Fedro 4.2

O poeta

A ti parece que estamos brincando: e, enquanto nada temos

de mais importante, nos divertimos com o leve cálamo.

Mas observa estas bagatelas com atenção;

quanta utilidade encontrarás embaixo delas!

Nem sempre as coisas são o que parecem: engana 5

a muitos a primeira vista, é rara a mente que compreende

o que o cuidado do poeta ocultou no cantinho mais recôndito.

Para que não se pense que eu tenha dito isso gratuitamente,

ajuntarei uma fabulazinha sobre a doninha e os ratos.

Uma doninha, enfraquecida pelos anos e pela velhice, 10

como não fosse capaz de alcançar os velozes ratos,

envolveu-se em farinha e se lançou negligentemente

num local escuro. Um rato, achando que era comida,

saltou em cima e, apanhado, encontrou a morte;

um outro pereceu do mesmo modo e, depois, um terceiro. 15

Seguindo-se outros, veio também um rato matreiro

que muitas vezes tinha escapado de redes e ratoeiras;

e, distinguindo de longe a cilada do astuto inimigo, diz:

“Que tenhas saúde, como és farinha que estás aí deitada!”

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

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