Fedro 4.1

O burro e os sacerdotes de Cibele

Quem nasceu infeliz, não só passa a vida triste,

mas também, depois da morte,

o persegue a dura desgraça do fado.

Os sacerdotes de Cibele costumavam conduzir de um lado

para outro para suas esmolas um burro que levava as cargas. 5

Quando esse acabou morrendo do trabalho e das pancadas,

tiraram  seu couro e fizeram tambores para si.

Mais tarde, indagados por um certo sujeito o que eles

tinham feito do queridinho deles, falaram deste modo:

“Ele achava que após a morte estaria seguro: 10

eis que outros golpes se acumulam sobre o morto!”

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 4.2

O poeta

A ti parece que estamos brincando: e, enquanto nada temos

de mais importante, nos divertimos com o leve cálamo.

Mas observa estas bagatelas com atenção;

quanta utilidade encontrarás embaixo delas!

Nem sempre as coisas são o que parecem: engana 5

a muitos a primeira vista, é rara a mente que compreende

o que o cuidado do poeta ocultou no cantinho mais recôndito.

Para que não se pense que eu tenha dito isso gratuitamente,

ajuntarei uma fabulazinha sobre a doninha e os ratos.

Uma doninha, enfraquecida pelos anos e pela velhice, 10

como não fosse capaz de alcançar os velozes ratos,

envolveu-se em farinha e se lançou negligentemente

num local escuro. Um rato, achando que era comida,

saltou em cima e, apanhado, encontrou a morte;

um outro pereceu do mesmo modo e, depois, um terceiro. 15

Seguindo-se outros, veio também um rato matreiro

que muitas vezes tinha escapado de redes e ratoeiras;

e, distinguindo de longe a cilada do astuto inimigo, diz:

“Que tenhas saúde, como és farinha que estás aí deitada!”

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 4.3

Sobre a raposa e o cacho de uva

Forçada pela fome, uma raposa tentava apanhar um cacho

de uvas de alta videira, saltando com todas as suas forças.

Como não pôde alcançá-lo, indo embora diz:

“Ainda não está maduro; não quero colher verde”.

Aqueles que desdenham com palavras as coisas 5

que não conseguem fazer, deverão aplicar a si este exemplo.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 4.4

O cavalo e o javali

Um javali, remexendo-se na água, sujou o vau

onde o cavalo tinha por costume matar a sede.

Daí surgiu o litígio. O de pés sonantes, irado com a fera,

pediu ajuda ao homem; levando este em suas costas,

voltou na direção do inimigo. Dizem que o cavaleiro, 5

depois que o matou com dardos, falou assim:

“Alegro-me de ter levado auxílio às tuas súplicas;

pois apanhei uma presa e aprendi o quanto és útil”.

E assim obrigou-o a suportar, contra a vontade, os freios.

Então ele, abatido: “Enquanto buscava louco 10

a vingança de uma pequena coisa, encontrei a escravidão”.

Esta fábula advertirá os iracundos de que é melhor

ser impunemente lesado do que se entregar a outrem.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 4.5

O poeta

Vou transmitir aos pósteros, com uma breve narração, que

muitas vezes há mais mérito numa só pessoa do que numa turma.

Um certo homem deixou três filhas, ao morrer;

uma formosa e que caçava os homens com seus olhos,

já a outra, fiandeira de lã e frugal camponesa, 5

e a terceira, devota do vinho e muito feia.

O velho, porém, fez herdeira a mãe delas

sob a condição de que distribuísse toda a fortuna

de modo igualitário para as três, mas do seguinte modo:

“Que não possuam ou desfrutem das coisas dadas”; e 10

“que, logo que deixassem de ter as coisas que receberam,

entregassem à mãe cem mil sestércios”.

O rumor se espalha em Atenas, a zelosa mãe

consulta especialistas em direito; ninguém explica

como elas não possuiriam o que lhes tinha sido dado 15

ou não usufruiriam de seu benefício; depois, como elas,

que não ficaram com nada, entregariam o dinheiro.

Depois que se passou um intervalo de um longo tempo

e o sentido do testamento não pôde ser compreendido,

a mãe, deixando de lado o direito, apelou para a boa fé. 20

Separa para a rameira a vestimenta, os enfeites femininos,

o lavatório de prata e os eunucos sem pelos;

para a fiandeira, terras, gado, casa de campo, trabalhadores,

os bois, os jumentos e o equipamento agrícola;

para a bêbada, a adega cheia de ânforas antigas, 25

uma casa elegante e agradáveis jardins.

