O poeta
A ti parece que estamos brincando: e, enquanto nada temos
de mais importante, nos divertimos com o leve cálamo.
Mas observa estas bagatelas com atenção;
quanta utilidade encontrarás embaixo delas!
Nem sempre as coisas são o que parecem: engana 5
a muitos a primeira vista, é rara a mente que compreende
o que o cuidado do poeta ocultou no cantinho mais recôndito.
Para que não se pense que eu tenha dito isso gratuitamente,
ajuntarei uma fabulazinha sobre a doninha e os ratos.
Uma doninha, enfraquecida pelos anos e pela velhice, 10
como não fosse capaz de alcançar os velozes ratos,
envolveu-se em farinha e se lançou negligentemente
num local escuro. Um rato, achando que era comida,
saltou em cima e, apanhado, encontrou a morte;
um outro pereceu do mesmo modo e, depois, um terceiro. 15
Seguindo-se outros, veio também um rato matreiro
que muitas vezes tinha escapado de redes e ratoeiras;
e, distinguindo de longe a cilada do astuto inimigo, diz:
“Que tenhas saúde, como és farinha que estás aí deitada!”
Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.