Esopo 102

O citarista

Um citarista inepto estava cantando numa casa de paredes bem revestidas. Como sua voz ecoava, ele julgou que ela era bem melodiosa e concluiu, envaidecido, que precisava exibir-se no teatro. Quando, porém, entrou no palco, cantou muito mal e foi enxotado a pedradas.

Assim, também, certos oradores, que nas escolas se acham os tais, descobrem que não têm nenhum mérito quando enfrentam a vida pública.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 159

Esopo 103

A cobra e o caranguejo

Uma cobra e um caranguejo habitavam o mesmo lugar. Mas, enquanto ele se relacionava com a cobra de modo franco e bondoso, ela era sempre tortuosa e perversa. O caranguejo vivia incentivando a cobra a imitar seu comportamento e tratá-lo com retidão, mas ela não se deixava persuadir. Por isso, o caranguejo perdeu a paciência e, ao espreitá-la a dormir, deu um bote no pescoço e matou-a. E disse, ao vê-la estirada: “Não é agora depois de morta, minha cara, que você deve ficar reta, mas sim quando eu a incentivava e você não dava atenção!”.

Esta fábula pode ser propósito daqueles dita, com razão, a homens que em vida são perversos para com amigos, mas, depois de mortos, prestam benefícios a eles.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 160

Esopo 104

A cobra, a doninha e os ratos

Uma cobra e uma doninha estavam numa casa brigando. E os ratos de lá, que eram sempre devorados pelas duas, quando as viram brigando saíram para passear. Mas, assim que elas viram os ratos, suspenderam a briga e foram atrás deles.

Assim, também, no que concerne às cidades, aqueles que se intrometem nas querelas dos demagogos não percebem que se tornam um incômodo para os dois lados.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 161

Esopo 105

A cobra pisoteada e Zeus

Uma cobra foi perguntar a Zeus por que ela era pisoteada por inúmeras pessoas. Zeus, então, lhe disse: “Mas, se você tivesse picado o primeiro homem que lhe deu um pisão, o segundo não teria se atrevido a fazer o mesmo”.

A fábula mostra que aqueles que enfrentam os primeiros agressores tornam-se temíveis para os demais.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 162

Esopo 106

A corça à beira do riacho

Premida pela sede, uma corça foi a uma fonte. Depois que bebeu, fitou sua própria sombra na superfície da água e, vendo que seus cornos eram de bom tamanho e de feitio variado, envaideceu-se deles, mas chateou-se muito com suas pernas, por serem finas e frágeis. E ainda estava pensando nisso, quando, de repente, surgiu um leão, que começou a persegui-la. Ela tratou de fugir em disparada e, enquanto a planície era um descampado, foi tomando a dianteira. Mas quando parou num matagal aconteceu o seguinte: seus cornos se enroscaram nos galhos e ela, sem poder correr, foi agarrada pelo leão. Prestes a morrer, disse para si: “Pobre de mim! Aquelas que eu pensava que fossem me trair me salvaram, enquanto esses em quem eu tinha plena confiança puseram-me a perder!”.

Assim, é frequente que, nos perigos, os amigos suspeitos se tornem salvadores e os que mereciam plena confiança, traidores.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 163

Esopo 107

A corça e a videira

Uma corça estava sendo perseguida por caçadores e foi se esconder embaixo de uma videira. Ao notar que eles tinham passado reto e já estavam um pouco mais adiante, a corça retrocedeu e começou a comer das folhas da videira. Mas um dos caçadores se voltou e, ao avistá-la, atirou o dardo contra ela, abatendo-a. Prestes a morrer, a corça disse entre gemidos: “Bem feito para mim, pois eu não deveria ter maltratado a videira, minha protetora!”.

A fábula poderia ser dita para aqueles homens que, por seus benfeitores, são castigados maltratarem pelos deuses.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 166

Esopo 108

A corça e o leão na caverna

Enquanto fugia de caçadores, uma corça foi parar numa caverna onde estava um leão, e lá entrou para esconder-se. Tendo sido agarrada por ele, disse, prestes a perecer: “Que azarada sou eu, que, para fugir de homens, coloquei-me nas mãos de uma fera”.

Assim, alguns homens, por medo de perigos menores, lançam-se em males maiores.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 167

Esopo 109

A corça zarolha

Uma corça zarolha foi parar numa praia e ali ficou pastando, com o olho bom voltado para a terra, atenta ao ataque dos caçadores, e com o estropiado voltado para o mar, do qual ela não suspeitava nenhuma ameaça. Mas certas pessoas que navegavam por ali, assim que a viram, lançaram dardos contra ela. E a corça, expirando, disse para si: “Que desditosa sou eu, que me resguardava da terra como traiçoeira, mas encontrei muito mais nocividade no mar, no qual busquei refúgio”.

Assim, muitas vezes, ao contrário de nossa suposição, as situações que parecem difíceis se revelam vantajosas, e as consideradas favoráveis, perigosas.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 168

Esopo 110

O corvo doente

Um corvo doente pediu à sua mãe: “Mãe, não fique se lamentando, reze aos deuses!”. E ela respondeu: “Filho, que deus terá piedade de você? De qual deles você não roubou carne?”.

A fábula mostra que os que têm, na vida, inúmeros inimigos numa urgência não encontrarão nenhum amigo.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 170

Esopo 111

O corvo e a cobra

Ao avistar uma cobra dormindo num lugar ensolarado, um corvo faminto desceu voando e arrebatou-a, mas ela se voltou e lhe deu uma picada. Então ele disse, prestes a morrer: “Pobre de mim! Encontrei esse achado e, por causa dele, estou perdendo a vida!”.

Esta fábula poderia ser contada a propósito de um homem que, para achar um tesouro, pôs em perigo a própria vida.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 171