Esopo 54

A cabra e o pastor de cabras

Um pastor de cabras chamou suas cabras para o redil, mas uma delas ficou para trás, saboreando a pastagem. O pastor atirou contra ela uma pedra e sua boa pontaria quebrou-lhe o chifre. Depois, ficou implorando à cabra que não contasse nada ao patrão. Mas ela respondeu: “Mesmo que eu me cale, como vou esconder? Pois é evidente para todo mundo que meu chifre está quebrado!”.

[A fábula mostra] Que, quando a culpa é evidente, não há como ocultá-la.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 102

Esopo 55

O cabrito e o lobo flautista

Um cabrito que ficou por último atrás do rebanho estava sendo perseguido por um lobo. Então ele se virou para o lobo e disse: “Lobo, estou conformado em ser sua comida. Mas, para que eu não morra de forma indigna, toque flauta para eu dançar”. E o lobo se pôs a tocar flauta e o cabrito, a dançar. Entretanto, os cães o ouviram e saíram no encalço do lobo. Então este se voltou e disse ao cabrito: “Isso é bem feito para mim, pois eu, que sou magarefe, não devia me pôr a imitar um flautista”.

Assim, aqueles que praticam uma ação sem levar em conta as circunstâncias perdem até o que têm em mãos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 103

Esopo 56

O cabrito em cima da casa e o lobo

Postado no alto de uma casa, um cabrito viu um lobo passar por ali e se pôs a dizer-lhe injúrias e zombarias. Então o lobo disse: “Ei, meu caro, não é você que me injuria, mas o lugar onde você está!”.

A fábula mostra que as circunstâncias favorecem o atrevimento contra os mais fortes.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 105

Esopo 57

O caçador covarde e o lenhador

Um caçador que estava procurando pegadas de um leão perguntou a um lenhador se ele tinha visto as pegadas e onde o leão estava deitado. “Vou já lhe mostrar o próprio leão!”, respondeu o lenhador. E o caçador, amarelo de medo e batendo os dentes, replicou: “Só estou procurando as pegadas, e não o próprio leão!”.

Os atrevidos e covardes a fábula censura, os que são destemidos no falar e não no agir.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 108

Esopo 58

O caçador de passarinhos e a cigarra

Fábula do caçador de passarinhos, a qual exorta a não se atentar nas palavras, mas nos fatos.

Ao ouvir uma cigarra, um caçador de passarinhos achou que iria caçar uma grande presa e foi se aproximando, enquanto calculava, pela altura do canto, o tamanho da caça. Mas, quando manobrou a visgueira e apanhou a caça, teve em mãos um canto, nada mais que isso. E depois ficou recriminando a presunção, que leva muitos homens a formular falsos julgamentos.

Assim, as pessoas insignificantes tentam parecer bem mais do que são de fato.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 109

Esopo 59

O caçador de passarinhos e a víbora

Um caçador de passarinhos pegou o visgo e os caniços e partiu para a caça. Quando avistou um tordo pousado numa árvore alta, resolveu apanhá-lo. Então emendou os caniços no sentido do comprimento e ficou olhando fixamente, com toda a atenção voltada para o ar. E, enquanto mantinha a cabeça erguida assim, pisou sem perceber numa víbora que dormia diante de seus pés. Ela se virou e deu-lhe uma picada. E ele, moribundo, disse para si: “Que desgraçado sou eu, que quis agarrar uma presa e, sem perceber, tornei-me presa da morte!”.

Assim, aqueles que costuram maquinações contra próprios os primeiros os vizinhos são eles a cair em desgraças.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 110

Esopo 60

O caçador e o cão

Um caçador viu um cão que vinha ao seu encontro e se pôs a atirar-lhe pedaços de pão, um atrás do outro. Então o cão disse para o homem: “Fulano, desista de mim. Sua extrema boa vontade me deixa, ao contrário, muitíssimo incomodado!”.

Essa fábula mostra que aqueles que oferecem às pessoas muitos presentes é claro que estão tentando solapar a verdade.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 111

Esopo 61

O caçador e o cavaleiro

Um caçador seguia seu caminho carregando um coelho que havia caçado, quando deparou com um homem montado num cavalo. O cavaleiro fez perguntas sobre o coelho com o intuito de comprá-lo e, assim que pegou o coelho das mãos do caçador, saiu em disparada. O caçador tentou correr atrás dele para alcançá-lo, mas o cavaleiro mantinha-se a uma grande distância. Desacorçoado, o caçador o chamou e disse: “Vai embora de uma vez! Eu já te dei o coelho de presente mesmo!”.

Essa fábula mostra que muitos que são despojados de seus bens à força passam a fazer de conta que os deram de presente por querer.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 114

Esopo 62

O caçador e o lobo

Ao ver um lobo atacando o rebanho e dilacerando o maior número de ovelhas que podia, um caçador o apanha por meio de um bom ardil, atiça os cães contra ele e, em seguida, lhe vocifera: “Ô, bicho ordinário, cadê sua força de antes? Você não está sendo capaz de nem mesmo enfrentar os cães!”.

Essa fábula mostra que todo ser humano alcança renome graças à habilidade que lhe é peculiar.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 115

Esopo 63

A cadela que carregava carne

Uma cadela atravessava um rio levando um pedaço de carne, quando observou na água sua própria imagem. Crente de que era outra cadela com um pedaço de carne maior, largou o seu e avançou para tomar o da outra. Sucedeu, porém, que ela ficou sem os dois, sem o que ela não alcançou, porque não existia, e sem o seu, que foi rio abaixo.

Para homem ambicioso a fábula é oportuna.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 117