A formiga e a mosca
[A fabulazinha recomenda a não fazer nada que não seja útil.]
Uma formiga e uma mosca disputavam acaloradamente
quem era mais importante. A mosca começou primeiro assim:
“Tu podes comparar-te com as minhas glórias?
Moro entre os altares, percorro todos os templos; 5
quando se imola, provo antes as vísceras dos deuses;
sento na cabeça do rei quando acho bom,
e toco de leve os castos lábios das matronas;
não trabalho em nada e desfruto das melhores coisas.
O que semelhante a isso acontece para ti, rústica?” 10
“É glorioso, sem dúvida, o banquete dos deuses,
mas para quem é convidado, não para quem é odiado.
Frequentas os altares? Na certa és enxotada quando chegas.
Mencionas os reis e os lábios das matronas;
Ainda por cima te gabas de coisa que o pudor deve ocultar. 15
Não trabalhas em nada, por isso, quando necessário, nada tens.
Enquanto aplicadamente eu amontoo o grão para o inverno,
te vejo alimentar-te no esterco ao redor do muro;
quando os frios te obrigam a morrer enrijecida,
a mim me acolhe sã e salva uma casa bem provida. 20
Me importunas no verão; quando é inverno, ficas em silêncio.
Sem dúvida, rebati bem a tua soberba”.
Tal fabulazinha distingue as características dos homens,
daqueles que se adornam com falsos louvores
e daqueles cuja virtude exibe uma sólida honra. 25
Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.