Fedro 1.13

A raposa e o corvo

Quem se alegra em ser louvado com palavras enganosas

normalmente paga a pena com vergonhosa penitência.

Como um corvo, pousado no alto de uma árvore,

quisesse comer um queijo, roubado de uma janela,

uma raposa o viu e em seguida começou a falar assim: 5

“Ó que brilho é o de tuas penas, corvo!

Que grande formosura trazes no corpo e no rosto!

Se tivesses voz, nenhuma ave seria superior a ti.”

E de tolo aquele, querendo ostentar a voz,

deixou cair da boca o queijo, que rapidamente 10

a dolosa raposa arrebatou com seus ávidos dentes.

Só então é que a iludida estupidez do corvo gemeu.

{Com este fato é provado o quanto vale o talento;

A sabedoria sempre prevalece sobre a coragem.}

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.26

A raposa e a cegonha

A ninguém se deve prejudicar; se alguém, porém, fizer algum dano,

a fabulazinha adverte que deve ser castigado na mesma moeda.

Diz-se que uma raposa convidou primeiro uma cegonha

para um jantar e lhe serviu num prato raso

um caldo líquido, que de nenhum modo 5

a cegonha faminta poderia degustar.

Quando esta retribuiu o convite à raposa, serviu uma garrafa

cheia de alimento triturado; inserindo nela o seu bico,

ela própria se sacia e atormenta de fome sua convidada.

Enquanto esta lambia em vão o pescoço da garrafa, 10

a ave peregrina, pelo que ouvimos, falou assim:

“Cada um deve suportar com igual ânimo os seus próprios exemplos.”

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.28

A raposa e a águia

Os homens, por mais altos que estejam, devem temer os humildes,

porque a vingança é acessível ao hábil talento.

Certa vez uma águia apanhou os filhotes de uma raposa

e pôs em seu ninho para que seus filhos os tomassem como alimento.

A mãe, tendo-a seguido, começou a rogar 5

que não causasse a uma infeliz como ela uma dor tão grande.

Aquela desdenhou, segura certamente em seu próprio local.

A raposa tomou de um altar uma tocha acesa

e cercou de chama toda a árvore,

misturando a dor de seu sangue ao dano do inimigo. 10

A águia para livrar os seus do perigo de morte

entregou suplicante à raposa seus filhos sãos e salvos.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Esopo 6

A águia de asas depenadas e a raposa

[A fábula mostra] Que é preciso oferecer boas recompensas aos benfeitores e afastar com prudência os perversos.

Certa vez, uma águia foi apanhada por um homem que cortou rente as penas de suas asas e deixou-a vivendo em casa com as galinhas. Envergonhada, ela de tristeza nada comia. Era qual um rei aprisionado. Mas outra pessoa a comprou do homem, arrancou-lhe as penas cortadas e, depois de esfregar nela unguento de mirra, fê-la emplumar. Então ela alçou voo, apanhou com as garras uma lebre e levou-a de presente para o dono. Ao ver isso, uma raposa lhe disse: “Dê presentes não a esse dono, mas ao anterior. Esse é bom por natureza, mas é o outro que você deve de preferência cativar, para ele não deixar você sem penas, caso venha a apanhá-la de novo”.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 39

Esopo 7

A águia e a raposa

Uma águia e uma raposa tornaram-se amigas e resolveram morar perto uma da outra, fazendo do convívio uma garantia da amizade. E, assim, uma subiu bem no alto de uma árvore e fez seu ninho, enquanto a outra penetrou numa moita que havia ao pé da árvore e deu cria. Certa vez, porém, a águia estava precisando de comida e, assim que a raposa saiu para caçar, ela desceu voando à moita, apanhou as crias da raposa e devorou-as em companhia de seus filhotes. Quando a raposa voltou e percebeu o que havia ocorrido, afligiu-se não tanto pela morte de seus filhos como pela impossibilidade de vingar-se, pois, sendo ela um animal quadrúpede, era incapaz de perseguir um alado. Por isso, ficou de longe amaldiçoando o inimigo, que é só o que resta aos impotentes e fracos. Aconteceu, porém, que não demorou para a águia prestar contas de seu crime contra a amizade. Estando algumas pessoas no campo a imolar uma cabra, ela desceu voando, carregou do altar uma víscera em chamas e levou-a para o ninho. Nisso bateu um vento forte e, a partir de uma palhinha fina e seca, acendeu-se uma chama forte. Com isso, os filhotes, que ainda não sabiam voar, caíram queimados no chão. Então a raposa correu e, diante da águia, comeu todos eles.

A fábula mostra que os que violam amizade, mesmo um pacto de que escapem de ser punidos por suas vítimas impotentes, jamais se livram do castigo divino.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 40-41

Esopo 17

O arqueiro e o leão

Quando um arqueiro experiente foi caçar no alto de uma montanha, todos os animais puseram-se em fuga, mas um leão o desafiou para uma luta. E o arqueiro, após disparar a flecha e acertar o leão, disse: “Primeiro, veja como é meu mensageiro e, depois, também eu vou atacar você”. O leão, ferido, estava prestes a fugir em disparada, quando uma raposa lhe sugeriu que tivesse calma e não fugisse, mas ele retrucou: “De jeito nenhum você vai mudar meu rumo. Se ele tem um mensageiro penetrante assim, o que farei se ele vier em pessoa me atacar?”.

[A fábula mostra] Que devemos prever o final a partir do começo e só então proteger-nos do resto.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 54

Esopo 43

O burro que vestiu uma pele de leão

Um burro vestiu uma pele de leão e pôs-se a perambular, apavorando os animais irracionais. Ao avistar uma raposa, também tentou amedrontá-la. Então ela, que por acaso já tinha ouvido anteriormente a voz do burro, disse a ele: “Mas esteja certo de que eu também teria me apavorado, se já não tivesse ouvido você zurrar!”.

Assim, algumas pessoas ignorantes que, graças à empáfia, dão a impressão de serem as tais são desmascaradas pela própria tagarelice.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 85

Esopo 46

O burro que comia paliúro e a raposa

Um burro comia as folhas ásperas de paliúro; notou-o uma raposa, que lhe disse, injuriosa: “Com uma língua tão macia e assim sem pele, como você tritura e engole esse alimento rijo?”.

A fábula [convém] aos que usam a língua para proferir palavras duras e perigosas.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 90

Esopo 49

O burro, a raposa e o leão

Um burro e uma raposa se tornaram sócios e saíram para caçar. Mas, quando toparam com um leão, a raposa, ao ver o perigo iminente, se aproximou dele e propôs entregar-lhe o burro caso ele prometesse poupá-la. Como o leão disse que iria libertá-la, a raposa induziu o burro a cair numa armadilha preparada por ela. E o leão, ao ver que o burro não podia escapar, agarrou primeiro a raposa e, em seguida, foi para cima do burro.

Assim, os que conspiram contra os sócios sem perceber também perecem muitas vezes junto com eles.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 93

Esopo 66

Os cães que estraçalhavam uma pele de leão

Uns cães encontraram uma pele de leão e puseram-se a fazê-la em pedaços. Ao vê-los, a raposa disse: “Se esse leão estivesse vivo, veriam que suas garras eram mais fortes do que os dentes de vocês”.

Essa fábula é clara para os que menosprezam as pessoas ilustres, quando elas despencam do poder e da glória.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 120