Esopo 155

Héracles e Pluto

Depois que se tornou uma divindade, Héracles foi acolhido à mesa junto de Zeus e lá foi saudando os deuses, um por um, com muita cordialidade. Mas de Pluto, que chegou por último, ele se esquivou, abaixando a cabeça. Zeus estranhou o fato e perguntou-lhe por que razão havia cumprimentado, com prazer, todos os deuses, mas olhara de soslaio para o deus da riqueza. Então ele disse: “Eu olho assim para ele porque, no tempo em que eu estava entre os homens, eu o via a maior parte das vezes frequentando os perversos”.

A fábula poderia ser contada a propósito de um homem abastado de sorte, mas perverso de caráter.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 234

Esopo 156

Hermes e a Terra

Quando Zeus plasmou o homem e a mulher, ordenou a Hermes que os conduzisse à Terra e lhes indicasse onde deveriam cavar para fazer uma toca. Hermes cumpriu a determinação, mas a Terra, no começo, criou resistência. E, como Hermes a intimidasse, dizendo que era determinação de Zeus, ela disse: “Mas eles que escavem quanto quiserem, pois vão me pagar com gemidos e lágrimas”.

Para aqueles que têm facilidade para tomar emprestado mas têm dificuldade para devolver, a fábula é oportuna.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 235

Esopo 158

Hermes e os artesãos

Zeus determinou a Hermes que despejasse o veneno da mentira em todos os artesãos. Ele, então, após triturar o veneno, preparou uma medida igual para cada um e passou a despejá-lo. Mas, como só faltava o sapateiro e havia veneno de sobra, Hermes pegou toda a poção e despejou nele. O resultado disso é que todos os artesãos contam mentiras, mas os sapateiros superam todos eles.

Para homem mentiroso a fábula é oportuna.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 237

Esopo 182

As idades do homem

Quando Zeus fez o homem, deu a ele uma vida breve. Mas o homem usou seu conhecimento e, quando estava próximo o inverno, fabricou para si uma casa e lá ficou vivendo. E, certa vez, quando fez um frio rigoroso e Zeus fez chover, o cavalo não pôde resistir e foi correndo à casa do homem pedir-lhe abrigo. O homem disse que só o atenderia se ele lhe cedesse uma parte de seus anos de vida. O cavalo, então, cedeu-a de bom grado. Não muito tempo depois, apareceu também o boi, pois nem ele estava podendo suportar a borrasca. Do mesmo modo, o homem disse que o acolheria se ele primeiro lhe entregasse um certo número de seus anos de vida. O boi, então, deu uma parte e foi acolhido. Por último chegou o cão, morrendo de frio, e, tendo partilhado também uma porção de seu tempo de vida, conseguiu abrigo. O resultado disso é que os homens, quando estão no tempo concedido por Zeus, são puros e bons, mas quando vivem os anos do cavalo são fanfarrões e empertigados; quando chegam aos anos do boi, tornam-se dominadores; e quando completam o tempo do cão ficam irascíveis e resmungões.

Uma pessoa poderia usar esta fábula para um velho irascível e intratável.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 271-272

Esopo 310

Prometeu e os homens

Por ordem de Zeus, Prometeu criou os homens e os bichos. Mas, quando Zeus viu que os animais irracionais eram bem mais numerosos, mandou Prometeu eliminar alguns deles, transformando-os em seres humanos. Prometeu cumpriu a determinação e o resultado foi que aqueles que não foram no início criados como homens têm forma humana, mas almas bestiais.

A fábula reprova o homem irascível e bestial.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 434

Esopo 315

As rãs que pediam um rei

Chateadas por viverem sem governo, as rãs enviaram a Zeus embaixadores pedindo que lhes desse um rei. E o deus, vendo como elas eram ingênuas, lançou no brejo um pedaço de pau. De imediato, as rãs, sobressaltadas com o barulho, se mandaram para o fundo do brejo. Mas depois, como o pau não se mexia, elas voltaram à tona e chegaram a tal ponto de descaso que trepavam nele e lá ficavam empoleiradas. Decepcionadas com um rei como aquele, as rãs foram a Zeus uma segunda vez para pedir que lhes trocasse o governante, pois aquele primeiro era muito bonachão. Foi aí que Zeus perdeu a paciência e lhes mandou uma cobra-d’água, que agarrou e devorou todas elas.

A fábula mostra que é melhor ter chefes indolentes e sem maldade do que chefes turbulentos e maldosos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 443

Esopo 356

O vaqueiro que perdeu um bezerro e o leão

Enquanto pastoreava um rebanho de touros, um vaqueiro perdeu um bezerro. Após ter percorrido os arredores sem tê-lo encontrado, prometeu a Zeus que imolaria um cabrito, se localizasse o ladrão. Ao chegar a um bosque de carvalhos, avistou um leão devorando o bezerro. Apavorado, ergueu as mãos para o céu e disse: “Zeus soberano, antes eu lhe havia prometido imolar um cabrito se encontrasse o ladrão, mas agora prometo imolar um touro, se eu me safar das garras desse ladrão!”.

Esta fábula pode ser dita a propósito de homens que, quando estão desventurados em situações embaraçosas, rezam para encontrar uma saída, mas assim que a encontram procuram evitá-la.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 511

Esopo 374

Zeus e a cobra

Como Zeus estava celebrando suas núpcias, todos os animais subiram com presentes à sua morada. Então, uma cobra apanhou uma rosa na boca e subiu rastejando. Ao vê-la, porém, Zeus disse: “Mesmo dos pés de todos os outros eu aceito presentes, mas de tua boca eu não pego nada!”.

A fábula mostra que as cortesias dos malvados são temíveis.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 533

Esopo 375

Zeus e a raposa

Maravilhado com o espírito sagaz e versátil da raposa, Zeus deu a ela a soberania sobre os animais irracionais. E, desejando saber se a raposa, que mudara de vida, tinha alterado também seus hábitos mesquinhos, lançou diante dela um escaravelho, justo no momento em que ela estava sendo carregada numa liteira. E a raposa, vendo o escaravelho voejando ao redor da liteira, não conseguiu se conter e, contrariando toda conveniência, deu um salto para tentar agarrá-lo. Então, Zeus ficou bronqueado com a raposa e a devolveu à sua antiga condição.

A fábula mostra que a natureza dos homens vis não se altera, mesmo que se revistam dos mais brilhantes ornamentos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 534

Esopo 376

Zeus e a tartaruga

Quando Zeus se casou, ofereceu um banquete a todos os animais. Só a tartaruga deixou de comparecer. E ele, com dificuldade de encontrar uma explicação para sua ausência, perguntou-lhe por que só ela não tinha ido ao jantar. Então, ela disse: “Casa da gente, casa excelente!”. Zeus ficou zangado e determinou que ela andaria por toda parte carregando a própria casa.

Assim, muitos homens preferem morar com simplicidade a receber tratamento de luxo em casa alheia.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 535