Fedro 2.4

A águia, a gata e a javalina

Uma águia tinha feito o ninho na ponta de um cipreste;

uma gata, tendo encontrado um oco no meio do tronco, tinha parido ali;

uma porca habitante do bosque tinha dado cria na parte de baixo.

Então a gata, com fraude e maldade criminosa, destruiu assim

esse casual convívio. 5

Sobe até o ninho da ave e diz: “É preparada uma desgraça

para ti, talvez também para a infeliz de mim.

Pois como vês a javalina traiçoeira cavar a terra todo dia,

ela quer derrubar o carvalho,

para facilmente oprimir a nossa prole no chão.” 10

Espalhado o terror e perturbados os sentidos,

desceu até o quartinho da peluda porca;

“Teus filhos estão em grande perigo”, diz.

“Pois logo que saíres para pastar com sua tenra prole,

a águia está preparada para te arrebatar os porquinhos.” 15

Depois de ter enchido de medo também esse lugar,

a pérfida se escondeu em sua segura cavidade.

Em seguida, saiu à noite na ponta dos pés,

depois que se encheu de alimento a si e à sua prole,

fingindo pavor, fica de guarda o dia todo. 20

A águia, temendo a queda, fica pousada nos ramos;

a javalina, evitando a rapina, não se dirige para fora.

Para que dizer mais? Morreram com os seus de inanição

e ofereceram aos filhotes da gata um amplo banquete.

De quanto de mal um homem pérfido frequentemente causa, 25

a tola credulidade pode aqui ter uma prova.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 2.6

A águia e a gralha

Contra os poderosos ninguém está suficientemente protegido;

mas se se acrescenta um conselheiro maléfico,

tudo aquilo que a força e a maldade atacam desmorona.

Uma águia levou para o alto uma tartaruga.

Como esta tivesse escondido o corpo em sua casa cascosa 5

e, oculta, não pudesse de nenhum modo ser ferida,

veio pelos ares uma gralha e, voando perto, [disse]:

“Sem dúvida apanhaste com as garras uma magnífica presa;

mas se eu não mostrar o que deve ser feito por ti,

ela te cansará em vão com seu grande peso.” 10

Tendo-lhe sido prometida uma parte, persuade-a

a lançar do alto do céu sobre o rochedo o duro casco

e, com ele despedaçado, comer facilmente o alimento.

A águia, induzida por essas palavras, obedeceu aos conselhos

e logo repartiu generosamente a refeição com a mestra. 15

Assim, aquela que tinha sido protegida pelo dom da Natureza,

sozinha contra duas, morreu triste morte.

Como citar este documento:FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Fedro 1.28

A raposa e a águia

Os homens, por mais altos que estejam, devem temer os humildes,

porque a vingança é acessível ao hábil talento.

Certa vez uma águia apanhou os filhotes de uma raposa

e pôs em seu ninho para que seus filhos os tomassem como alimento.

A mãe, tendo-a seguido, começou a rogar 5

que não causasse a uma infeliz como ela uma dor tão grande.

Aquela desdenhou, segura certamente em seu próprio local.

A raposa tomou de um altar uma tocha acesa

e cercou de chama toda a árvore,

misturando a dor de seu sangue ao dano do inimigo. 10

A águia para livrar os seus do perigo de morte

entregou suplicante à raposa seus filhos sãos e salvos.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Esopo 6

A águia de asas depenadas e a raposa

[A fábula mostra] Que é preciso oferecer boas recompensas aos benfeitores e afastar com prudência os perversos.

Certa vez, uma águia foi apanhada por um homem que cortou rente as penas de suas asas e deixou-a vivendo em casa com as galinhas. Envergonhada, ela de tristeza nada comia. Era qual um rei aprisionado. Mas outra pessoa a comprou do homem, arrancou-lhe as penas cortadas e, depois de esfregar nela unguento de mirra, fê-la emplumar. Então ela alçou voo, apanhou com as garras uma lebre e levou-a de presente para o dono. Ao ver isso, uma raposa lhe disse: “Dê presentes não a esse dono, mas ao anterior. Esse é bom por natureza, mas é o outro que você deve de preferência cativar, para ele não deixar você sem penas, caso venha a apanhá-la de novo”.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 39

Esopo 7

A águia e a raposa

Uma águia e uma raposa tornaram-se amigas e resolveram morar perto uma da outra, fazendo do convívio uma garantia da amizade. E, assim, uma subiu bem no alto de uma árvore e fez seu ninho, enquanto a outra penetrou numa moita que havia ao pé da árvore e deu cria. Certa vez, porém, a águia estava precisando de comida e, assim que a raposa saiu para caçar, ela desceu voando à moita, apanhou as crias da raposa e devorou-as em companhia de seus filhotes. Quando a raposa voltou e percebeu o que havia ocorrido, afligiu-se não tanto pela morte de seus filhos como pela impossibilidade de vingar-se, pois, sendo ela um animal quadrúpede, era incapaz de perseguir um alado. Por isso, ficou de longe amaldiçoando o inimigo, que é só o que resta aos impotentes e fracos. Aconteceu, porém, que não demorou para a águia prestar contas de seu crime contra a amizade. Estando algumas pessoas no campo a imolar uma cabra, ela desceu voando, carregou do altar uma víscera em chamas e levou-a para o ninho. Nisso bateu um vento forte e, a partir de uma palhinha fina e seca, acendeu-se uma chama forte. Com isso, os filhotes, que ainda não sabiam voar, caíram queimados no chão. Então a raposa correu e, diante da águia, comeu todos eles.