Justo quando queria dar a cada uma as coisas assim destinadas

e o povo, que as conhecia, aprovava,

Esopo apareceu de repente no meio da multidão:

“Oh, se permanecesse a consciência no pai enterrado 30

quão dolorosamente sofreria pelo fato de que os atenienses

não foram capazes de interpretar a sua vontade!”

Perguntado em seguida, desfez o erro de todos:

“A casa e os adornos com os encantadores jardins

e os vinhos velhos dai à fiandeira camponesa; 35

a vestimenta, as pérolas, os lacaios etc.

concedei àquela que leva a vida no excesso;

os campos e a casa de campo e o gado com os pastores

doai para a rameira. Nenhuma poderá suportar

ser dona do que é alheio aos seus costumes. 40

A feia venderá o aparato para comprar vinho;

a rameira se desfará dos campos para obter adorno;

e aquela que se alegra com o gado e é dedicada à lã

dará por qualquer soma a casa de luxo.

Assim nenhuma possuirá o que lhe tiver sido dado, 45

e elas entregarão à mãe o dinheiro estipulado

proveniente do preço das coisas que cada uma tiver vendido”.

Assim a sagacidade de um único homem encontrou

aquilo que escapou à falta de sabedoria de muitos.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 4.6

A luta dos ratos e das doninhas

Como os ratos, vencidos pelo exército das doninhas,

(cuja história é pintada nas tabernas)

fugissem e se agitassem temerosos ao redor das estreitas tocas,

recolhidos com dificuldade, escaparam, contudo, da morte:

os seus chefes, porém, com chifres atados 5

em suas cabeças, para serem no combate

visível sinal que os soldados seguissem,

enroscaram-se nas portas e foram apanhados pelos inimigos;

o vencedor, depois de sacrificá-los com seus ávidos dentes

enterrou-os na gruta infernal de seu espaçoso ventre. 10

Qualquer que seja o povo que um acontecimento triste oprime,

a grandeza dos poderosos corre perigo;

o povo miúdo se esconde num fácil abrigo.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 4.7

Fedro

Tu, crítico de fino olfato, que deprecias meus escritos

e tens repugnância de ler este gênero de brincadeiras,

sustém o livrinho com uma pequena paciência,

enquanto aplaco a severidade de tua fronte

e Esopo aparece em cena com inéditos coturnos: 5

“Que dera nunca, no cume dos bosques de Pélion, tivesse caído

o pinheiro da Tessália a golpes de um machado de dois gumes,

nem Argos, para a ousada viagem de uma morte anunciada,

tivesse fabricado, com ajuda de Palas, o barco

que primeiro franqueou os golfos do inóspito 10

Ponto para a ruína de gregos e bárbaros.

Com efeito, não só chora a casa do soberbo Eeta,

como também jazem os reinos de Pélias, pelo crime de Medéia,

que, encobrindo de vários modos seu caráter cruel,

numa hora, propiciou a fuga graças aos membros de seu irmão, 15

noutra, manchou as mãos das Pelíades com o assassínio do pai”

O que te parece? “Isso também é sem graça”, diz

“e é dito falso, porque Minos, muitíssimo mais antigo,

dominou com sua frota o mar Egeu

e reivindicou o modelo de um império justo”. 20

O que então posso fazer para ti, leitor Catão,

se nem as fabulazinhas nem as tragédias te agradam?

Não sejas totalmente aborrecido com as letras

para que não te causem um aborrecimento maior.

Isto foi dito para aqueles que estão nauseados por sua estupidez 25

e, para serem julgados sábios, insultam até o céu.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 4.8

A serpente para o ferreiro

Quem com dente maldoso ataca a um mais mordaz,

sinta-se representado neste enredo.

Uma víbora veio à oficina de um ferreiro.

Ela, vasculhando se havia alguma coisa de comer,

mordeu uma lima. Esta, resistente, em resposta 5

diz: “Por que, sua tola, buscas ferir-me com teu dente,

a mim, que estou habituada a roer todo tipo de ferro?”

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 4.9

A raposa e o bode

O homem astuto, assim que depara com o perigo,

busca encontrar a fuga na desgraça do outro.

Uma raposa descuidada tinha caído em um poço

e ficou presa devido à margem muito alta,

quando no mesmo local chegou um bode com sede. 5

Assim que ele perguntou se a água era doce

e abundante, aquela, maquinando uma trapaça:

“Desce, amigo; é tão grande a qualidade da água

que a minha vontade não consegue ser saciada”.

O barbudo atirou-se. Então a raposinha 10

escapou do poço, apoiada em seus altos chifres,

e deixou o bode aprisionado no poço fechado.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.