Fedro 3.16

A cigarra e a coruja

Quem não se ajusta à boa convivência

sofre muitas vezes as punições da soberba.

Uma cigarra fazia um estridente barulho

a uma coruja acostumada a procurar alimento nas trevas

e a pegar no sono durante o dia no oco de um galho. 5

Foi solicitada a que se calasse. Mais fortemente

começou a gritar. Novamente instada com seu rogo,

inflamou-se ainda mais. A coruja, quando viu que para si

nenhum socorro havia e menosprezadas suas palavras,

dirigiu-se à gritona com este ardil: 10

“Porque não me deixam dormir os teus cantos,

que julgarias que é a cítara de Apolo que soam,

tenho a intenção de beber este néctar, que Palas me

presenteou há pouco; se não tens fastio, vem;

bebamos juntas”. Aquela, que ardia de sede, 15

ao mesmo tempo que se inteirava de que sua voz era louvada,

voou avidamente. A coruja, saindo de sua toca,

perseguiu a temerosa e lhe deu a morte.

Assim, morta, concedeu o que tinha negado viva.

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Esopo 113

O corvo e Hermes

[A fábula mostra] Que os que foram ingratos com os benfeitores, quando caírem em dificuldades, não terão protetores.

Um corvo, preso numa armadilha, suplicou proteção a Apolo, prometendo queimar incenso em sua honra. Mas, quando se viu livre do perigo, esqueceu a promessa. Todavia, ao ser novamente apanhado em outra armadilha, deixou de lado Apolo e prometeu sacrifícios a Hermes. Este, então, lhe disse: “Calhorda! Como vou acreditar em você, que renegou e lesou seu primeiro senhor?”.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 173

Esopo 378

Zeus e Apolo

Zeus e Apolo competiam na arte de manejar o arco. Assim que Apolo retesou o arco e lançou o dardo, Zeus esticou uma perna até a marca atingida por ele.

Assim, os que rivalizam com os superiores, além de não sobrepujá-los, ainda se expõem ao riso.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 538