Fedro 3.14

Sobre o divertimento e a seriedade

Um certo ateniense, tendo visto Esopo

numa turma de meninos jogando com nozes, parou

e riu como de um louco. Assim que o velho, mais

gozador do que objeto de gozação, percebeu isso,

pôs no meio da rua  um arco desarmado: 5

“Ei, sabido”, diz ele, “explica o que eu fiz”.

Acorre o povo. Aquele se esforça durante muito tempo

e não entende a causa da questão posta.

Por último, entrega os pontos. Então o sábio, vitorioso:

“Rapidamente romperás o arco, se o tiveres sempre esticado; 10

mas se o afrouxares, será útil quando quiseres”.

Assim, de vez em quando, devem ser dados divertimentos ao espírito,

para que ele volte a ti melhor para pensar.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 3.15

Um cachorro para um cordeiro

Um cão disse para um cordeiro que vagueava entre as cabritas:

“Estás enganado, seu tolo; tua mãe não está aqui”.

E mostrou ao longe as ovelhas segregadas.

“Não quero aquela que concebe quando lhe dá vontade,

em seguida carrega um peso incerto pelos meses determinados, 5

por último abandona a carga caída no chão;

mas aquela que me alimenta, aproximando-me seu úbere,

e priva seus filhos do leite para que não falte a mim”.

“No entanto é preferível aquela que te deu à luz”. “Não é assim.

De onde ela soube se eu nasceria negro ou branco? 10

Além disso, se ela tivesse querido parir uma fêmea,

de que lhe serviria, já que eu estava sendo gerado macho?

Grande bem ela me deu, sem dúvida, com meu nascimento:

foi para que eu ficasse esperando o açougueiro a cada hora!

Seu poder de decisão ao gerar foi nulo, 15

por que seria ela preferível à que se condoeu do enjeitado

e demonstra espontaneamente sua doce benevolência?

A bondade faz os pais, não o laço familiar”.

[Com estes versos o autor quis demonstrar que os homens

resistem às leis e são cativados pelas coisas oferecidas.] 20

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 3.16

A cigarra e a coruja

Quem não se ajusta à boa convivência

sofre muitas vezes as punições da soberba.

Uma cigarra fazia um estridente barulho

a uma coruja acostumada a procurar alimento nas trevas

e a pegar no sono durante o dia no oco de um galho. 5

Foi solicitada a que se calasse. Mais fortemente

começou a gritar. Novamente instada com seu rogo,

inflamou-se ainda mais. A coruja, quando viu que para si

nenhum socorro havia e menosprezadas suas palavras,

dirigiu-se à gritona com este ardil: 10

“Porque não me deixam dormir os teus cantos,

que julgarias que é a cítara de Apolo que soam,

tenho a intenção de beber este néctar, que Palas me

presenteou há pouco; se não tens fastio, vem;

bebamos juntas”. Aquela, que ardia de sede, 15

ao mesmo tempo que se inteirava de que sua voz era louvada,

voou avidamente. A coruja, saindo de sua toca,

perseguiu a temerosa e lhe deu a morte.

Assim, morta, concedeu o que tinha negado viva.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 3.17

As árvores sob a tutela dos deuses

Outrora os deuses escolheram as árvores

que queriam que estivessem sob sua tutela. O carvalho

agradou a Júpiter, o mirto a Vênus, a Febo o loureiro,

o pinheiro a Cibele, o alto choupo a Hércules.

Minerva, admirando-se, perguntou por que adotavam 5

as estéreis. Júpiter disse o motivo:

“Para que não pareçamos vender nossa honra pelo fruto”.

“Mas, por hércules, alguém contará o que quiser,

a mim a oliveira me é mais agradável por causa de seu fruto”.

Então o pai dos deuses e criador dos homens falou assim: 10

” Ó filha, és com razão chamada de sábia por todos.

Se o que fazemos não é útil, tola é a glória”.

