Esopo 232

O lobo e o cavalo

Ao caminhar por uma plantação, um lobo encontrou cevada, mas, como não podia usá-la como alimento, abandonou-a. Estava indo embora, quando encontrou um cavalo. Então o lobo tentou conduzi-lo até a plantação, dizendo que tinha encontrado cevada, mas não a comera, pois a deixara reservada para ele, sobretudo porque sentia prazer em ouvir o barulho de seus dentes. E o cavalo disse, em resposta: “Mas se lobos pudessem se alimentar de cevada, você jamais teria posto as orelhas na frente do estômago!”.

A fábula mostra que os perversos por natureza não merecem confiança, mesmo que façam alarde de boas intenções.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 335

Esopo 233

O lobo e o cordeiro

Um lobo viu um cordeiro bebendo água de um rio e desejou devorá-lo com um pretexto bem articulado. Assim, postou-se mais acima e começou a recriminá-lo, dizendo que ele estava turvando a água e impedindo-o de beber. O cordeiro respondeu que bebia com a ponta dos lábios e que, de mais a mais, não podia ser que ele, que estava abaixo, estivesse turvando a água do lado de cima. E o lobo, fracassando nessa acusação, disse: “Mas no ano passado você injuriou meu pai!”. E, como o cordeiro revidou que naquela época ele ainda não tinha um ano de vida, o lobo lhe disse: “Ora, se suas defesas forem bem-sucedidas, eu não vou comer você!”.

A fábula mostra que, junto daqueles cujo propósito é praticar a injustiça, nenhuma defesa justa tem valor.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 336

Esopo 234

O lobo e o cordeirinho

Um cordeirinho estava sendo perseguido por um lobo e buscou refúgio num templo. Então o lobo se pôs a chamá-lo e a dizer que, se o sacerdote o apanhasse, iria sacrificá-lo ao deus. O cordeirinho respondeu: “Mas para mim é mais aceitável ser sacrificado a um deus do que ser morto por você”.

A fábula mostra que, se é imperioso morrer, é melhor morrer com glória.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 337

Esopo 235

O lobo e o leão

Certa vez um lobo estava levando para sua toca um cordeiro roubado de um rebanho, quando um leão topou com ele e tomou-lhe a presa. Então o lobo estacou e lhe disse, de longe: “Você tomou desonestamente o que era meu!”. E o leão revidou, com um sorriso: “E por acaso você o recebera honestamente de algum amigo?”.

Gatunos e bandidos presunçosos, que trocam acusações quando se veem em alguma complicação, a fábula denuncia.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 338

Esopo 236

O lobo e o pastor

Um lobo seguia um rebanho de ovelhas sem molestá-las. O pastor, a princípio, tomava tento nele, seu inimigo, e, temeroso, vigiava-o de perto. Mas como ele ia seguindo ao seu lado, sem fazer nada de errado ou insinuar qualquer ameaça de roubo, o pastor entendeu que o lobo era antes um protetor do que um embusteiro e, quando precisou ir à cidade, deixou com ele as ovelhas e partiu. Então, o lobo aproveitou a chance e dizimou a maioria. Quando o pastor retornou e viu o rebanho dizimado, disse: “Mas é bem-feito para mim! Por que fui confiar ovelhas a um lobo?”.

Assim, também, os homens perdem com razão os depósitos que confiam a pessoas ambiciosas e sem escrúpulos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 339

Esopo 237

O lobo envaidecido e o leão

Um lobo vadiava por ermas paragens,

enquanto o Sol já ia descendo no ocaso.

E disse, ao ver sua própria sombra alongada:

“Temer o leão? Eu? Que tenho este tamanho?

Com tantos metros de medida, não serei

senhor de todas as feras reunidas?”.

Mas um leão forte agarra o lobo vaidoso

e já o abocanha. Grita o lobo arrependido:

“A pretensão é a causa de nossas desgraças”.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 340

Esopo 238

O lobo general e o burro

[A fábula mostra] Que certas pessoas que parecem legislar segundo a justiça elas próprias não se enquadram nas leis que formulam e que adotam em seus julgamentos.

Assim que se tornou general da alcateia, um lobo ditou leis fixando que cada lobo deveria trazer para o grupo a presa que tivesse caçado e dar uma porção igual para cada um, a fim de evitar que os demais, privados de comida, devorassem uns aos outros. Então um burro se aproximou e, sacudindo a crina, disse: “Magnífica ideia saída da cabeça de um lobo! Mas como é que você deixou guardada em seu covil a caça de ontem? Vamos, trate de oferecê-la ao grupo, faça a partilha!”. E ele, denunciado, revogou as leis.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 341

Esopo 239

O lobo machucado e o cordeiro

Tendo sido mordido por cães, um lobo estava passando mal e permanecia estirado no chão, sem condições de ir à cata de comida para si. Mas, nisso, ele viu um cordeiro e pediu a ele que lhe arrumasse um pouco da água de um rio que corria perto dali. “Pois se você me der de beber, eu vou achar comida para mim”, disse ele. O cordeiro, porém, rebateu: “Mas se eu lhe servir a bebida, sou eu que vou virar sua comida!”.

Para homem malfeitor que prepara emboscada por meio de subterfúgios, a fábula é oportuna.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 342

Esopo 240

O lobo médico

Um burro estava pastando num prado e, ao ver um lobo avançando em sua direção, começou a fazer de conta que estava mancando. O lobo se aproximou e quis saber por que razão ele estava mancando. O burro respondeu que, ao atravessar uma sebe, havia pisado numa farpa, e aconselhou o lobo a, primeiro, extrair a farpa e só depois devorá-lo, para ele não se espetar enquanto o estivesse engolindo. O lobo se deixou convencer e ergueu a pata do burro, com a atenção toda voltada para seu casco. Nisso, o burro lhe pregou um coice na boca, que abalou seus dentes. E o lobo disse, entre dores: “Mas é bem-feito para mim! Se meu pai me ensinou o ofício de carniceiro, por que fui me ocupar da medicina?”.

Assim, também, os homens que se põem a fazer o que não lhes compete se desgraçam com razão.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 343

Esopo 241

Lobos e cães reconciliados

[A fábula mostra] Que aqueles que traem a pátria recebem esse tipo de pagamento.

Os lobos disseram aos cães: “Por que vocês, que são iguais a nós em tudo, não se põem de acordo conosco, feito irmãos? Não há entre nós nenhuma diferença, exceto quanto ao modo de pensar. E nós, os lobos, vivemos juntos em liberdade, enquanto vocês se curvam, subservientes, aos homens, tomando bordoadas, usando coleiras e vigiando os cordeiros. Mas, quando eles fazem as refeições, dão para vocês somente os ossos! Ora, se confiarem em nós e nos entregarem os rebanhos todos, teremos tudo em comum para comermos à farta”. Os cães deram crédito a tais propostas e os lobos, assim que entraram no aprisco, a primeira coisa que fizeram foi dizimar os cães.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 346