Bábrio 2.143

O lavrador e a víbora

Uma víbora que estava morrendo por causa do frio

um lavrador acolheu e pôs-se a aquecê-la. Agarrada

à sua mão ela se estirou e, dando-lhe uma picada fatal,

matou justamente aquele que queria fazê-la reviver.

Ao morrer, ele disse uma frase digna de recordação: 5

“Sofro o merecido por ter-me condoído de um malvado.”

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Fedro 4.8

A serpente para o ferreiro

Quem com dente maldoso ataca a um mais mordaz,

sinta-se representado neste enredo.

Uma víbora veio à oficina de um ferreiro.

Ela, vasculhando se havia alguma coisa de comer,

mordeu uma lima. Esta, resistente, em resposta 5

diz: “Por que, sua tola, buscas ferir-me com teu dente,

a mim, que estou habituada a roer todo tipo de ferro?”

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 4.21

A raposa e víbora

Uma raposa, ao cavar o seu covil, enquanto tirava a terra

e fazia muitas galerias muito profundas,

chegou ao recôndito antro de uma víbora

que guardava tesouros ocultos.

Assim que a avistou: “Primeiro peço-te que concedas perdão 5

para a minha imprudência; depois, já que vês perfeitamente

o quanto o ouro não é conveniente para a minha vida,

que me respondas com benevolência: que fruto obténs

deste trabalho ou quão grande é a recompensa

para que te prives do sono e passes a vida nas trevas?” 10

“Nenhuma” diz aquela, “mas isto me foi incumbido

pelo supremo Júpiter”. “Então nem tiras para ti

nem doas nada a ninguém?” “Assim agrada aos Fados”.

“Não quero que fiques brava, se eu disser francamente:

nasceu com os deuses irados quem é semelhante a ti”. 15

Tu, que hás de partir para onde partiram os antepassados,

por que, com a mente cega, torturas a tua vida desgraçada?

Digo a ti, avarento, alegria de teu herdeiro, que enganas

os deuses com incenso e a ti próprio com comida,

que ouves triste o som musical da cítara, 20

a quem aflige a alegria das flautas,

a quem os preços dos alimentos arrancam um gemido,

que, enquanto amontoas centavos ao teu patrimônio,

aborreces o céu com sórdido perjúrio,

que aparas toda despesa do funeral 25

para que a Libitina não tenha algum lucro com o que é teu.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Esopo 59

O caçador de passarinhos e a víbora

Um caçador de passarinhos pegou o visgo e os caniços e partiu para a caça. Quando avistou um tordo pousado numa árvore alta, resolveu apanhá-lo. Então emendou os caniços no sentido do comprimento e ficou olhando fixamente, com toda a atenção voltada para o ar. E, enquanto mantinha a cabeça erguida assim, pisou sem perceber numa víbora que dormia diante de seus pés. Ela se virou e deu-lhe uma picada. E ele, moribundo, disse para si: “Que desgraçado sou eu, que quis agarrar uma presa e, sem perceber, tornei-me presa da morte!”.

Assim, aqueles que costuram maquinações contra próprios os primeiros os vizinhos são eles a cair em desgraças.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 110

Esopo 363

O viandante e a víbora

Era inverno quando um viandante encontrou uma víbora enregelada de frio. Compadecido, pegou-a e, colocando-a sob a veste, tentou aquecê-la. Enquanto ela estava sob o efeito da friagem, permaneceu acomodada, mas, tão logo se aqueceu, lascou uma picada no ventre do homem. Ele disse, prestes a morrer: “Bem-feito para mim! Por que fui salvar essa moribunda, que eu devia matar mesmo que ela estivesse cheia de vitalidade?”.

A fábula mostra que a maldade, se beneficiada, além de não retribuir o benefício, ainda se assanha contra os benfeitores.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 519

Esopo 371

A víbora e a cobra-d’água

Uma víbora ia regularmente beber numa fonte. Então, uma cobra-d’água, que morava na fonte, tentava impedi-la, indignada porque a outra, não contente com seu próprio território, também avançava no dela. E, como a desavença aumentava, elas resolveram que iriam às vias de fato e que os dois espaços, o da terra e o da água, seriam do vencedor. Marcado o dia, as rãs, que detestavam a cobra-d’água, procuraram a víbora para encorajá-la e prometeram que também combateriam ao lado dela. Quando o combate começou, a víbora se pôs a lutar contra a cobra-d’água e saiu vencedora, apesar de as rãs não terem feito outra coisa além de soltar gritos. Mesmo assim, a víbora as recriminou, porque elas haviam prometido atuar no combate como aliadas e, no entanto, além de não a terem socorrido, ainda por cima ficaram cantando. Então, as rãs disseram: “Mas você esteja certa de que nossa aliança consiste não em mãos, mas apenas em sons!”.

A fábula mostra que, lá onde há necessidade de mãos, de nada adianta a ajuda de palavras.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 527

Esopo 372

A víbora e a lima

Uma víbora entrou na oficina de um ferreiro e pediu às ferramentas um donativo. Tendo sido atendida, chegou perto da lima e pediu que esta lhe desse algo. Então, ela respondeu: “Mas você é ingênua mesmo, se acha que vai obter alguma coisa de mim, que tenho por costume não dar, mas sim tirar de todo mundo!”.

A fábula mostra que são tolos os que têm expectativa de obter dos avaros algum lucro.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 529