Esopo 2

As abelhas e Zeus

Enciumadas porque os homens usavam seu mel, as abelhas foram até Zeus pedir que ele as dotasse de força para golpear com os ferrões quem chegasse perto das colmeias a fim de roubar os favos. Mas Zeus se irritou com elas por causa dessa perversidade e determinou que as abelhas, tão logo picassem alguém, perderiam o ferrão e, com ele, também a vida.

Esta fábula cairia bem para homens perversos que se conformam em sair também eles prejudicados.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 32

Esopo 8

A águia e o escaravelho

Uma águia perseguia uma lebre que estava longe de qualquer proteção. Mas, assim que a lebre avistou um escaravelho, o único protetor que a ocasião lhe oferecia, ela foi até ele e suplicou ajuda. O escaravelho a amparou e, quando viu a águia se aproximando, pôs-se a pedir-lhe que não levasse embora sua protegida. A águia, porém, esnobou a pequenez do escaravelho e devorou a lebre diante dele. Ressentido, o escaravelho passou a espreitar os ninhos da águia e, cada vez que ela punha ovos, subia lá no alto e os fazia rolar e quebrar, até que a águia, encurralada, buscou refúgio junto de Zeus, que a tem como sua ave sagrada, e pediu-lhe que arrumasse um lugar seguro para a ninhada. Zeus lhe deu permissão para botar os ovos no colo dele. Ao ver isso, o escaravelho fez uma pelota de esterco, voou até alcançar o colo de Zeus e soltou-a lá. Foi aí que Zeus se levantou para sacudir o esterco e, sem se dar conta, deixou cair os ovos. Desde então, dizem que, na época em que os escaravelhos aparecem, as águias não fazem ninho.

A fábula ensina a não menosprezar pessoa alguma, considerando-se que ninguém é tão fraco a ponto de não poder um dia se vingar de um ultraje.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 42

Esopo 25

Os Bens e os Males

[A fábula mostra] Que com os bens não é fácil deparar-se, mas pelos males cada pessoa é a cada passo atingida.

Os Bens, por serem frágeis, foram perseguidos pelos Males e subiram ao céu. Lá, perguntaram a Zeus como é que deviam se comportar entre os homens. Zeus, então, disse-lhes que não ficassem todos juntos no meio deles, mas que se acercassem deles um por vez. É por isso que os Males se aproximam dos homens continuamente, pois vivem perto deles. Os Bens, ao contrário, o fazem mais espaçadamente, pois descem do céu.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 64

Esopo 41

O burro e o hortelão

Um burro, servo de um hortelão, comia pouco e estafava-se demais. Por isso, pediu a Zeus que o livrasse do hortelão e o confiasse a outro dono. Por intermédio de Hermes, Zeus deu ordens para que o vendessem a um oleiro. Mas ele tornou a ficar descontente, pois era forçado a carregar mais peso do que antes. Então suplicou de novo outro dono a Zeus, que, por fim, providenciou que ele fosse vendido a um curtumeiro. Ao ver as atividades do patrão, o burro disse, entre gemidos: “Mesmo carregando peso e passando fome, era melhor ter ficado com os donos anteriores do que estar com este, pois, aqui, se eu morrer, não terei nem sepultura!”.

A fábula mostra que os servos sentem saudade dos donos anteriores, sobretudo quando experimentam outros.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 83

Esopo 52

Os burros dirigindo-se a Zeus

Fartos de carregar peso e de extenuar-se continuamente, certa vez os burros enviaram embaixadores a Zeus para pedir que ele desse um basta à fadiga. Pretendendo fazê-los ver que isso era impossível, Zeus disse que eles só se livrariam do sofrimento quando formassem um rio com a própria urina. E eles, supondo que o deus estivesse falando sério, desde aquele dia até hoje, onde quer que vejam urina de burro, param também ao redor desse local e urinam.

A fábula mostra que o destino fixado para cada um é imutável.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 97

Esopo 79

A camela que desejava ter chifres

Ao ver um touro orgulhoso de seus chifres, uma camela ficou com inveja e também desejou conseguir uns iguais. Por isso, foi a Zeus pedir que lhe concedesse chifres. Irritado com ela, que, não satisfeita com o tamanho de seu corpo e sua força, ainda ambicionava qualidades adicionais, Zeus não só não lhe acrescentou os chifres como ainda lhe retirou um pedaço das orelhas.

Assim, muitas pessoas cúpidas que olham com inveja os bens alheios não notam que perdem até o que possuem.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 133

Esopo 89

Os carvalhos e Zeus

Os carvalhos se queixavam a Zeus, dizendo: “Foi à toa que viemos ao mundo, pois, mais que todas as plantas, suportamos o abate violento!”. E Zeus: “Pois são vocês mesmos os responsáveis por se acharem em tal desventura. Se não fornecessem os cabos de machados e não tivessem utilidade para marceneiros e camponeses, nenhum machado iria abatê-los!”.

Certas pessoas que são responsáveis pelos próprios males, recriminam tolamente a divindade.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 144

Esopo 105

A cobra pisoteada e Zeus

Uma cobra foi perguntar a Zeus por que ela era pisoteada por inúmeras pessoas. Zeus, então, lhe disse: “Mas, se você tivesse picado o primeiro homem que lhe deu um pisão, o segundo não teria se atrevido a fazer o mesmo”.

A fábula mostra que aqueles que enfrentam os primeiros agressores tornam-se temíveis para os demais.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 162

Esopo 130

A formiga

A formiga de hoje era, antigamente, um ser humano que se dedicava à lavoura, mas que não se contentava com o que produzia e, sempre de olho na produção alheia, vivia surripiando a colheita dos vizinhos. Então, Zeus se irritou com sua ganância e o transformou nesse animal chamado formiga. Mas, mesmo lhe alterando a forma, não mudou seu comportamento, pois até hoje ele percorre as plantações, recolhe a cevada e o trigo dos outros e os armazena para si.

A fábula mostra que os perversos por natureza, ainda que recebam uma excelente punição, não mudam de caráter.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 197

Esopo 136

O gaio e os pássaros

Zeus, pretendendo instituir o rei dos pássaros, marcou uma data em que eles deveriam se apresentar como canditados. Então, um gaio, consciente de que não tinha chance devido à sua feiura, aproximou-se, recolheu as penas que caíam de outros pássaros e prendeu-as ao redor de seu corpo. Quando chegou o dia marcado, o gaio, multicolorido, foi também até Zeus. Mas na hora em que Zeus estava prestes a levantar a mão para designar rei o gaio por conta de seu esplêndido visual, os pássaros indignados o rodearam e cada um arrancou dele a pena que lhe pertencia. Então, aconteceu que ele, depenado, voltou a ser gaio.

Assim, também, os homens devedores, enquanto estão com a riqueza alheia, acham que são os tais, mas quando a devolvem mostram ser exatamente o que eram desde o início.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 206