Esopo 32

Bóreas e o Sol

O vento Bóreas e o Sol, numa disputa para ver quem era o mais forte, decidiram conceder a vitória àquele que fizesse um caminheiro tirar a roupa. Bóreas começou e soprou com violência. E, como o homem continuou com a roupa, reforçou a violência para pressioná-lo mais ainda. O homem, porém, cada vez mais castigado pelo frio, foi se cobrindo com roupas sobressalentes, até que Bóreas, exausto, entregou-o ao Sol. Este, por seu turno, primeiro emitiu um brilho moderado. O homem começou a se despir das roupas sobressalentes. Então, o Sol foi intensificando cada vez mais a ardência até que o homem, não conseguindo resistir ao calor, tirou a roupa e foi tomar banho num rio que corria ao lado.

A fábula mostra que muitas vezes a persuasão é mais eficaz do que a força.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 73

Esopo 33

O burro doente e o lobo médico

Em visita a um burro adoentado, um lobo começou a apalpar o corpo dele, ao mesmo tempo que indagava quais partes doíam mais. E respondeu o burro: “Essas que você está apalpando”.

Assim, os homens maus, ainda que deem a impressão de ajudar, só prejudicam.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 74

Esopo 34

O burro festeiro e o dono

Uma pessoa tinha um cão maltês e um burro, mas vivia sempre mimando o cão. Desse modo, se ia jantar fora, trazia algum bocado para lhe atirar quando o cão vinha a seu encontro abanando o rabo. Certa vez o burro, enciumado, correu ao encontro do dono e, ao saltitar, deu-lhe um coice. Então o dono perdeu a paciência e ordenou que, debaixo de pancadas, ele fosse levado para ser preso na estrebaria.

A fábula mostra que nem todos nasceram para tudo.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 75

Esopo 35

O burro e a mula

Um burriqueiro colocou fardos sobre um burro e uma mula e pôs-se a tangê-los. Enquanto o caminho seguia pela planície, o burro suportou o peso, mas quando chegaram à montanha ele já não aguentava mais e pediu à mula o favor de assumir uma parte de seu fardo, para que ele pudesse continuar transportando o restante. Mas ela não deu atenção ao pedido. O burro, então, despencou numa ribanceira e arrebentou-se. Sem saber o que fazer, o burriqueiro colocou o fardo do burro sobre a mula e, depois de escorchá-lo, pôs sobre ela também a pele do burro. Foi então que, sob forte exaustão, ela disse: “Bem feito para mim! Se eu tivesse me deixado convencer pelo burro, que me pediu o favor de aliviá-lo um pouco, agora não estaria carregando o burro juntamente com seus fardos!”.

Assim, também, alguns credores avarentos, para não conceder descontos aos devedores, muitas vezes acabam perdendo o próprio capital.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 77

Esopo 36

O burro e a mula com cargas iguais

Um burro e uma mula faziam um mesmo trajeto quando o burro, ao ver que os dois levavam fardos iguais, ficou indignado e pôs-se a reclamar, dizendo que a mula, apesar de ser contemplada com uma dupla quantia de ração, nem por isso estava levando um peso maior. E, tendo eles avançado apenas uma pequena parte do trajeto, o burriqueiro notou que o burro não estava aguentando. Então, tirou-lhe uma parte da carga e depositou-a sobre a mula. E, depois de terem avançado mais um tanto, notou que o burro estava ainda mais extenuado. Então de novo repartiu a carga, até que a retirou toda do burro e colocou-a sobre a mula. Foi aí que ela olhou bem para o burro e disse: “E então, meu caro, você não considera justo que eu mereça uma ração dupla?”.

Pois é. Portanto, convém que também nós julguemos o modo de ser de cada pessoa não pelo princípio, mas pelo fim.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 78

Esopo 37

O burro e as cigarras

Ao ouvir cigarras a cantar, um burro ficou deleitado com tão melodiosa voz e perguntou-lhes, com inveja, de que elas se alimentavam para emitir uma voz como aquela. “Orvalho”, responderam elas. Ele ficou esperando o orvalho e morreu de fome.

Assim, também, os que têm aspirações contrárias à natureza, além de não realizá-las, ainda padecem enormes desgraças.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 79

Esopo 38

O burro e as rãs

Um burro atravessava um charco carregando um fardo de lenha, quando deu um escorregão e caiu. Como não podia se erguer, ficou gemendo e se lastimando. Então as rãs do brejo, ao ouvir os lamentos, disseram: “Se você, meu caro, que caiu há pouco, está gemendo dessa maneira, o que não faria se passasse aqui tanto tempo quanto nós?”.

Dessa fábula pode servir-se uma pessoa a propósito de um homem frouxo que reclama de ínfimas desgraças, enquanto ela própria suporta, sem dificuldade, desgraças enormes.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 80

Esopo 39

O burro e o burriqueiro

Um burro, conduzido por um burriqueiro, percorreu uma pequena parte do caminho e depois abandonou a estrada plana e meteu-se pelas escarpas. E já estava despencando na ribanceira, quando o burriqueiro o segurou pelo rabo e tentou fazê-lo contornar o abismo. Mas, como o burro oferecia vigorosa resistência, ele o soltou, dizendo: “Você venceu! Mas que bela vitória é a sua!”.

Para o homem amante de desafios, a fábula é oportuna.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 81

Esopo 40

O burro e o cão que caminhavam juntos

Um burro e um cão seguiam juntos por um mesmo caminho, quando encontraram no chão uma carta selada. O burro pegou a carta, rompeu o selo, abriu-a e depois começou a ler para o cão ouvir. Mas as linhas tratavam de pastagens, isto é, de capim, de cevada e de palha. Enquanto o burro discorria sobre tal assunto, o cão foi se enfastiando e, a certa altura, disse-lhe: “Desce um pouco, meu caro, quem sabe você encontra alguns detalhamentos a respeito de carnes e de ossos”. Então o burro percorreu toda a carta e, como não localizou nada do que interessava ao cão, este replicou: “Jogue isso fora, amigo, pois não serve para nada”.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 82

Esopo 41

O burro e o hortelão

Um burro, servo de um hortelão, comia pouco e estafava-se demais. Por isso, pediu a Zeus que o livrasse do hortelão e o confiasse a outro dono. Por intermédio de Hermes, Zeus deu ordens para que o vendessem a um oleiro. Mas ele tornou a ficar descontente, pois era forçado a carregar mais peso do que antes. Então suplicou de novo outro dono a Zeus, que, por fim, providenciou que ele fosse vendido a um curtumeiro. Ao ver as atividades do patrão, o burro disse, entre gemidos: “Mesmo carregando peso e passando fome, era melhor ter ficado com os donos anteriores do que estar com este, pois, aqui, se eu morrer, não terei nem sepultura!”.

A fábula mostra que os servos sentem saudade dos donos anteriores, sobretudo quando experimentam outros.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 83