Esopo 314

A rã médica e a raposa

Certa vez, havia num brejo uma rã que gritava para todos os animais: “Eu sou médica, especialista em todos os tipos de remédios!”. Ao ouvi-la, disse uma raposa: “Se você, que manquitola, não cura sua própria deficiência, como é que vai salvar os outros?”.

A fábula mostra que, se alguém é leigo em educação, como poderá educar os demais?

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 441

Esopo 315

As rãs que pediam um rei

Chateadas por viverem sem governo, as rãs enviaram a Zeus embaixadores pedindo que lhes desse um rei. E o deus, vendo como elas eram ingênuas, lançou no brejo um pedaço de pau. De imediato, as rãs, sobressaltadas com o barulho, se mandaram para o fundo do brejo. Mas depois, como o pau não se mexia, elas voltaram à tona e chegaram a tal ponto de descaso que trepavam nele e lá ficavam empoleiradas. Decepcionadas com um rei como aquele, as rãs foram a Zeus uma segunda vez para pedir que lhes trocasse o governante, pois aquele primeiro era muito bonachão. Foi aí que Zeus perdeu a paciência e lhes mandou uma cobra-d’água, que agarrou e devorou todas elas.

A fábula mostra que é melhor ter chefes indolentes e sem maldade do que chefes turbulentos e maldosos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 443

Esopo 316

As rãs que procuravam água

No verão, quando o brejo secou, duas rãs que nele viviam saíram à procura de outro. Quando encontraram um poço fundo, uma propôs à outra que saltassem nele. Esta respondeu: “Mas se este poço também secar, como vamos sair?”.

A fábula mostra que não devemos nos lançar irrefletidamente às tarefas.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 446

Esopo 317

As rãs vizinhas

Duas rãs moravam vizinhas, uma num brejo fundo e afastado da estrada, a outra numa pequena poça no meio da passagem. E a que morava no brejo estimulava a outra a mudar-se para junto dela, pois desfrutaria de uma vida melhor e mais segura. Mas aquela não se deixava convencer, dizendo que não era fácil deixar o lugar de hábito. Até que, um dia, uma carroça passou ali e a esmagou.

Assim, também, os homens que se prendem a ocupações mesquinhas perecem logo, antes mesmo de se voltarem para ocupações mais nobres.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 447

Esopo 318

O rapazote e a velha

Um rapazote ia por um caminho num dia de calor ardente e encontrou por acaso uma velhota, que foi seguindo pelo mesmo caminho em companhia dele. De repente, a velhota desmaiou por conta do calor ardente e da fadiga da caminhada. O rapaz, condoído de sua fragilidade, pois ela estava sem forças para prosseguir, ergueu-a do chão e pôs-se a carregá-la nos ombros. Enquanto a levava, sentiu-se terrivelmente perturbado com certos pensamentos indecentes, nutridos pelo furor da libertinagem e do intenso desejo, que lhe puseram o falo a prumo. Imediatamente ele depôs a velhota no chão e começou a fazer com ela um ato libidinoso. Ela, então, perguntou, sem malícia: “O que é isso que está agindo em mim?”. Ele respondeu: “Você é pesada e por isso resolvi desbastar um tanto de sua carne”. Disse isso e concluiu a safadeza com ela. Em seguida, tornou a erguê-la do chão e colocou-a nos ombros. Ele havia percorrido uma pequena extensão do caminho, quando a velha disse: “Se você acha que meu peso ainda está insuportável, ponha-me no chão e desbaste mais carne de meu corpo”.

Esta fábula mostra que alguns homens saciam um desejo pessoal e, depois, alegam que praticaram a ação inocentemente, tentando passar a ideia de que, premidos pela necessidade, praticaram outra coisa, e não aquela que deveras praticaram.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 448-449

Esopo 319

Os rapazotes e o açougueiro

Dois rapazotes foram a um açougue comprar carne e, enquanto o açougueiro estava distraído, um deles roubou um pé de porco e enfiou-o sob as dobras da veste do outro. Quando o açougueiro deu por fé, começou a procurar o pé de porco e passou a acusar os rapazes. Mas aquele que pegou jurava que não estava com ele e o outro, que estava com o pé de porco, jurava que não o tinha pegado. E o açougueiro, ao perceber a malandragem, disse: “Mas ainda que vocês se safem de mim por meio de falsos juramentos, dos deuses vocês não vão se safar de jeito nenhum!”.

A fábula mostra que a impiedade do perjúrio é a mesma, ainda que sob o disfarce de sofismas.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 450

Esopo 320

A raposa ajudante do leão

Fábula da raposa, que exorta a não sonhar muito alto.

Uma raposa era companheira de um leão na qualidade de sua ajudante: ela farejava as caças e ele caía sobre elas, agarrando-as. Decerto, cada um deles recebia uma porção, separada em conformidade com o mérito. Mas a raposa, tomada de inveja do leão por causa de suas porções maiores, achou melhor ir à caça em vez de farejar, e quando foi agarrar um animal de um rebanho viu-se como o principal alvo de perseguição dos caçadores.

É melhor servir em segurança do que exercer o mando em desamparo.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 451

Esopo 321

A raposa ao ver um leão

Uma raposa que jamais tinha visto um leão deparou acidentalmente com um e, por ser a primeira vez que o via, ficou tão perturbada que quase morreu. Já na segunda vez que topou com ele, sentiu medo, sim, mas não tanto como da primeira vez. E, ao vê-lo pela terceira vez, foi tão ousada que até chegou perto e conversou com ele.

A fábula mostra que o hábito suaviza até as coisas aterradoras.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 454

Esopo 322

A raposa cotó

Depois que teve o rabo amputado numa armadilha, uma raposa se encheu de vergonha e começou a achar a vida insuportável. E concluiu que precisava induzir também as outras raposas ao mesmo estado, para ocultar, sob o padecimento comum, seu próprio defeito. Então, reuniu todas as raposas e incentivou-as a cortarem o rabo, dizendo que ele era não só um estorvo, mas também um peso supérfluo grudado nelas. Uma delas, porém, retrucou: “Ei, minha cara, mas se não lhe conviesse, você não nos daria esse conselho”.

Esta fábula se aplica àqueles que dão conselhos ao próximo, pensando não no bem do outro, mas em seus próprios interesses.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 455

Esopo 323

A raposa de barriga estufada

Ao ver no oco de um carvalho carnes e pães deixados por pastores, uma raposa faminta se enfiou lá e comeu tudo. E depois, de barriga estufada, ficou gemendo e suspirando, porque não conseguia sair. Então, outra raposa que passava por lá ouviu os gemidos, aproximou-se e quis saber o motivo. Ao saber do ocorrido, disse-lhe: “Você terá que ficar aí até voltar a ser o que era quando entrou. Só assim poderá sair com facilidade”.

A fábula mostra que o tempo soluciona os problemas difíceis.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 456