A fábula mostra que os que violam amizade, mesmo um pacto de que escapem de ser punidos por suas vítimas impotentes, jamais se livram do castigo divino.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 40-41

Esopo 8

A águia e o escaravelho

Uma águia perseguia uma lebre que estava longe de qualquer proteção. Mas, assim que a lebre avistou um escaravelho, o único protetor que a ocasião lhe oferecia, ela foi até ele e suplicou ajuda. O escaravelho a amparou e, quando viu a águia se aproximando, pôs-se a pedir-lhe que não levasse embora sua protegida. A águia, porém, esnobou a pequenez do escaravelho e devorou a lebre diante dele. Ressentido, o escaravelho passou a espreitar os ninhos da águia e, cada vez que ela punha ovos, subia lá no alto e os fazia rolar e quebrar, até que a águia, encurralada, buscou refúgio junto de Zeus, que a tem como sua ave sagrada, e pediu-lhe que arrumasse um lugar seguro para a ninhada. Zeus lhe deu permissão para botar os ovos no colo dele. Ao ver isso, o escaravelho fez uma pelota de esterco, voou até alcançar o colo de Zeus e soltou-a lá. Foi aí que Zeus se levantou para sacudir o esterco e, sem se dar conta, deixou cair os ovos. Desde então, dizem que, na época em que os escaravelhos aparecem, as águias não fazem ninho.

A fábula ensina a não menosprezar pessoa alguma, considerando-se que ninguém é tão fraco a ponto de não poder um dia se vingar de um ultraje.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 42

Esopo 9

A águia flechada

[A fábula mostra] Que o aguilhão da dor é mais terrível quando uma pessoa enfrenta uma agrura provocada por seus próprios familiares.

Pousada no alto de um rochedo, uma águia tentava avistar lebres para caçar, quando foi atingida por um arqueiro. A flecha varou seu corpo e o entalhe com as penas estancou bem diante de seus olhos. Ao vê-lo, ela disse: “E tenho ainda outro desgosto: estar morrendo por causa de minhas penas!”.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 43

Esopo 10

A águia, a gralha e o pastor

Uma águia desceu voando do alto de um rochedo e apanhou um cordeiro. Uma gralha viu isso e, por inveja, quis imitá-la. E então, precipitando-se com muito estardalhaço, foi ter sobre um carneiro, mas suas garras se enroscaram nos tufos de lã. Sem conseguir alçar voo, ela ficou se debatendo, até que o pastor, ao notar o que se passava, foi correndo apanhá-la, aparou as pontas de suas asas e, quando caiu a noite, levou-a para suas crianças. E, quando elas perguntaram que pássaro era aquele, ele disse: “Pelo que eu bem sei, é uma gralha, mas, pelo que ela pretende, é uma águia”.

Assim, a rivalidade com os superiores, além de não levar acrescenta o riso a nada, ainda às desgraças.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 46

Esopo 141

Os galos e a águia

Dois galos brigavam por causa de galinhas, quando um pôs o outro para correr. Então, o vencido se afastou para um canto sombrio e lá ficou escondido. O vencedor, porém, voou alto e, pousado sobre um muro alto, deu um grito bem forte. Imediatamente desceu uma águia voando e o agarrou. E o galo que se escondera no escuro desde então se pôs a cobrir suas galinhas tranquilamente.

A fábula mostra que o Senhor se opõe aos soberbos e favorece os humildes.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 214

Esopo 192

O lavrador e a águia libertada

Um lavrador encontrou uma águia presa numa armadilha, mas se encantou com sua beleza e deixou-a ir em liberdade. A águia, então, não se mostrou ingrata e, quando o viu sentado ao pé de uma parede trincada, voou em sua direção e, com os pés, arrancou a faixa que ele tinha na cabeça. O lavrador se ergueu, começou a persegui-la e ela, então, deixou cair a fita. Ele a recolheu e, ao voltar para o local onde estivera sentado, encontrou a parede desmoronada. Assim, ele ficou admirado com a retribuição da águia.

[A fábula mostra] Que aqueles que recebem um benefício devem retribuí-lo, pois o bem que se faz terá retorno.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 287