Fedro 4.3

Sobre a raposa e o cacho de uva

Forçada pela fome, uma raposa tentava apanhar um cacho

de uvas de alta videira, saltando com todas as suas forças.

Como não pôde alcançá-lo, indo embora diz:

“Ainda não está maduro; não quero colher verde”.

Aqueles que desdenham com palavras as coisas 5

que não conseguem fazer, deverão aplicar a si este exemplo.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 4.9

A raposa e o bode

O homem astuto, assim que depara com o perigo,

busca encontrar a fuga na desgraça do outro.

Uma raposa descuidada tinha caído em um poço

e ficou presa devido à margem muito alta,

quando no mesmo local chegou um bode com sede. 5

Assim que ele perguntou se a água era doce

e abundante, aquela, maquinando uma trapaça:

“Desce, amigo; é tão grande a qualidade da água

que a minha vontade não consegue ser saciada”.

O barbudo atirou-se. Então a raposinha 10

escapou do poço, apoiada em seus altos chifres,

e deixou o bode aprisionado no poço fechado.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 4.21

A raposa e víbora

Uma raposa, ao cavar o seu covil, enquanto tirava a terra

e fazia muitas galerias muito profundas,

chegou ao recôndito antro de uma víbora

que guardava tesouros ocultos.

Assim que a avistou: “Primeiro peço-te que concedas perdão 5

para a minha imprudência; depois, já que vês perfeitamente

o quanto o ouro não é conveniente para a minha vida,

que me respondas com benevolência: que fruto obténs

deste trabalho ou quão grande é a recompensa

para que te prives do sono e passes a vida nas trevas?” 10

“Nenhuma” diz aquela, “mas isto me foi incumbido

pelo supremo Júpiter”. “Então nem tiras para ti

nem doas nada a ninguém?” “Assim agrada aos Fados”.

“Não quero que fiques brava, se eu disser francamente:

nasceu com os deuses irados quem é semelhante a ti”. 15

Tu, que hás de partir para onde partiram os antepassados,

por que, com a mente cega, torturas a tua vida desgraçada?

Digo a ti, avarento, alegria de teu herdeiro, que enganas

os deuses com incenso e a ti próprio com comida,

que ouves triste o som musical da cítara, 20

a quem aflige a alegria das flautas,

a quem os preços dos alimentos arrancam um gemido,

que, enquanto amontoas centavos ao teu patrimônio,

aborreces o céu com sórdido perjúrio,

que aparas toda despesa do funeral 25

para que a Libitina não tenha algum lucro com o que é teu.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Bábrio 1.11

A raposa com fogo no rabo

A uma raposa hostil a videiras e também a pomares

uma pessoa queria envolver em estranha tortura.

Prendeu então no seu rabo um tufo de linho, pôs fogo

e deixou-a fugir. Mas uma divindade protetora 

foi guiando para a lavoura do malfeitor 5

a raposa com o fogo. Era época de colheita,

e a bela produção do campo, repleta de esperanças.

Ele, então, foi atrás dela, deplorando a intensa labuta,

e Deméter nem olhou para o terreiro dele.

    [É preciso ser doce e não se irritar além da medida.

Existe uma certa punição da cólera, que posso controlar,

pois ela traz prejuízo para os coléricos insuportáveis.]  

[Render-se à cólera desmedida contra os próximos não é bom.]

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 1.19

A raposa e as uvas

De negra videira junto a um monte, uvas

pendiam em balanço. Ao vê-las viçosas,

uma ladina raposa por várias vezes deu saltos

tentando com as patas tocar no rubro fruto;

estava maduro, no ponto para a vindima. 5

Fatigando-se à toa, pois não podia tocá-los,

ela seguiu caminho, disfarçando assim a dor:

“Está verde o cacho, e não maduro, como eu cria.”

A fábula denuncia os que, fatigando-se em tarefas inviáveis e se frustrando com elas, adiam-nas com falsos modos.

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 1.53

A raposa e o lobo

Tendo caído nas garras de um lobo, uma pobre raposa

pediu-lhe que a deixasse viva, não matasse uma anciã.

“Se me disseres três frases verdadeiras — diz ele —,

eu prometo por Pã que te deixarei viva.”

E ela: “Primeiro, oxalá não me tivesses encontrado, 5

depois, oxalá fosses cego ao deparares comigo,

e, em terceiro, — disse —  que os anos vindouros

tu não alcances. Não vás topar comigo novamente!”

    [Que muitas vezes as situações críticas surgem para trazer a público mesmo contra a vontade as coisas dignas de silêncio.]

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 1.77

O corvo e a raposa

Estava um corvo pousado com um queijo preso no bico,

quando uma raposa, cobiçando o queijo, matreira

logrou o pássaro com um palavreado assim:

“Ó corvo, tuas asas são belas, teu olhar é penetrante

e teu pescoço é digno de ser visto. Ostentas um peito de águia! 5

Com tuas garras, sobre todos os animais prevaleces.

Tu, um pássaro de tal porte, és mudo e não crocitas!”

O corvo, tocado no coração pelo encômio,

soltou da boca o queijo e ficou a emitir gritos.

E a espertalhona agarrou o queijo e com língua ferina 10

disse: “Tu não eras mudo! Ao contrário, tens voz!

Tens, ó corvo, tudo, tudo; só te falta juízo!”

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 1.103

O leão velho e a raposa

Um leão que já não mais tinha forças de ir à caça

(pois há muito tempo já adentrara a velhice),

no interior de côncava caverna jazia, feito pessoa

debilitada por doença, simulando respiração ofegante

e enfraquecendo por fingimento a voz grave. 5

Às moradas das feras chegou o rumor mensageiro;

todos se condoeram da enfermidade do leão

e, um por vez, iam lá para fazer-lhe uma visita.

A esses ele agarrava sem esforço, um após o outro,

e os devorava; acabava de descobrir opulenta velhice! 10

Então uma raposa sábia teve suas suspeitas e, à distância

detendo-se, perguntou-lhe: “Ó rei, como estás?”

E ele respondeu: “Salve, ó caríssima dentre as criaturas!

Por que não te aproximas? Ficas a fitar-me de longe!

Vem aqui, ó doçura, e com teus palavreados multicoloridos 15

consola-me a mim, pois minha morte está próxima.”

“Estimo tuas melhoras!”, diz ela, “e perdoa-me se estou de partida.

Impedem-me de entrar as pegadas de numerosos animais

e não tens como apontar-me as de um único que tenha saído.”

     Venturoso é aquele que não enfrenta o malogro antes dos demais, 20

mas ele próprio procura aprender com as desgraças alheias.

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Fedro 1.7

A raposa para uma máscara de tragédia

Uma raposa tinha visto por acaso uma máscara de tragédia:

“Oh, que grande beleza” diz “não tem cérebro!”

Isto foi dito para aqueles aos quais a fortuna atribuiu

honra e glória e tirou o senso comum.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.10

O lobo e a raposa com o macaco como juiz

Todo aquele que se tornou famoso uma vez por uma torpe mentira,

mesmo que diga a verdade, perde o crédito.

Atesta isso uma breve fábula de Esopo.

Um lobo acusava uma raposa pelo crime de furto;

ela negava ter relação com a culpa. 5

Então o macaco se sentou entre eles como juiz.

Depois que um e outro defenderam sua causa,

diz-se que o macaco pronunciou a sentença:

“Tu não pareces ter perdido o que pedes;

quanto a ti, creio que roubaste o que negas lindamente”. 10

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.