Fedro 4.12

Que as riquezas são más

As riquezas são com razão odiosas para um homem de valor,

porque uma arca rica impede a verdadeira glória.

Hércules, recebido no céu por causa de seu valor,

como saudasse todos os deuses que o cumprimentavam,

chegando Pluto, que é filho da Fortuna, 5

desviou dele os olhos. O Pai quis saber o motivo.

“Odeio-o”, diz, “porque ele é amigo dos maus

e, ao mesmo tempo, tudo corrompe com o lucro oferecido”.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 4.13

Dois homens, o mentiroso, o sincero e os macacos

Nada é mais útil para o homem do que falar com franqueza.

Essa sentença deve ser, na verdade, aprovada por todos;

mas a sinceridade costuma ser conduzida para a desgraça.

(segue paráfrase em prosa)

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 4.14

Sobre o leão reinando

Como o leão se tivesse feito o rei das feras

e quisesse alcançar a fama da equidade,

afastou-se de seu antigo costume

e, contente com pouca comida, administrava entre elas

os sagrados direitos com incorrupta lealdade. 5

Depois que o arrependimento começou a vacilar (…)

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FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 4.16

O mesmo [Prometeu]

Um outro perguntou que razão tinha procriado

lésbicas e machos afeminados; o velho explicou:

“O mesmo Prometeu, criador do povo de barro

que, assim que se choca com a fortuna, se quebra,

após ter moldado separadamente durante o dia todo 5

as partes da natureza que o pudor oculta com a veste,

para que mais tarde pudesse adaptá-las ao seus corpos,

foi de repente convidado por Líber para um jantar;

depois de ter encharcado suas veias com muito néctar,

voltou tarde para sua casa com o pé titubeando. 10

Então com o coração sonolento e por um ébrio engano,

aplicou a vagina no gênero masculino,

e pôs membros masculinos nas mulheres.

Assim agora a libido é desfrutada com um prazer torto”.

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FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 4.17

Sobre as cabras barbudas

Como as cabras tivessem obtido de Júpiter barba,

os bodes, entristecidos, começaram a ficar indignados

porque as fêmeas tinham igualado sua dignidade.

“Deixai”, diz [Júpiter] “que elas desfrutem de uma glória vã

e usurpem o ornato de vossa função, 5

contanto que não sejam iguais às vossas forças”.

Este enredo aconselha a que suportes que sejam semelhantes

a ti no aspecto exterior os que são diferentes em valor.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 4.18

Sobre a sorte dos homens

Como um sujeito se queixava de sua sorte,

Esopo inventou isto para consolá-lo.

Uma nau, sacudida por cruéis tempestades,

entre as lágrimas dos passageiros e o medo da morte,

assim que o dia muda repentinamente para uma face serena, 5

começou a ser levada em segurança por sopros favoráveis

e a animar os marinheiros com uma demasiada alegria.

Então o piloto, tornado sábio pelo perigo:

“Convém alegrar-se com parcimônia e queixar-se com moderação,

a dor e a alegria misturam de modo igual a vida inteira”. 10

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FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 4.19

Os cães enviaram legados a Júpiter

Certa vez os cães enviaram legados a Júpiter

para pedir tempos melhores para sua vida,

que os livrasse das afrontas dos homens,

porque lhes davam pão misturado com farelos

e saciavam sua fome principalmente com repugnante esterco. 5

Os legados partiram mas não a passos rápidos;

enquanto procuram com seus faros comida no estrume,

citados, não respondem. A custo finalmente

Mercúrio os encontra e os arrasta perturbados.

Mas então, assim que viram o rosto do grande Júpiter, 10

cagaram por todo o palácio, morrendo de medo.

O grande Júpiter proíbe que eles sejam dispensados; 13

mas vão para fora, impelidos pelos bastões 12

                                (…)

admirados que seus legados não voltavam;

imaginando que algo vil tinha sido cometido pelos seus, 15

após algum tempo ordenam que outros sejam inscritos.

O rumor se espalha sobre os legados anteriores;

temendo que aconteça novamente algo semelhante,

enchem o ânus dos cães de perfume, mas de muito mesmo!

Dão as instruções e pedem que sejam enviados imediatamente.20

Eles saem. Solicitando, logo conseguem o acesso.

Toma assento o máximo genitor dos deuses

e agita o raio; todas as coisas começam a tremer.

Os cães confusos, porque o estrondo tinha sido repentino,

de repente cagam perfume misturado com merda. 25

Os deuses todos gritam que a injúria devia ser punida.

Antes da pena, Júpiter falou assim:

“Não é próprio de um rei não dispensar os legados,

nem é difícil impor uma pena para a culpa deles.

Mas por justiça levareis esta recompensa: 30

não proíbo sejam dispensados, desde que flagelados de fome,

para que possam conter a sua barriga.

E aqueles que vos enviaram tão incontinentes

nunca ficarão sem as afrontas dos homens”.

[Agora os pósteros estão esperando os legados, 35

e quando um vê chegar um novo cão cheira seu cu.]

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 4.20

A serpente nociva para o misericordioso

Quem leva ajuda aos maus, depois de um tempo sofre.

Um sujeito pegou do chão uma cobra enrijecida pelo gelo

e a aquece no regaço, ele próprio misericordioso contra si;

pois, assim que ela se refez, matou o homem imediatamente.

Como uma outra lhe perguntasse a causa da má ação, 5

respondeu: “Para ninguém aprender a ser útil aos malvados”.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 4.21

A raposa e víbora

Uma raposa, ao cavar o seu covil, enquanto tirava a terra

e fazia muitas galerias muito profundas,

chegou ao recôndito antro de uma víbora

que guardava tesouros ocultos.

Assim que a avistou: “Primeiro peço-te que concedas perdão 5

para a minha imprudência; depois, já que vês perfeitamente

o quanto o ouro não é conveniente para a minha vida,

que me respondas com benevolência: que fruto obténs

deste trabalho ou quão grande é a recompensa

para que te prives do sono e passes a vida nas trevas?” 10

“Nenhuma” diz aquela, “mas isto me foi incumbido

pelo supremo Júpiter”. “Então nem tiras para ti

nem doas nada a ninguém?” “Assim agrada aos Fados”.

“Não quero que fiques brava, se eu disser francamente:

nasceu com os deuses irados quem é semelhante a ti”. 15

Tu, que hás de partir para onde partiram os antepassados,

por que, com a mente cega, torturas a tua vida desgraçada?

Digo a ti, avarento, alegria de teu herdeiro, que enganas

os deuses com incenso e a ti próprio com comida,

que ouves triste o som musical da cítara, 20

a quem aflige a alegria das flautas,

a quem os preços dos alimentos arrancam um gemido,

que, enquanto amontoas centavos ao teu patrimônio,

aborreces o céu com sórdido perjúrio,

que aparas toda despesa do funeral 25

para que a Libitina não tenha algum lucro com o que é teu.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.