Esopo 294

O pastor [que levava um lobo ao aprisco] e o cão

Um pastor levava as ovelhas ao aprisco e, com elas, um lobo. Ia trancá-los juntos, não fosse o cão, notando o perigo, alertá-lo: “Como você quer proteger suas ovelhas, pondo para dentro um lobo com o rebanho?”.

[A fábula mostra] Que o convívio com os malvados é capaz de causar danos enormes e contribuir para a morte.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 417

Esopo 295

O pastor e o mar

Um pastor pastoreava seu rebanho num local à beira-mar e, enquanto contemplava o mar calmo e sereno, sentiu desejo de viver da navegação. Vendeu então as ovelhas, comprou tâmaras de palmeiras e, após carregar um navio, lançou-se ao mar. No entanto, o navio soçobrou, em decorrência de uma forte tempestade, e o homem, tendo perdido toda a carga, conseguiu a duras penas chegar a nado à terra. E já estava de volta a bonança quando ele, ao ver uma pessoa em terra enaltecendo a mansidão do mar, observou: “Caríssimo, esse aí está querendo suas tâmaras!”.

Assim, muitas vezes, os sofrimentos se tornam, para os homens ajuizados, ensinamentos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 418

Esopo 296

O pavão e o gaio

Estavam as aves deliberando a respeito do poder real, quando um pavão achou que merecia ser aclamado rei por causa de sua formosura. E, como as aves estavam dispostas a votar nele, um gaio disse: “Mas se você for o rei, como vai nos socorrer se uma águia vier atrás de nós?”.

A fábula mostra que os soberanos devem exibir como adorno não a beleza, mas o poder.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 419

Esopo 297

O pavão e o grou

Um pavão zombava de um grou, ridicularizando sua cor e dizendo assim: “Eu me visto de dourado e de púrpura, enquanto você não tem nenhuma beleza em suas asas”. E o grou respondeu: “Mas eu solto minha voz bem perto dos astros e voo no alto do céu, enquanto você caminha aqui embaixo, no meio de galinhas, feito um galo”.

[A fábula mostra] Que é melhor malvestida e ilustre uma pessoa ser do que viver se gabando de sua riqueza, mas no anonimato.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 420

Esopo 298

A perdiz e o homem

Um homem caçou uma perdiz e já estava para puxar seu pescoço quando ela se pôs a dizer, suplicando: “Deixe-me viver e, em compensação, eu lhe caçarei muitas perdizes”. Ele respondeu: “Mais um motivo para eu puxar seu pescoço, pois você está querendo fazer uma emboscada para seus amigos e companheiros”.

[A fábula mostra] Que quem faz tramoias contra os amigos acaba caindo nas malhas dos perigos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 421

Esopo 299

O periquito e a doninha

Um homem comprou um periquito e deixou-o solto a brincar pela casa. E ele, que era domesticado, foi num salto pousar sobre a lareira e lá ficou, alegre, a papagaiar. Então uma doninha o viu e indagou quem era ele e de onde viera. “O dono me comprou há pouco”, respondeu ele. “Ora, ora, seu bicho atrevido”, disse ela, “você, que é novo aqui, ousa estrilar desse jeito, enquanto eu, que nasci nesta casa, não tenho liberdade; ao contrário, se alguma vez me atrevo a fazer isso, os donos me enxotam, enfezados. E você ousa sem temor algum expressar-se livremente!” E o periquito retrucou: “Sai prá lá, dona da casa! É que a minha voz não causa aos donos tanto incômodo como a sua!”.

Para homem maldoso, que se põe a jogar sempre a culpa nos outros.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 422

Esopo 300

O pescador e a anchova

Um pescador estendeu a rede e pegou uma anchova. Ela, então, lhe suplicou que não a retivesse naquele momento, por ser ainda miudinha, mas que a pegasse mais tarde, já crescida, para um proveito maior. O pescador lhe respondeu: “Mas eu seria muito ingênuo se, tendo nas mãos um ganho, fosse atrás de uma esperança invisível”.

A fábula mostra que o lucro presente, mesmo pequeno, é preferível ao lucro futuro, ainda que grande.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 423

Esopo 301

O pescador, os peixes graúdos e os miúdos

Um pescador arrastou do mar sua rede e, enquanto pegava os peixes graúdos e os dispunha no chão, os miúdos escaparam, por entre as malhas, de volta ao mar.

[A fábula mostra] Que fácil é a salvação para os que não são demasiado prósperos, ao passo que raramente se vê escapar dos perigos uma pessoa que goza de grande reputação.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 424

Esopo 302

O pescador que batia a água

Um pescador chegou a um rio para pescar e estendeu a rede, de modo a cercar a correnteza de uma margem à outra. Em seguida, pôs-se a bater a água com uma pedra amarrada na ponta de uma corda de linho, para espantar os peixes e fazê-los cair distraidamente nas malhas. Então um dos moradores das imediações, ao vê-lo agindo daquele modo, chamou-lhe a atenção por turvar o rio e não permitir que eles bebessem a água limpa. “Mas se o rio não ficar turvo”, respondeu ele, “eu é que terei de morrer de fome!”

Assim, também, os demagogos da cidade têm excelente atuação no momento em que levam as nações à discórdia.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 425

Esopo 303

O pescador que tocava flauta

Um pescador, hábil na arte de tocar flauta, pegou suas flautas e redes e foi para o mar. Instalado sobre uma rocha proeminente, começou a tocar, imaginando que os peixes viriam por si mesmos saltando até ele, atraídos pelo som agradável. Mas, embora tivesse insistido bastante, não obteve sucesso. Então se desfez das flautas, pegou a rede, lançou-a na água e pescou muitos peixes. Depois, retirou-os das malhas, sobre a praia, e ao ver que eles estavam pulando disse: “Ô, bichos miseráveis, quando eu tocava flauta vocês não dançavam, e agora que eu já parei estão fazendo assim!?”.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 426