Esopo 248

O macaco eleito rei e a raposa

Numa assembleia de animais irracionais, um macaco teve bom acolhimento e foi eleito rei por aclamação. Uma raposa, porém, sentiu inveja e, quando viu uma porção de carne deixada numa armadilha, levou o macaco até lá, alegando que havia encontrado um tesouro, do qual ela própria não fizera questão, mas o havia preservado para ele, como presente régio, e exortou-o a pegá-lo. O macaco, despreocupadamente, se aproximou e foi apanhado pela armadilha. E, depois, ficou acusando a raposa de ter-lhe preparado uma cilada. Ela respondeu: “Pois você, macaco, que é tão ingênuo assim, é o rei dos animais?”.

Assim, aqueles que empreendem tarefas irrefletidamente, além de fracassarem, são alvos de zombaria.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 356

Esopo 314

A rã médica e a raposa

Certa vez, havia num brejo uma rã que gritava para todos os animais: “Eu sou médica, especialista em todos os tipos de remédios!”. Ao ouvi-la, disse uma raposa: “Se você, que manquitola, não cura sua própria deficiência, como é que vai salvar os outros?”.

A fábula mostra que, se alguém é leigo em educação, como poderá educar os demais?

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 441

Esopo 320

A raposa ajudante do leão

Fábula da raposa, que exorta a não sonhar muito alto.

Uma raposa era companheira de um leão na qualidade de sua ajudante: ela farejava as caças e ele caía sobre elas, agarrando-as. Decerto, cada um deles recebia uma porção, separada em conformidade com o mérito. Mas a raposa, tomada de inveja do leão por causa de suas porções maiores, achou melhor ir à caça em vez de farejar, e quando foi agarrar um animal de um rebanho viu-se como o principal alvo de perseguição dos caçadores.

É melhor servir em segurança do que exercer o mando em desamparo.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 451

Esopo 321

A raposa ao ver um leão

Uma raposa que jamais tinha visto um leão deparou acidentalmente com um e, por ser a primeira vez que o via, ficou tão perturbada que quase morreu. Já na segunda vez que topou com ele, sentiu medo, sim, mas não tanto como da primeira vez. E, ao vê-lo pela terceira vez, foi tão ousada que até chegou perto e conversou com ele.

A fábula mostra que o hábito suaviza até as coisas aterradoras.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 454

Esopo 322

A raposa cotó

Depois que teve o rabo amputado numa armadilha, uma raposa se encheu de vergonha e começou a achar a vida insuportável. E concluiu que precisava induzir também as outras raposas ao mesmo estado, para ocultar, sob o padecimento comum, seu próprio defeito. Então, reuniu todas as raposas e incentivou-as a cortarem o rabo, dizendo que ele era não só um estorvo, mas também um peso supérfluo grudado nelas. Uma delas, porém, retrucou: “Ei, minha cara, mas se não lhe conviesse, você não nos daria esse conselho”.

Esta fábula se aplica àqueles que dão conselhos ao próximo, pensando não no bem do outro, mas em seus próprios interesses.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 455

Esopo 323

A raposa de barriga estufada

Ao ver no oco de um carvalho carnes e pães deixados por pastores, uma raposa faminta se enfiou lá e comeu tudo. E depois, de barriga estufada, ficou gemendo e suspirando, porque não conseguia sair. Então, outra raposa que passava por lá ouviu os gemidos, aproximou-se e quis saber o motivo. Ao saber do ocorrido, disse-lhe: “Você terá que ficar aí até voltar a ser o que era quando entrou. Só assim poderá sair com facilidade”.

A fábula mostra que o tempo soluciona os problemas difíceis.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 456

Esopo 324

A raposa e a máscara

Uma raposa foi à oficina de um escultor e começou a fuçar nos objetos que lá estavam. Ao deparar com uma máscara de ator de tragédia, ergueu-a e disse: “Oh! Que cabeça! Mas não tem cérebro!”.

A fábula [é oportuna] para homens de corpo magnífico mas de alma irracional.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 459

Esopo 325

A raposa e a pantera

Raposa e pantera discutiam para ver qual das duas era a mais bela. E, como a pantera mencionava a todo instante o colorido mosqueado de seu corpo, a raposa retrucou: “E eu, então! Quanto não sou mais bela que você, eu, que tenho esse colorido não no corpo, mas na alma!”.

A fábula mostra que superior à beleza do corpo é o adorno da inteligência.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 460

Esopo 326

A raposa e o bode no poço

Uma raposa caiu num poço e viu-se forçada a ficar lá, pois não tinha como vencer a subida. Nisso, um bode, compelido pela sede, foi ao mesmo poço e, ao vê-la, perguntou se a água era boa. Empolgada com a coincidência, ela se estendeu em elogios à água, dizendo que era de boa qualidade, e o incentivou a descer também. E o bode, que naquele momento só tinha olhos para seu desejo, pulou no poço sem maiores cuidados e, enquanto matava a sede, foi examinando a subida com a raposa. Ela disse, então, que já tinha um plano concebido para a salvação de ambos: “Se você topar, apoie suas patas dianteiras na parede e endireite os chifres, que eu vou subir pelo seu dorso e, depois, puxarei também você para cima”. Bastou uma segunda insistência para o bode sujeitar-se prontamente. Então, a raposa foi saltando pelas pernas dele, subiu em seu dorso e, a partir daí, apoiando-se nos chifres, alcançou a boca do poço. E, depois que subiu, foi indo embora. E, como o bode se pôs a recriminá-la por ter desrespeitado o acordo, ela se voltou e disse: “Meu caro, se você tivesse de juízo o mesmo tanto de pelos que tem na barbicha, não teria descido sem antes ter examinado a subida”.

Assim, também, os homens prudentes devem primeiro considerar o desenvolvimento completo de seus projetos, e só depois empreendê-los.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 461-462

Esopo 327

A raposa e o cacho de uvas

Uma raposa faminta avistou cachos de uvas suspensos numa parreira. Quis alcançá-los, mas não conseguiu. Indo embora, disse para si: “Estão verdes!”.

Assim, também, certos homens que, por incapacidade, não conseguem realizar seus negócios culpam as circunstâncias.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 463