Esopo 328

A raposa e o crocodilo

Uma raposa e um crocodilo puseram-se a discutir a respeito da nobreza de suas linhagens. O crocodilo fez um longo relatório sobre a distinção de seus ancestrais e, por fim, disse que seus pais haviam sido diretores de uma escola de ginástica. E a raposa replicou: “Mas mesmo que você não dissesse, dá para ver, pela sua pele, que faz muitos anos que você faz ginástica!”.

Assim, também, os fatos refutam os homens mentirosos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 465

Esopo 329

A raposa e o espinheiro

Uma raposa estava tentando pular uma sebe, quando escapou de um escorregão apoiando-se num espinheiro. Ela sofreu arranhões na planta das patas e, vendo-se naquela terrível situação, culpou o espinheiro; afinal, ao refugiar-se nele em busca de socorro, recebera um tratamento pior do que aquele que ela pretendera evitar. E o espinheiro retrucou, dizendo: “Mas você ficou louca? Foi querer se agarrar justamente em mim, que tenho o costume de me agarrar em tudo!”.

A fábula mostra que assim, também, são tolos os homens que recorrem a protetores que nasceram com vocação para a injustiça.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 466

Esopo 330

A raposa e o lenhador

Enquanto fugia de caçadores, uma raposa viu um lenhador e lhe pediu que a escondesse. Ele sugeriu que ela entrasse em sua cabana e se ocultasse lá dentro. Não muito tempo depois, vieram os caçadores e perguntaram ao lenhador se ele tinha visto uma raposa passar por ali. Em voz alta ele negou tê-la visto, mas com a mão fez gestos indicando onde ela estava escondida. Entretanto, como eles não prestaram atenção nos seus gestos, deram crédito às suas palavras. Ao constatar que eles já estavam longe, a raposa saiu em silêncio e foi indo embora. E o lenhador se pôs a repreendê-la, pois ela, salva por ele, não lhe dera nem uma palavra de gratidão. A raposa respondeu: “Mas eu seria grata, se os gestos de sua mão fossem condizentes com suas palavras”.

Desta fábula pode servir-se uma pessoa a propósito daqueles homens que nitidamente proclamam ações nobres, mas na prática realizam atos vis.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 468

Esopo 331

A raposa e o macaco que rivalizavam em nobreza de linhagem

Uma raposa e um macaco iam por um mesmo caminho e travaram uma discussão para ver quem era de linhagem mais nobre. Cada um deles já havia feito muitos relatos, quando chegaram a um local onde havia alguns túmulos. O macaco, assim que bateu o olho neles, começou a gemer. Como a raposa quis saber o motivo dos suspiros, o macaco, apontando as sepulturas, respondeu: “Como não chorar, se vejo as sepulturas dos escravos e dos libertos dos meus antepassados?”. E ela replicou: “Pode mentir à vontade, pois nenhum deles vai ressuscitar para desmentir você!”.

Assim, também, os homens mentirosos proferem ainda mais fanfarronices quando não têm refutadores.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 469

Esopo 332

A raposa que afagava um cordeirinho e o cão

Uma raposa se meteu num rebanho de ovelhas, agarrou um cordeirinho e começou a fingir que o acarinhava. “Por que você está fazendo isso?”, perguntou-lhe um cão. E ela: “Estou lhe fazendo carinho e brincando com ele!”. E o cão: “Mas agora mesmo eu vou fazer carícias de cão em você, se não deixar em paz o cordeirinho!”.

Para homem inescrupuloso e ladrão imbecil a fábula é oportuna.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 470

Esopo 333

As raposas à beira do rio Meandro

Certa vez, um bando de raposas se juntou à beira do rio Meandro, ávidas de sua água. Apesar do mútuo incentivo, as raposas não se atreviam a entrar, dada a força da correnteza. Então, uma delas, no intuito de debochar da covardia das demais e humilhá-las, declarou-se a mais corajosa e lançou-se destemida na água. E, enquanto a correnteza a levava para o meio do rio, as outras, em pé junto à barranca, lhe diziam: “Não nos abandone! Volte e mostre-nos o trecho por onde podemos beber sem perigo!”. E ela, que estava sendo arrastada, disse: “Tenho que ir a Mileto entregar um recado. Mas na volta eu mostro para vocês!”.

Para aqueles que, por presunção, se expõem ao perigo.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 471

Esopo 355

O urso e a raposa

Um urso dizia todo orgulhoso que era amigo dos homens, porque não comia cadáveres. Então, a raposa lhe disse: “Quem dera você esquartejasse cadáveres e não gente viva!”.

Esta fábula recrimina os ambiciosos, que passam a vida na hipocrisia e na presunção.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 505

Esopo 375

Zeus e a raposa

Maravilhado com o espírito sagaz e versátil da raposa, Zeus deu a ela a soberania sobre os animais irracionais. E, desejando saber se a raposa, que mudara de vida, tinha alterado também seus hábitos mesquinhos, lançou diante dela um escaravelho, justo no momento em que ela estava sendo carregada numa liteira. E a raposa, vendo o escaravelho voejando ao redor da liteira, não conseguiu se conter e, contrariando toda conveniência, deu um salto para tentar agarrá-lo. Então, Zeus ficou bronqueado com a raposa e a devolveu à sua antiga condição.

A fábula mostra que a natureza dos homens vis não se altera, mesmo que se revistam dos mais brilhantes ornamentos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 534