Esopo 343

O rouxinol e a andorinha

Uma andorinha aconselhava um rouxinol a viver sob o mesmo teto, na mesma casa que os homens, como ela própria fazia.* Então, ele disse: “Não quero manter viva na lembrança a dor de meus antigos infortúnios. É por isso que vivo em lugares desertos”.

[A fábula mostra] Que aquele que se afligiu com alguma fatalidade quer evitar até o local onde se produziu a aflição.

* A lembrança de antigos infortúnios que o rouxinol menciona são os episódios do mito de Tereu, Procne (rouxinol) e Filomela (andorinha). Sem a referência mítica, a fábula pode perder o sentido. [n.t.]

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 482

Esopo 344

O rouxinol e o gavião

Um rouxinol estava cantando, como de costume, pousado no alto de um carvalho. Nisso, um gavião o avistou e, precisado de alimento, voou sobre ele e o agarrou. E o rouxinol, prestes a morrer, pediu que o soltasse, dizendo que não era suficiente para encher o estômago de um gavião; já que precisava de alimento, ele devia atacar pássaros maiores. O gavião retrucou: “Mas eu seria um doido se largasse o pasto garantido que tenho nas mãos para ir atrás dos que ainda não apareceram”.

Assim, também, dentre os homens, são irracionais aqueles que, na expectativa de bens maiores, deixam escapar os que estão em suas mãos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 483