Esopo 104

A cobra, a doninha e os ratos

Uma cobra e uma doninha estavam numa casa brigando. E os ratos de lá, que eram sempre devorados pelas duas, quando as viram brigando saíram para passear. Mas, assim que elas viram os ratos, suspenderam a briga e foram atrás deles.

Assim, também, no que concerne às cidades, aqueles que se intrometem nas querelas dos demagogos não percebem que se tornam um incômodo para os dois lados.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 161

Esopo 105

A cobra pisoteada e Zeus

Uma cobra foi perguntar a Zeus por que ela era pisoteada por inúmeras pessoas. Zeus, então, lhe disse: “Mas, se você tivesse picado o primeiro homem que lhe deu um pisão, o segundo não teria se atrevido a fazer o mesmo”.

A fábula mostra que aqueles que enfrentam os primeiros agressores tornam-se temíveis para os demais.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 162

Esopo 106

A corça à beira do riacho

Premida pela sede, uma corça foi a uma fonte. Depois que bebeu, fitou sua própria sombra na superfície da água e, vendo que seus cornos eram de bom tamanho e de feitio variado, envaideceu-se deles, mas chateou-se muito com suas pernas, por serem finas e frágeis. E ainda estava pensando nisso, quando, de repente, surgiu um leão, que começou a persegui-la. Ela tratou de fugir em disparada e, enquanto a planície era um descampado, foi tomando a dianteira. Mas quando parou num matagal aconteceu o seguinte: seus cornos se enroscaram nos galhos e ela, sem poder correr, foi agarrada pelo leão. Prestes a morrer, disse para si: “Pobre de mim! Aquelas que eu pensava que fossem me trair me salvaram, enquanto esses em quem eu tinha plena confiança puseram-me a perder!”.

Assim, é frequente que, nos perigos, os amigos suspeitos se tornem salvadores e os que mereciam plena confiança, traidores.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 163

Esopo 107

A corça e a videira

Uma corça estava sendo perseguida por caçadores e foi se esconder embaixo de uma videira. Ao notar que eles tinham passado reto e já estavam um pouco mais adiante, a corça retrocedeu e começou a comer das folhas da videira. Mas um dos caçadores se voltou e, ao avistá-la, atirou o dardo contra ela, abatendo-a. Prestes a morrer, a corça disse entre gemidos: “Bem feito para mim, pois eu não deveria ter maltratado a videira, minha protetora!”.

A fábula poderia ser dita para aqueles homens que, por seus benfeitores, são castigados maltratarem pelos deuses.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 166

Esopo 108

A corça e o leão na caverna

Enquanto fugia de caçadores, uma corça foi parar numa caverna onde estava um leão, e lá entrou para esconder-se. Tendo sido agarrada por ele, disse, prestes a perecer: “Que azarada sou eu, que, para fugir de homens, coloquei-me nas mãos de uma fera”.

Assim, alguns homens, por medo de perigos menores, lançam-se em males maiores.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 167

Esopo 109

A corça zarolha

Uma corça zarolha foi parar numa praia e ali ficou pastando, com o olho bom voltado para a terra, atenta ao ataque dos caçadores, e com o estropiado voltado para o mar, do qual ela não suspeitava nenhuma ameaça. Mas certas pessoas que navegavam por ali, assim que a viram, lançaram dardos contra ela. E a corça, expirando, disse para si: “Que desditosa sou eu, que me resguardava da terra como traiçoeira, mas encontrei muito mais nocividade no mar, no qual busquei refúgio”.

Assim, muitas vezes, ao contrário de nossa suposição, as situações que parecem difíceis se revelam vantajosas, e as consideradas favoráveis, perigosas.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 168

Esopo 110

O corvo doente

Um corvo doente pediu à sua mãe: “Mãe, não fique se lamentando, reze aos deuses!”. E ela respondeu: “Filho, que deus terá piedade de você? De qual deles você não roubou carne?”.

A fábula mostra que os que têm, na vida, inúmeros inimigos numa urgência não encontrarão nenhum amigo.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 170

Esopo 111

O corvo e a cobra

Ao avistar uma cobra dormindo num lugar ensolarado, um corvo faminto desceu voando e arrebatou-a, mas ela se voltou e lhe deu uma picada. Então ele disse, prestes a morrer: “Pobre de mim! Encontrei esse achado e, por causa dele, estou perdendo a vida!”.

Esta fábula poderia ser contada a propósito de um homem que, para achar um tesouro, pôs em perigo a própria vida.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 171

Esopo 112

O corvo e a raposa

Um corvo surripiou um pedaço de carne e foi pousar numa árvore, mas uma raposa o avistou e quis tomar-lhe a carne. Parou, então, diante da árvore e se pôs a fazer elogios à sua beleza e ao seu porte vistoso, dizendo também que ele era perfeito para ser o rei dos pássaros, e que isso certamente aconteceria se ele tivesse voz. E o corvo, querendo mostrar-lhe que tinha voz também, soltou a carne e ficou grasnando bem alto. A raposa, então, agarrou correndo a carne e disse-lhe: “Ei, corvo, se você também tivesse inteligência, nada lhe faltaria para ser rei de todos nós”.

Para um homem tolo a fábula é oportuna.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 172

Esopo 113

O corvo e Hermes

[A fábula mostra] Que os que foram ingratos com os benfeitores, quando caírem em dificuldades, não terão protetores.

Um corvo, preso numa armadilha, suplicou proteção a Apolo, prometendo queimar incenso em sua honra. Mas, quando se viu livre do perigo, esqueceu a promessa. Todavia, ao ser novamente apanhado em outra armadilha, deixou de lado Apolo e prometeu sacrifícios a Hermes. Este, então, lhe disse: “Calhorda! Como vou acreditar em você, que renegou e lesou seu primeiro senhor?”.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 173