O Ciclope
Um homem devoto e, decerto, orgulhoso de seus deveres religiosos, levou por um bom tempo uma vida cômoda em companhia dos filhos, mas depois deparou com uma pobreza extrema. Mortalmente transtornado na alma, pôs-se a blasfemar contra a divindade e, vendo-se impelido ao suicídio, pegou uma espada e saiu em busca de algum local ermo, pois preferia morrer a viver em condições aviltantes. No caminho, encontrou por acaso um fosso bem fundo e, dentro dele, uma quantia de ouro – e não era pouco! – que havia sido armazenada por um homem gigantesco, chamado Ciclope. Ao avistar o ouro, o homem retomou sua devoção e, cheio de medo misturado com alegria, jogou fora a espada, retirou o ouro de lá e retornou feliz para casa e para os filhos. Mais tarde, o Ciclope foi até o fosso e não encontrou o ouro, mas viu deixada no lugar dele a espada. Imediatamente tirou-a da bainha e deu cabo da própria vida.
Essa fábula mostra que as desgraças ocorrem, inevitavelmente, para os homens sinistros, mas para os bons e devotos são reservados os bens.
Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 153