Esopo 142

A gansa dos ovos de ouro

Por receber de um homem reverências em excesso, Hermes o gratificou com uma gansa que botava ovos de ouro. Mas o homem não teve paciência para aguardar o lucro parcelado e, supondo que a gansa fosse por dentro toda de ouro, matou-a sem nenhuma hesitação. Resultou que ele não apenas teve frustradas suas expectativas como também ficou sem os ovos, pois descobriu que as entranhas da gansa eram de carne.

Assim, muitas vezes, os ambiciosos, por desejarem mais bens, deixam escapar até o que têm em mãos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 215

Esopo 143

Os gansos e os grous

Gansos e grous viviam num mesmo prado. Quando vieram os caçadores, os grous, que eram leves, alçaram voo, mas os gansos permaneceram onde estavam devido ao peso do corpo e foram agarrados.

Assim, também, os homens pobres, que não têm peso para carregar, quando ocorrem levantes numa cidade mudam facilmente para outra, mas os ricos muitas vezes permanecem causa do excesso de onde estão, por bens, e perecem.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 216

Esopo 144

O gato e o galo

Um gato apanhou um galo e decidiu devorá-lo sob um pretexto bem plausível. E começou a fazer-lhe acusações, dizendo que ele era um estorvo para os homens, pois cantava à noite e não os deixava pegar no sono. O galo se defendeu dizendo que agia assim para o bem deles, despertando-os para cuidarem dos afazeres rotineiros. O gato fez uma segunda acusação: “Mas você também tem natureza ímpia, pois se acasala com sua mãe e suas irmãs”. E, como o galo afirmasse que agia assim também em benefício dos patrões, provendo para eles grande quantidade de ovos, o gato, sem jeito, respondeu: “Quer dizer que, se suas defesas forem sempre bem-sucedidas, eu não terei como comer você?”.

A fábula mostra que uma natureza perversa, decidida a cometer uma falta, mesmo que não consiga um pretexto plausível, age com perversidade às claras.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 217

Esopo 145

O gato e os ratos

Ao saber que em certa casa havia muitos ratos, um gato foi lá e, agarrando um a um, passou a devorá-los. Então os ratos, sempre ameaçados de morte, se enfiaram em buracos e o gato, sem poder apanhá-los, reconheceu que devia bolar um plano para atraí-los para fora. Por isso, alcançou um gancho e nele se dependurou, fingindo-se de morto. Então um dos ratos pôs a cabeça para fora e, ao avistá-lo, disse: “Ei, você aí, mesmo que se torne um saco, eu não chego perto!”.

A fábula mostra que os homens prudentes, quando têm experiência com pessoas malvadas, não mais se deixam enganar por suas dissimulações.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 219

Esopo 146

O gato médico e as galinhas

Um gato ouviu dizer que, num galinheiro, havia galinhas doentes. Então ele se vestiu de médico, pegou os instrumentos da profissão e foi para lá. Diante do galinheiro, ele se deteve e perguntou como as galinhas estavam passando. E elas responderam: “Estamos passando muito bem, contanto que você se afaste daqui!”.

Assim, também, os homens perversos não deixam de ser notados pelos prudentes, ainda que representem o papel de personagens muito generosas.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 220

Esopo 147

O gato que convidou pássaros para um jantar

Um gato fez de conta que ia comemorar seu aniversário e convidou pássaros para um jantar. Em seguida, ficou de lado observando e, quando todos já tinham entrado, fechou a porta. Então começou a devorá-los, um por um.

Esta fábula cai bem para aqueles que se entregam a uma alegre expectativa e vivenciam o contrário.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 223

Esopo 148

O golfinho e o macaco

Os navegantes têm o costume de levar cães malteses e macacos para distraí-los na viagem. Assim, uma pessoa que saía para navegar, trouxe consigo um macaco. Mas, quando chegaram perto do Súnion, o promontório da Ática, desabou uma violenta tempestade. O navio naufragou e, como todos se puseram a nadar, o macaco também mergulhou. Então um golfinho o avistou e, julgando que ele fosse um homem, colocou-se sob ele e, após emergir, carregou-o pelo mar. Quando estavam próximos do Pireu, o porto dos atenienses, o golfinho perguntou ao macaco se ele era ateniense de origem. O macaco respondeu que sim, e que era de família ilustre. Depois o golfinho perguntou-lhe se também conhecia o Pireu. E o macaco, achando que ele estava se referindo a um homem, respondeu que sim, e disse que o Pireu era seu amigo íntimo. Então o golfinho, indignado com esse disparate, deu um mergulho e o afogou.

A fábula é oportuna para homens mentirosos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 224

Esopo 149

Os golfinhos e o gobião

Golfinhos e baleias estavam engalfinhados numa rixa que se mantinha violenta por muito tempo, quando veio à tona um gobião e tentou apaziguá-los. Então, um dos golfinhos lhe disse: “Mas para nós é mais tolerável nos destruirmos mutuamente numa luta do que ter você como mediador”.

Assim, certos homens insignificantes, toda vez que pegam um tumulto, acham que são importantes.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 226

Esopo 150

A gralha e o cântaro

Uma gralha sedenta pousou sobre um cântaro e ten- tou entorná-lo à força, mas não conseguiu tombá-lo, porque ele estava apoiado com muita firmeza. A gralha, porém, acabou conseguindo o que queria por meio de um artifício: jogou seixos dentro do cântaro, o que fez a água que estava no fundo vir à tona e transbordar. E foi assim que a gralha aplacou a sede.

Assim, portanto, a inteligência burla a força.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 227

Esopo 151

A gralha e o cão

Uma gralha estava oferecendo um sacrifício à deusa Atena e convidou um cão para o banquete. Ele, então, lhe disse: “Por que você desperdiça sacrifícios? A deusa tem tanto ódio de você que até retirou a credibilidade de seus augúrios!”. E a gralha respondeu: “Mas é justamente por isso que estou oferecendo um sacrifício, para que ela mude seus sentimentos a meu respeito, porque sei que ela não gosta de mim”.

Assim, muitos, por medo, não vacilam em beneficiar os inimigos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 228