse: “Agora um só já seca todos os lagos

e nos obriga a morrer desgraçadas numa árida morada.

O que acontecerá então, se ele gerar filhos?”

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.24

A rã que arrebentou e o boi

O fraco, quando quer imitar o forte, perece.

Certa vez, uma rã avistou um boi no prado

e, tocada pela inveja de tão grande corpulência,

estufou sua rugosa pele; então a seus filhos

perguntou se estava maior do que o boi. 5

Eles disseram que não. Novamente ela estirou a pele

com maior esforço e, de modo semelhante, perguntou

quem era maior. Eles disseram o boi.

Por fim, indignada, querendo mais vigorosamente

inflar-se, morreu com o corpo arrebentado. 10

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.30

As rãs temendo as brigas dos touros

Os humildes padecem quando os poderosos estão em desacordo.

Uma rã no brejo, vendo uma briga de touros,

diz: “Ai, que grande desgraça nos ameaça!”

Perguntada por outra por que dizia isto,

já que eles disputavam a liderança do rebanho 5

e os bois viviam sua vida longe delas:

“A morada está afastada e a raça é diferente;

aquele que, expulso, fugir do reino dos bosques,

virá para os esconderijos secretos do brejo

e pisará em nós e nos esmagará com sua dura pata. 10

Assim o furor deles tem a ver com a nossa cabeça.”

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Esopo 38

O burro e as rãs

Um burro atravessava um charco carregando um fardo de lenha, quando deu um escorregão e caiu. Como não podia se erguer, ficou gemendo e se lastimando. Então as rãs do brejo, ao ouvir os lamentos, disseram: “Se você, meu caro, que caiu há pouco, está gemendo dessa maneira, o que não faria se passasse aqui tanto tempo quanto nós?”.

Dessa fábula pode servir-se uma pessoa a propósito de um homem frouxo que reclama de ínfimas desgraças, enquanto ela própria suporta, sem dificuldade, desgraças enormes.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 80

Esopo 202

O leão e a rã

Ao ouvir o coaxar de uma rã, um leão se voltou para aquele barulho, crente de que se tratava de um animal de grande porte. Então, aguardou algum tempo e, quando a viu saindo do brejo, chegou perto e esmagou-a, dizendo: “Que o ouvir não abale ninguém antes do ver”.

Para homem de eloquência doentia, que só consegue tagarelar, a fábula é oportuna.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 297

Esopo 224

As lebres e as rãs

Cientes da própria covardia, as lebres concluíram que deviam se jogar de um precipício e, então, rumaram para o topo de uma ribanceira, que ia dar num brejo. E as rãs desse brejo, tão logo ouviram o tropel das lebres, se mandaram para o fundo da água. Foi então que uma das lebres as viu fazendo isso e disse para as demais: “Nada de nos lançarmos nessa fundura! Pois acabamos de descobrir que existem animais bem mais covardes do que nós!”.

Assim, também, para os homens, as desgraças alheias se tornam consolo para as infelicidades pessoais.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 325

Esopo 314

A rã médica e a raposa

Certa vez, havia num brejo uma rã que gritava para todos os animais: “Eu sou médica, especialista em todos os tipos de remédios!”. Ao ouvi-la, disse uma raposa: “Se você, que manquitola, não cura sua própria deficiência, como é que vai salvar os outros?”.

A fábula mostra que, se alguém é leigo em educação, como poderá educar os demais?

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 441

Esopo 315

As rãs que pediam um rei

Chateadas por viverem sem governo, as rãs enviaram a Zeus embaixadores pedindo que lhes desse um rei. E o deus, vendo como elas eram ingênuas, lançou no brejo um pedaço de pau. De imediato, as rãs, sobressaltadas com o barulho, se mandaram para o fundo do brejo. Mas depois, como o pau não se mexia, elas voltaram à tona e chegaram a tal ponto de descaso que trepavam nele e lá ficavam empoleiradas. Decepcionadas com um rei como aquele, as rãs foram a Zeus uma segunda vez para pedir que lhes trocasse o governante, pois aquele primeiro era muito bonachão. Foi aí que Zeus perdeu a paciência e lhes mandou uma cobra-d’água, que agarrou e devorou todas elas.

A fábula mostra que é melhor ter chefes indolentes e sem maldade do que chefes turbulentos e maldosos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 443