Esopo 52

Os burros dirigindo-se a Zeus

Fartos de carregar peso e de extenuar-se continuamente, certa vez os burros enviaram embaixadores a Zeus para pedir que ele desse um basta à fadiga. Pretendendo fazê-los ver que isso era impossível, Zeus disse que eles só se livrariam do sofrimento quando formassem um rio com a própria urina. E eles, supondo que o deus estivesse falando sério, desde aquele dia até hoje, onde quer que vejam urina de burro, param também ao redor desse local e urinam.

A fábula mostra que o destino fixado para cada um é imutável.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 97

Esopo 53

A cabra e o burro

[A fábula mostra] Que quem maquina velhacarias contra outra pessoa é o principal desencadeador de seus próprios males.

Uma pessoa criava uma cabra e um burro. A cabra, que sentia inveja do burro por causa de sua ração farta, ficava dizendo: “Você tolera castigos sem fim, ora fazendo girar a moenda, ora carregando fardos”. E sugeria que ele se fingisse de epilético, caísse num buraco e lá ficasse, imóvel. Ele se deixou persuadir e caiu, quebrando-se todo. Então o dono chamou o médico e pediu ajuda. Para recobrar a saúde do burro, o médico receitou uma infusão feita com pulmão de cabra. Foi então que eles sacrificaram a cabra e medicaram o burro.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 101

Esopo 54

A cabra e o pastor de cabras

Um pastor de cabras chamou suas cabras para o redil, mas uma delas ficou para trás, saboreando a pastagem. O pastor atirou contra ela uma pedra e sua boa pontaria quebrou-lhe o chifre. Depois, ficou implorando à cabra que não contasse nada ao patrão. Mas ela respondeu: “Mesmo que eu me cale, como vou esconder? Pois é evidente para todo mundo que meu chifre está quebrado!”.

[A fábula mostra] Que, quando a culpa é evidente, não há como ocultá-la.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 102

Esopo 55

O cabrito e o lobo flautista

Um cabrito que ficou por último atrás do rebanho estava sendo perseguido por um lobo. Então ele se virou para o lobo e disse: “Lobo, estou conformado em ser sua comida. Mas, para que eu não morra de forma indigna, toque flauta para eu dançar”. E o lobo se pôs a tocar flauta e o cabrito, a dançar. Entretanto, os cães o ouviram e saíram no encalço do lobo. Então este se voltou e disse ao cabrito: “Isso é bem feito para mim, pois eu, que sou magarefe, não devia me pôr a imitar um flautista”.

Assim, aqueles que praticam uma ação sem levar em conta as circunstâncias perdem até o que têm em mãos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 103

Esopo 56

O cabrito em cima da casa e o lobo

Postado no alto de uma casa, um cabrito viu um lobo passar por ali e se pôs a dizer-lhe injúrias e zombarias. Então o lobo disse: “Ei, meu caro, não é você que me injuria, mas o lugar onde você está!”.

A fábula mostra que as circunstâncias favorecem o atrevimento contra os mais fortes.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 105

Esopo 57

O caçador covarde e o lenhador

Um caçador que estava procurando pegadas de um leão perguntou a um lenhador se ele tinha visto as pegadas e onde o leão estava deitado. “Vou já lhe mostrar o próprio leão!”, respondeu o lenhador. E o caçador, amarelo de medo e batendo os dentes, replicou: “Só estou procurando as pegadas, e não o próprio leão!”.

Os atrevidos e covardes a fábula censura, os que são destemidos no falar e não no agir.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 108

Esopo 58

O caçador de passarinhos e a cigarra

Fábula do caçador de passarinhos, a qual exorta a não se atentar nas palavras, mas nos fatos.

Ao ouvir uma cigarra, um caçador de passarinhos achou que iria caçar uma grande presa e foi se aproximando, enquanto calculava, pela altura do canto, o tamanho da caça. Mas, quando manobrou a visgueira e apanhou a caça, teve em mãos um canto, nada mais que isso. E depois ficou recriminando a presunção, que leva muitos homens a formular falsos julgamentos.

Assim, as pessoas insignificantes tentam parecer bem mais do que são de fato.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 109

Esopo 59

O caçador de passarinhos e a víbora

Um caçador de passarinhos pegou o visgo e os caniços e partiu para a caça. Quando avistou um tordo pousado numa árvore alta, resolveu apanhá-lo. Então emendou os caniços no sentido do comprimento e ficou olhando fixamente, com toda a atenção voltada para o ar. E, enquanto mantinha a cabeça erguida assim, pisou sem perceber numa víbora que dormia diante de seus pés. Ela se virou e deu-lhe uma picada. E ele, moribundo, disse para si: “Que desgraçado sou eu, que quis agarrar uma presa e, sem perceber, tornei-me presa da morte!”.

Assim, aqueles que costuram maquinações contra próprios os primeiros os vizinhos são eles a cair em desgraças.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 110

Esopo 60

O caçador e o cão

Um caçador viu um cão que vinha ao seu encontro e se pôs a atirar-lhe pedaços de pão, um atrás do outro. Então o cão disse para o homem: “Fulano, desista de mim. Sua extrema boa vontade me deixa, ao contrário, muitíssimo incomodado!”.

Essa fábula mostra que aqueles que oferecem às pessoas muitos presentes é claro que estão tentando solapar a verdade.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 111

Esopo 61

O caçador e o cavaleiro

Um caçador seguia seu caminho carregando um coelho que havia caçado, quando deparou com um homem montado num cavalo. O cavaleiro fez perguntas sobre o coelho com o intuito de comprá-lo e, assim que pegou o coelho das mãos do caçador, saiu em disparada. O caçador tentou correr atrás dele para alcançá-lo, mas o cavaleiro mantinha-se a uma grande distância. Desacorçoado, o caçador o chamou e disse: “Vai embora de uma vez! Eu já te dei o coelho de presente mesmo!”.

Essa fábula mostra que muitos que são despojados de seus bens à força passam a fazer de conta que os deram de presente por querer.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 114