Fedro 5.10

O cão, o javali e o caçador

Um cão forte e veloz contra todas as feras,

embora sempre tivesse satisfeito ao seu dono,

com os anos pesando, começou a enfraquecer-se.

Certa vez, lançado à luta com um hirsuto javali,

agarrou-lhe a orelha; mas por causa de seus dentes estragados 5

soltou a presa. Então o caçador, lamentando,

repreendia o cão. Em resposta a ele, o velho lacedemônio:

“Não te abandonou a minha coragem, mas as minhas forças.

Louva o que fomos, se já condenas o que somos”.

Vês bem, Fileto, por que escrevi isto. 10

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 4.5

O poeta

Vou transmitir aos pósteros, com uma breve narração, que

muitas vezes há mais mérito numa só pessoa do que numa turma.

Um certo homem deixou três filhas, ao morrer;

uma formosa e que caçava os homens com seus olhos,

já a outra, fiandeira de lã e frugal camponesa, 5

e a terceira, devota do vinho e muito feia.

O velho, porém, fez herdeira a mãe delas

sob a condição de que distribuísse toda a fortuna

de modo igualitário para as três, mas do seguinte modo:

“Que não possuam ou desfrutem das coisas dadas”; e 10

“que, logo que deixassem de ter as coisas que receberam,

entregassem à mãe cem mil sestércios”.

O rumor se espalha em Atenas, a zelosa mãe

consulta especialistas em direito; ninguém explica

como elas não possuiriam o que lhes tinha sido dado 15

ou não usufruiriam de seu benefício; depois, como elas,

que não ficaram com nada, entregariam o dinheiro.

Depois que se passou um intervalo de um longo tempo

e o sentido do testamento não pôde ser compreendido,

a mãe, deixando de lado o direito, apelou para a boa fé. 20

Separa para a rameira a vestimenta, os enfeites femininos,

o lavatório de prata e os eunucos sem pelos;

para a fiandeira, terras, gado, casa de campo, trabalhadores,

os bois, os jumentos e o equipamento agrícola;

para a bêbada, a adega cheia de ânforas antigas, 25

uma casa elegante e agradáveis jardins.

Justo quando queria dar a cada uma as coisas assim destinadas

e o povo, que as conhecia, aprovava,

Esopo apareceu de repente no meio da multidão:

“Oh, se permanecesse a consciência no pai enterrado 30

quão dolorosamente sofreria pelo fato de que os atenienses

não foram capazes de interpretar a sua vontade!”

Perguntado em seguida, desfez o erro de todos:

“A casa e os adornos com os encantadores jardins

e os vinhos velhos dai à fiandeira camponesa; 35

a vestimenta, as pérolas, os lacaios etc.

concedei àquela que leva a vida no excesso;

os campos e a casa de campo e o gado com os pastores

doai para a rameira. Nenhuma poderá suportar

ser dona do que é alheio aos seus costumes. 40

A feia venderá o aparato para comprar vinho;

a rameira se desfará dos campos para obter adorno;

e aquela que se alegra com o gado e é dedicada à lã

dará por qualquer soma a casa de luxo.

Assim nenhuma possuirá o que lhe tiver sido dado, 45

e elas entregarão à mãe o dinheiro estipulado

proveniente do preço das coisas que cada uma tiver vendido”.

Assim a sagacidade de um único homem encontrou

aquilo que escapou à falta de sabedoria de muitos.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 4.16

O mesmo [Prometeu]

Um outro perguntou que razão tinha procriado

lésbicas e machos afeminados; o velho explicou:

“O mesmo Prometeu, criador do povo de barro

que, assim que se choca com a fortuna, se quebra,

após ter moldado separadamente durante o dia todo 5

as partes da natureza que o pudor oculta com a veste,

para que mais tarde pudesse adaptá-las ao seus corpos,

foi de repente convidado por Líber para um jantar;

depois de ter encharcado suas veias com muito néctar,

voltou tarde para sua casa com o pé titubeando. 10

Então com o coração sonolento e por um ébrio engano,

aplicou a vagina no gênero masculino,

e pôs membros masculinos nas mulheres.

Assim agora a libido é desfrutada com um prazer torto”.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 3.3

Esopo e o camponês

Disse vulgarmente que o homem experiente é mais verdadeiro

do que um adivinho; mas não se diz o motivo;

minha fabulazinha mostrará isso agora pela primeira vez.

Para um sujeito que tinha rebanhos as ovelhas pariram

cordeiros com cabeça humana. Aterrorizado pelo prodígio, 5

ele correu aflito para consultar os adivinhos.

Um responde que tem a ver com a cabeça do dono

e que ele deve afastar o perigo com uma vítima.

Outro, porém, afirma que sua esposa é adultera

e o fato significa que seus filhos são ilegítimos, 10

mas que pode ser expiado com uma vítima maior.

Para que muitas palavras? Eles divergem com variadas opiniões

e agravam a preocupação do homem com preocupação maior.

Esopo, um velho de nariz limpo a quem

a natureza nunca pôde enganar, estando ali, 15

diz: “Se queres afastar o prodígio, camponês,

dá esposas aos teus pastores”.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 3.14

Sobre o divertimento e a seriedade

Um certo ateniense, tendo visto Esopo

numa turma de meninos jogando com nozes, parou

e riu como de um louco. Assim que o velho, mais

gozador do que objeto de gozação, percebeu isso,

pôs no meio da rua  um arco desarmado: 5

“Ei, sabido”, diz ele, “explica o que eu fiz”.

Acorre o povo. Aquele se esforça durante muito tempo

e não entende a causa da questão posta.

Por último, entrega os pontos. Então o sábio, vitorioso:

“Rapidamente romperás o arco, se o tiveres sempre esticado; 10

mas se o afrouxares, será útil quando quiseres”.

Assim, de vez em quando, devem ser dados divertimentos ao espírito,

para que ele volte a ti melhor para pensar.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 3.19

Esopo responde a um tagarela

Como Esopo fosse o único criado de seu senhor,

lhe foi ordenado preparar o jantar mais cedo.

Então, buscando lume, percorreu algumas casas

e, por fim, encontrou onde acendesse sua lucerna;

então tornou mais curto o caminho que tinha sido 5

mais longo na ida com suas voltas e começou a voltar

em linha reta pelo foro. E um certo tagarela do meio da turba:

“Esopo, em pleno sol o que fazes com uma luz?”

“Procuro um homem”, diz ele. E foi apressado para casa.

Se aquele importuno refletiu sobre isso em seu espírito, 10

percebeu sem dúvida que não pareceu um homem para o velho

aquele que, inoportuno, disse gracejo a uma pessoa ocupada.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Esopo 358

O velho e a Morte

Certa vez, um velho seguia um longo percurso carregando a lenha que cortara. Sob intensa fadiga, pôs o fardo no chão e ficou invocando a Morte. Quando ela surgiu e perguntou por que motivo ele a invocara, o velho respondeu: “Para que você levante do chão o meu fardo!”.

A fábula mostra que todo ser humano ama a vida, ainda que seja desditoso.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 514