Fedro 5.2

Os viajantes e o ladrão

Como dois soldados tivessem deparado com um ladrão,

um fugiu, o outro, porém, ficou

e se defendeu com sua forte destra.

Derrubado o ladrão, o companheiro medroso acorre

e saca da espada; em seguida, jogando a capa para trás, 5

diz: “Deixa comigo; já cuidarei que ele sinta

com quem se meteu”. Aí, o que tinha lutado:

“Quisera eu que, ao menos, me tivesses ajudado com essas palavras;

eu teria sido mais resoluto, julgando-as verdadeiras.

Agora guarda tua espada e tua língua igualmente inúteis. 10

Que possas enganar os outros que te desconhecem;

eu, que constatei com quanto empenho foges,

sei o quanto não se deve acreditar em teu valor”.

Esta história deve ser aplicada àquele

que, numa situação favorável, é valente, numa incerta, é covarde. 15

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Esopo 95

O cavalo e o soldado

Era um tempo de guerra e um soldado alimentava seu cavalo com cevada, por julgá-lo um colaborador nas emergências. No entanto, quando a guerra acabou, o cavalo passou a cuidar de tarefas servis e de pesados fardos, e a ser alimentado apenas com palha. Mas, quando se ouviu de novo falar em guerra e a trombeta começou a soar, o dono pôs arreios no cavalo e montou nele com seus armamentos. Ele, porém, arriava a todo momento, sem forças para nada. Foi então que disse ao dono: “Agora trate de partir com os soldados da infantaria, os hoplitas, pois você me transformou, de cavalo que eu era, em burro. E como quer reaver, de um burro, um cavalo?”.

[A fábula mostra] Que, em tempos de segurança e tranquilidade, não se deve perder de vista os tempos de infortúnios.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 151