A fabulazinha aconselha a nada fazer que não tenha proveito.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 3.18

O pavão para Juno a respeito de sua voz

O pavão veio a Juno, queixando-se com indignação

porque ela não lhe atribuiu o canto do rouxinol;

que aquele era admirável para todas as aves

e que ele era zombado assim que soltava sua voz.

Então, para consolá-lo, disse a deusa: 5

“Mas vences na beleza, vences no tamanho;

o brilho da esmeralda resplandece em teu pescoço,

e tuas penas pintadas estende uma cauda de pedras preciosas”.

“De que me vale”, diz, “a beleza muda, se o som me vence?”

“As qualidades vos foram dadas pelo arbítrio dos fados; 10

a ti, a beleza, as forças à águia, ao rouxinol o canto,

o augúrio ao corvo, à gralha os presságios favoráveis;

e todas as aves estão contentes com seus próprios dotes.

Não queiras pretender o que não te foi dado,

para que tua esperança frustrada não acabe em queixa”. 15

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 3.19

Esopo responde a um tagarela

Como Esopo fosse o único criado de seu senhor,

lhe foi ordenado preparar o jantar mais cedo.

Então, buscando lume, percorreu algumas casas

e, por fim, encontrou onde acendesse sua lucerna;

então tornou mais curto o caminho que tinha sido 5

mais longo na ida com suas voltas e começou a voltar

em linha reta pelo foro. E um certo tagarela do meio da turba:

“Esopo, em pleno sol o que fazes com uma luz?”

“Procuro um homem”, diz ele. E foi apressado para casa.

Se aquele importuno refletiu sobre isso em seu espírito, 10

percebeu sem dúvida que não pareceu um homem para o velho

aquele que, inoportuno, disse gracejo a uma pessoa ocupada.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Bábrio 1.1

O arqueiro e o leão

Um homem foi caçar na montanha,

destro no disparo da flecha; aí se deu a fuga

dos animais todos e a correria cheia de medo.

Só o leão foi ousado e chamou-o para briga.

 “Espera, não tenhas pressa”, disse-lhe 5

o homem, “nem ponhas esperança na vitória;

na primeira topada com meu mensageiro, saberás

o que podes fazer”. A seguir ele dispara a flecha,

um pouco distanciado. E o dardo se ocultou

nos intestinos flácidos do leão. E o leão apavorado 10

ameaçou fugir para a solidão dos vales frondosos.

Dele, porém, uma raposa não longe estava postada.

Ela sugerindo-lhe ter coragem e ficar firme, ele diz:

“Não me desviarás nem me farás ciladas,

pois se ele me envia um mensageiro tão penetrante, 15

já estou sabendo o quão temível ele é pessoalmente”.

      [(A fábula diz) que é preciso, conhecer a tendência de cada pessoa a partir das propostas que ela faz. Também diz que a sabedoria difere da força física.]

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]

Bábrio 1.2

O lavrador que perdeu seu alvião

Um lavrador que cavoucava um vinhedo

perdeu o alvião e se pôs a procurá-lo − 

vai que um dos roceiros dali o tivesse afanado!

Cada um deles negava. Não tendo o que fazer,

levou todos à cidade, para fazê-los prestar juramento; 5

pois imaginam que os deuses habitantes dos campos

são ingênuos e que os que moram cercados de muros

são atilados e em tudo estão de olho.

Quando, então, após adentrarem as portas, numa fonte

depuseram os embornais e começaram a lavar os pés, 10

um arauto anunciava mil dracmas de recompensa 

para uma notícia sobre os despojos subtraídos do deus.

Então, ao ouvir isso, o lavrador falou: “Vim mesmo à toa!

pois como um deus assim saberia de outros ladrões,

se ele não tem noção nem dos gatunos dele próprio, 15

e paga para saber se algum homem os conhece?”

[(A fábula diz) que é preciso desconfiar daqueles que prometem coisas de que não são donos.]

[Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti (2022)]