O poeta para Particulão
Como eu tivesse decidido pôr fim à minha obra
no intuito de que ficasse matéria suficiente para outros,
condenei em meu calado coração o meu propósito.
Pois se há alguém desejoso de tal título,
como ele adivinhará que coisas eu omiti, 5
para que ele deseje entregá-las à fama,
quando cada um tem sua concepção de espírito
e seu próprio estilo? Portanto, não foi uma leviandade,
mas uma sólida razão que me deu motivo de escrever.
Por isso, Particulão, já que és cativado pelas fábulas, 10
(as quais chamo de “esópicas” e não “de Esopo”,
visto que ele mostrou poucas e eu apresento muitas,
e me valho do gênero antigo, mas com temas novos),
vais ler este quarto livrinho todo, quando tiveres tempo.
Se a malignidade quiser denegri-lo, 15
desde que não possa imitá-lo, é lícito que o denigra.
O louvor já foi obtido por mim, porque tu e outros
iguais a ti citais minhas palavras em vossos escritos,
e julgais minha obra digna de longa memória.
E eu não desejo o aplauso dos iletrados. 20
Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.