Esopo 318

O rapazote e a velha

Um rapazote ia por um caminho num dia de calor ardente e encontrou por acaso uma velhota, que foi seguindo pelo mesmo caminho em companhia dele. De repente, a velhota desmaiou por conta do calor ardente e da fadiga da caminhada. O rapaz, condoído de sua fragilidade, pois ela estava sem forças para prosseguir, ergueu-a do chão e pôs-se a carregá-la nos ombros. Enquanto a levava, sentiu-se terrivelmente perturbado com certos pensamentos indecentes, nutridos pelo furor da libertinagem e do intenso desejo, que lhe puseram o falo a prumo. Imediatamente ele depôs a velhota no chão e começou a fazer com ela um ato libidinoso. Ela, então, perguntou, sem malícia: “O que é isso que está agindo em mim?”. Ele respondeu: “Você é pesada e por isso resolvi desbastar um tanto de sua carne”. Disse isso e concluiu a safadeza com ela. Em seguida, tornou a erguê-la do chão e colocou-a nos ombros. Ele havia percorrido uma pequena extensão do caminho, quando a velha disse: “Se você acha que meu peso ainda está insuportável, ponha-me no chão e desbaste mais carne de meu corpo”.

Esta fábula mostra que alguns homens saciam um desejo pessoal e, depois, alegam que praticaram a ação inocentemente, tentando passar a ideia de que, premidos pela necessidade, praticaram outra coisa, e não aquela que deveras praticaram.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 448-449

Deixe um comentário