O ladrão e o albergueiro
Um ladrão alojou-se num albergue e lá ficou por alguns dias planejando fazer um roubo, mas não conseguiu realizar seu propósito. Certo dia, ao ver o albergueiro trajando uma roupa nova e vistosa (era dia de festa!) e sentado diante da porta do albergue sem ninguém por perto, o ladrão sentou-se ao lado dele e começou a conversar. E já haviam conversado um bom tanto quando o ladrão deu um bocejo e, em seguida, começou a uivar feito um lobo. Disse-lhe, então, o albergueiro: “Por que você está uivando assim?”. E o ladrão respondeu: “Vou lhe contar agora mesmo. Mas, primeiro, imploro que tome conta de meu manto, que vou deixar aqui. Eu não sei, meu senhor, de onde me vem esse bocejar. Não sei se é devido aos meus erros ou a alguma outra causa. Só sei que, depois que dou três bocejos, eu viro um lobo comedor de gente!”. Disse isso e bocejou pela segunda vez e, novamente, começou a uivar, igual à primeira vez. Ao ouvir isso, o albergueiro, que acreditara no ladrão, se apavorou e levantou-se, querendo fugir. Mas o ladrão o segurou pela túnica e lhe disse, implorando: “Espere, meu senhor, segure meu manto, para que eu não o destrua”. Enquanto implorava, abriu a boca e começou a bocejar pela terceira vez. O albergueiro, apavorado – e se ele o comesse?! –, deixou para trás sua própria roupa, entrou correndo no albergue e se refugiou lá dentro. Então, o ladrão se apoderou da roupa e foi embora.
Padecem assim os que acreditam no que não é verdade.
Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 283-284