Esopo 24

O bandido e a amoreira

Um bandido matou um homem numa estrada e, ao ver-se perseguido pelas pessoas que ali estavam, abandonou-o e fugiu, manchado de sangue. Nisso, uns viandantes que vinham em sentido contrário lhe perguntaram com o que ele tinha manchado as mãos. Ele respondeu que tinha acabado de descer de uma amoreira. Enquanto dizia isso, seus perseguidores o alcançaram e, depois de agarrá-lo, penduraram-no numa amoreira. Esta, então, lhe disse: “Mas eu não me importo em colaborar com sua morte, pois você cometeu um crime e depois tentou limpar as mãos em mim”.

Assim, muitas vezes também os honestos por natureza, quando alguns os confundem com os vis, não hesitam em agir com perversidade.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 63

Esopo 118

Diógenes viandante

Diógenes, o filósofo cínico, seguia por uma estrada, quando chegou à margem de um rio caudaloso e ali parou, sem saber o que fazer. Mas um homem que estava acostumado a atravessar a vau notou seu embaraço, aproximou-se e, com amabilidade, carregou-o para a outra margem. E lá ele ficou parado, condenando sua própria indigência, que o impedia de recompensar o benefício recebido. Estava ele ainda pensando nisso, quando o homem, ao ver outro viandante impossibilitado de atravessar o rio, veio correndo e levou-o para o outro lado. Diógenes, então, chegou perto dele e disse: “Eu já não lhe tenho mais gratidão pelo que ocorreu, pois estou vendo que você faz isso não por opção, mas por mania”.

A fábula mostra que os que beneficiam tanto os imprestáveis como as pessoas decentes merecem o rótulo de insensatos, e não de prestativos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 180

Esopo 152

A gralha e o corvo

Uma gralha sentia inveja de um corvo porque ele, por meio de augúrios, fornecia presságios aos humanos e anunciava o futuro, e, por isso, eles o tomavam como testemunha. Então a gralha, no desejo de alcançar os mesmos privilégios, assim que avistou alguns viandantes se aproximando, plantou-se numa árvore e lá ficou grasnando bem alto. Impressionados com aquela voz, os viandantes se voltaram para elas, mas um deles tomou a palavra e disse: “Ora, amigos, vamos embora! É só uma gralha! E seus gritos não fornecem presságios!”.

Assim, também, os homens que competem com os mais fortes, além de não se igualarem a eles, ainda se expõem a chacota.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 229

Esopo 258

O menino que estava tomando banho no rio

Certa vez um menino tomava banho no rio e estava quase se afogando, quando viu um viandante e o chamou em socorro. Ele, porém, repreendeu o menino, por seu comportamento abusado. Então o rapazinho lhe disse: “Mas, agora, trate de salvar-me e, depois, quando eu estiver a salvo, repreenda-me!”.

A fábula vale para aqueles que dão pretexto para receber tratamento injusto.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 369

Esopo 362

O viandante e a Verdade

Enquanto caminhava pelo deserto, um homem encontrou uma mulher solitária, parada, de olhos voltados para o chão, e lhe perguntou: “Quem é você?”. E ela: “A Verdade”. “E por que motivo deixou a cidade e está morando no deserto?”, tornou ele. Ela respondeu: “É que, em tempos passados, a mentira era companheira de poucas pessoas, mas hoje, sempre que você quer falar ou ouvir alguma coisa, ela está com todos os homens”.

[A fábula mostra] Que os homens padecem uma vida péssima e sofrida quando a mentira prevalece sobre a verdade.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 518

Esopo 363

O viandante e a víbora

Era inverno quando um viandante encontrou uma víbora enregelada de frio. Compadecido, pegou-a e, colocando-a sob a veste, tentou aquecê-la. Enquanto ela estava sob o efeito da friagem, permaneceu acomodada, mas, tão logo se aqueceu, lascou uma picada no ventre do homem. Ele disse, prestes a morrer: “Bem-feito para mim! Por que fui salvar essa moribunda, que eu devia matar mesmo que ela estivesse cheia de vitalidade?”.

A fábula mostra que a maldade, se beneficiada, além de não retribuir o benefício, ainda se assanha contra os benfeitores.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 519

Esopo 364

O viandante e Hermes

Um viandante percorria um longo caminho e prometeu a Hermes que, se topasse com algum achado, lhe ofertaria a metade. Casualmente, ele encontrou um alforje com amêndoas e tâmaras. Pegou então o alforje e, pensando que continha dinheiro, sacudiu-o. E, quando viu que eram amêndoas e tâmaras, comeu tudo. Depois, pegou as cascas das amêndoas e os caroços das tâmaras e colocou-os sobre um altar, dizendo: “Hermes, estou pagando minha promessa. Reparti com você o que estava dentro do meu achado e também o que estava fora”.

Para homem avarento que, por cobiça, tenta fraudar até os deuses, a fábula é oportuna.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 520

Esopo 365

O viandante e o Acaso

Ao completar uma longa caminhada, um viandante, fraquejando de cansaço, deitou-se à beira de um poço e adormeceu. Estava ele quase despencando no poço, quando o Acaso parou ao lado dele e o despertou, dizendo a seguir: “Ô, camarada, se você tivesse caído, jogaria a culpa em mim, e não em seu próprio descuido!”.

Assim, muitos homens provocam a própria desgraça e depois responsabilizam os deuses.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 521

Esopo 366

Os viandantes e o plátano

Era verão, por volta do meio-dia, quando um grupo de viandantes, exaustos pelo tórrido calor, avistou um plátano. Rumaram então para debaixo dele e, deitados à sombra, fizeram uma pausa na viagem. E, quando ergueram os olhos para o plátano, comentaram entre si: “Esta árvore é um tanto inútil para os homens, pois não dá frutos!”. Ela rebateu: “Ingratos! Vocês estão ainda fruindo de meu benefício e me tacham de inútil e estéril!”.

Assim, também, alguns homens são tão azarados que, mesmo quando fazem o bem ao próximo, não se reconhecem seus préstimos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 522

Esopo 367

Os viandantes e o corvo

Um corvo que tinha um olho estropiado foi ao encontro de algumas pessoas que estavam viajando a negócios. Então, elas se detiveram e uma delas propôs que retornassem, pois era isso o que indicava o presságio. Mas outra replicou: “E como é que esse aí pode predizer nosso futuro, se ele não previu nem a própria mutilação, a fim de precaver-se?”.

Assim, também, os homens que são desavisados em seus assuntos particulares também são mal cotados para aconselhar o próximo.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 523