Esopo 74

O cão que perseguia um leão

Um cão de caça viu um leão e se pôs a persegui-lo, mas o leão se voltou e deu um rugido. Amedrontado, o cão retrocedeu. Então uma raposa o viu e disse: “Ô, cabeça oca, você estava perseguindo um leão e não podia nem com o rugido dele?”.

A fábula poderia ser contada a propósito de homens arrogantes que se põem a denegrir os mais poderosos, mas, quando eles os enfrentam, imediatamente retrocedem.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 128

Esopo 76

O cão, o galo e a raposa

Um cão e um galo se tornaram amigos quando seguiam juntos por uma estrada. Ao cair da noite, chegaram a um bosque e, enquanto o galo subiu numa árvore e pousou num galho, o cão adormeceu numa fenda ao pé da árvore. A noite passou e, ao nascer da aurora, o galo se pôs a soltar sua gritaria, como de costume. Então uma raposa o ouviu e, no desejo de abocanhá-lo, se aproximou e ficou parada sob a árvore, gritando para ele: “Você é uma ave boa e de utilidade para os homens. Desça, para cantarmos serenatas e nos alegrarmos juntos”. E ele disse, em resposta: “Amiga, vá aí embaixo, diante da raiz da árvore, e chame o vigia, para ele bater na porta”. E, quando a raposa foi chamá-lo, num átimo o cão saltou sobre ela, agarrou-a e fê-la em pedaços.

A fábula mostra que assim, também, os homens sensatos, quando lhes advém alguma desgraça, com facilidade se posicionam para lutar contra ela.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 130

Esopo 84

O caranguejo e a raposa

Um caranguejo saiu do mar e subiu até a praia, onde passou a viver sozinho. Uma raposa faminta, assim que o viu, foi correndo agarrá-lo, pois precisava alimentar-se. E, prestes a ser engolido, ele disse: “Mas é bem feito para mim, pois eu era um animal marinho e quis tornar-me um terrestre”.

Assim, também, os homens que abandonam as ocupações pessoais para empreender as que não lhes dizem respeito afligem-se com razão.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 139

Esopo 99

A cigarra e a raposa

Uma cigarra estava cantando no alto de uma árvore, quando uma raposa, ávida por comê-la, arquitetou o seguinte: parada diante da cigarra, ficou admirando sua bela voz e incentivando-a a descer, dizendo que queria ver de que tamanho era o animal que emitia um som tão alto. Suspeitando da armadilha, a cigarra arrancou uma folha e deixou-a cair. A raposa correu para a folha, pensando que fosse a cigarra. Esta, então, lhe disse: “Mas você se enganou, minha cara, se achava que eu iria descer. É que eu fico esperta com vocês, desde o dia em que avistei asas de cigarras nos excrementos de uma raposa”.

[A fábula mostra] Que para os homens prudentes as desgraças do próximo são instrutivas.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 155

Esopo 112

O corvo e a raposa

Um corvo surripiou um pedaço de carne e foi pousar numa árvore, mas uma raposa o avistou e quis tomar-lhe a carne. Parou, então, diante da árvore e se pôs a fazer elogios à sua beleza e ao seu porte vistoso, dizendo também que ele era perfeito para ser o rei dos pássaros, e que isso certamente aconteceria se ele tivesse voz. E o corvo, querendo mostrar-lhe que tinha voz também, soltou a carne e ficou grasnando bem alto. A raposa, então, agarrou correndo a carne e disse-lhe: “Ei, corvo, se você também tivesse inteligência, nada lhe faltaria para ser rei de todos nós”.

Para um homem tolo a fábula é oportuna.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 172

Esopo 133

O gaio e a raposa

Um gaio faminto pousou numa figueira. Como encontrasse ainda verdes os figos temporões, ficou lá esperando até que eles ficassem maduros. Então uma raposa viu que o gaio se eternizava ali e, ao saber do motivo, disse: “Mas você se engana, meu caro, entregando-se a uma esperança que sabe ludibriar, mas alimentar, jamais”.

Para homem mentiroso, a fábula é oportuna.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 203

Esopo 161

A hiena e a raposa

Dizem que as hienas de ano em ano trocam de sexo: se são machos num ano, no outro viram fêmeas. Assim, uma hiena viu uma raposa e começou a censurá-la, pois queria ser sua amiga, mas ela não aceitava. Então a raposa retrucou, dizendo: “Censure não a mim, mas à sua própria natureza, que não me deixa saber se você vai ser meu amigo ou minha amiga!”.

Para homem ambíguo.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 241

Esopo 167

O homem e a raposa

Um homem tinha raiva de uma raposa porque ela lhe causava danos. Certa vez, ele a dominou e, querendo se vingar de uma vez por todas, pôs fogo num chumaço de estopa umedecido com óleo e amarrou-o na ponta do rabo da raposa. Mas um deus encaminhou-a para a plantação desse homem que a expulsara. Era o tempo propício para a colheita, e ele, por sua vez, foi atrás dela gemendo, porque nada iria colher.

[A fábula mostra] Que é preciso ser indulgente e não se irritar além da medida, pois muitas vezes da cólera nasce o dano para os irascíveis.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 247

Esopo 185

O javali e a raposa

Um javali parou junto de uma árvore e começou a aguçar suas presas. Então, uma raposa lhe perguntou por que motivo estava limando as presas, se não havia a iminência de algum caçador ou de outro perigo qualquer. Ele respondeu: “Mas não é à toa que estou fazendo isso! É que, se algum perigo me surpreender, não terei o trabalho de afiá-las e elas já estarão prontas para o uso”.

A fábula ensina que devemos cuidar com antecedência dos preparativos contra os perigos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 277

Esopo 200

O leão doente, o lobo e a raposa

Um velho leão jazia doente estirado numa gruta. Todos os animais fizeram uma visita ao rei, menos a raposa. Foi então que o lobo aproveitou a chance de denunciá-la ao leão, dizendo que ela não tinha a menor consideração por aquele que exercia a autoridade sobre todos os animais e, por isso, não vinha visitá-lo. Mas, justo nesse momento, foi chegando a raposa, que ouviu as palavras finais do lobo. O leão, por conseguinte, começou a rugir para ela. A raposa, no entanto, pediu uma oportunidade de defesa e disse: “E, dentre esses que se reuniram aqui, quem foi que se preocupou com você tanto quanto eu, que andei por toda parte procurando saber dos médicos um tratamento para você e acabei encontrando?”. E, como o leão a mandasse dizer sem demora qual era o tratamento, ela falou: “É só esfolar um lobo vivo e envolver-se com a pele dele ainda quente”. E o lobo, imediatamente, jazeu morto. Então a raposa disse, a rir: “Assim, não se deve instigar o chefe à hostilidade, mas à benevolência!”.

A fábula mostra que aquele que maquina contra os outros reverte para si próprio a maquinação.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 295