Esopo 361

As vespas, as perdizes e o lavrador

Vespas e perdizes, premidas pela sede, foram à casa de um lavrador pedir-lhe de beber, prometendo, em troca da água, esta compensação: as perdizes arrancariam as ervas daninhas das videiras, para os cachos ficarem viçosos, e as vespas fariam ronda para afugentar, com seus ferrões, os gatunos. E o lavrador respondeu: “Só que eu tenho dois bois que não me prometem nada, mas me fazem tudo. Logo, é melhor dar de beber a eles do que a vocês”.

Esta fábula [é oportuna] para homem mal recompensado.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 517

Esopo 362

O viandante e a Verdade

Enquanto caminhava pelo deserto, um homem encontrou uma mulher solitária, parada, de olhos voltados para o chão, e lhe perguntou: “Quem é você?”. E ela: “A Verdade”. “E por que motivo deixou a cidade e está morando no deserto?”, tornou ele. Ela respondeu: “É que, em tempos passados, a mentira era companheira de poucas pessoas, mas hoje, sempre que você quer falar ou ouvir alguma coisa, ela está com todos os homens”.

[A fábula mostra] Que os homens padecem uma vida péssima e sofrida quando a mentira prevalece sobre a verdade.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 518

Esopo 363

O viandante e a víbora

Era inverno quando um viandante encontrou uma víbora enregelada de frio. Compadecido, pegou-a e, colocando-a sob a veste, tentou aquecê-la. Enquanto ela estava sob o efeito da friagem, permaneceu acomodada, mas, tão logo se aqueceu, lascou uma picada no ventre do homem. Ele disse, prestes a morrer: “Bem-feito para mim! Por que fui salvar essa moribunda, que eu devia matar mesmo que ela estivesse cheia de vitalidade?”.

A fábula mostra que a maldade, se beneficiada, além de não retribuir o benefício, ainda se assanha contra os benfeitores.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 519

Esopo 364

O viandante e Hermes

Um viandante percorria um longo caminho e prometeu a Hermes que, se topasse com algum achado, lhe ofertaria a metade. Casualmente, ele encontrou um alforje com amêndoas e tâmaras. Pegou então o alforje e, pensando que continha dinheiro, sacudiu-o. E, quando viu que eram amêndoas e tâmaras, comeu tudo. Depois, pegou as cascas das amêndoas e os caroços das tâmaras e colocou-os sobre um altar, dizendo: “Hermes, estou pagando minha promessa. Reparti com você o que estava dentro do meu achado e também o que estava fora”.

Para homem avarento que, por cobiça, tenta fraudar até os deuses, a fábula é oportuna.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 520

Esopo 365

O viandante e o Acaso

Ao completar uma longa caminhada, um viandante, fraquejando de cansaço, deitou-se à beira de um poço e adormeceu. Estava ele quase despencando no poço, quando o Acaso parou ao lado dele e o despertou, dizendo a seguir: “Ô, camarada, se você tivesse caído, jogaria a culpa em mim, e não em seu próprio descuido!”.

Assim, muitos homens provocam a própria desgraça e depois responsabilizam os deuses.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 521

Esopo 366

Os viandantes e o plátano

Era verão, por volta do meio-dia, quando um grupo de viandantes, exaustos pelo tórrido calor, avistou um plátano. Rumaram então para debaixo dele e, deitados à sombra, fizeram uma pausa na viagem. E, quando ergueram os olhos para o plátano, comentaram entre si: “Esta árvore é um tanto inútil para os homens, pois não dá frutos!”. Ela rebateu: “Ingratos! Vocês estão ainda fruindo de meu benefício e me tacham de inútil e estéril!”.

Assim, também, alguns homens são tão azarados que, mesmo quando fazem o bem ao próximo, não se reconhecem seus préstimos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 522

Esopo 367

Os viandantes e o corvo

Um corvo que tinha um olho estropiado foi ao encontro de algumas pessoas que estavam viajando a negócios. Então, elas se detiveram e uma delas propôs que retornassem, pois era isso o que indicava o presságio. Mas outra replicou: “E como é que esse aí pode predizer nosso futuro, se ele não previu nem a própria mutilação, a fim de precaver-se?”.

Assim, também, os homens que são desavisados em seus assuntos particulares também são mal cotados para aconselhar o próximo.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 523

Esopo 368

Os viandantes e o machado

Estavam dois homens seguindo por um mesmo caminho. Eis que um deles encontrou um machado e o outro disse: “Nós encontramos um machado!”. Então, aquele que encontrou o machado recomendou que o outro dissesse “você encontrou um machado”, e não “nós encontramos um machado”. Pouco tempo depois, vieram ao encalço deles as pessoas que tinham perdido o machado. Então, aquele que estava com o machado, ao ver-se acuado, disse para o companheiro de viagem: “Nós estamos ferrados!”. E o companheiro retrucou: “Não diga ‘nós estamos ferrados’ mas ‘eu estou ferrado’, pois quando você encontrou o machado não quis dividi-lo comigo!”.

A fábula mostra que os que não são solidários nas situações afortunadas tampouco nos infortúnios são amigos confiáveis.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 524

Esopo 369

Os viandantes e o urso

Dois amigos iam por uma mesma estrada quando, de repente, surgiu diante deles um urso. Então, um subiu depressa numa árvore e lá ficou escondido. O outro, sem ter para onde fugir, caiu no chão e fingiu-se de morto. O urso chegou com o focinho perto dele e se pôs a farejá-lo, enquanto ele, por sua vez, prendia a respiração, pois dizem que esse animal não toca em cadáveres. Depois que o urso foi embora, o amigo que estava na árvore perguntou o que o urso lhe havia cochichado. Então, o outro respondeu: “Que de hoje em diante eu não devo andar em companhia desses amigos que, nas situações perigosas, nos abandonam”.

A fábula mostra que as desgraças põem à prova os amigos sinceros.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 525

Esopo 370

Os viandantes e os destroços de madeira

Um grupo de viandantes caminhava ao longo de uma praia. Quando chegaram a um promontório, avistaram ao longe destroços de madeira flutuando. Imaginando que se tratava de um grande navio de guerra, ficaram esperando que ele viesse encostar. Mas quando os destroços, carregados pela maré, ficaram mais próximos, eles tiveram a impressão de estar vendo um cargueiro, pois eram menores do que aparentavam. E, quando os viram fora da água e constataram que eram meros destroços, comentaram entre si: “Ficamos esperando à toa uma coisa que não existe!”.

Assim, também, alguns homens à primeira vista dão a impressão de serem temíveis, mas quando postos à prova mostram-se indignos de consideração.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 526