Esopo 35

O burro e a mula

Um burriqueiro colocou fardos sobre um burro e uma mula e pôs-se a tangê-los. Enquanto o caminho seguia pela planície, o burro suportou o peso, mas quando chegaram à montanha ele já não aguentava mais e pediu à mula o favor de assumir uma parte de seu fardo, para que ele pudesse continuar transportando o restante. Mas ela não deu atenção ao pedido. O burro, então, despencou numa ribanceira e arrebentou-se. Sem saber o que fazer, o burriqueiro colocou o fardo do burro sobre a mula e, depois de escorchá-lo, pôs sobre ela também a pele do burro. Foi então que, sob forte exaustão, ela disse: “Bem feito para mim! Se eu tivesse me deixado convencer pelo burro, que me pediu o favor de aliviá-lo um pouco, agora não estaria carregando o burro juntamente com seus fardos!”.

Assim, também, alguns credores avarentos, para não conceder descontos aos devedores, muitas vezes acabam perdendo o próprio capital.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 77

Esopo 39

O burro e o burriqueiro

Um burro, conduzido por um burriqueiro, percorreu uma pequena parte do caminho e depois abandonou a estrada plana e meteu-se pelas escarpas. E já estava despencando na ribanceira, quando o burriqueiro o segurou pelo rabo e tentou fazê-lo contornar o abismo. Mas, como o burro oferecia vigorosa resistência, ele o soltou, dizendo: “Você venceu! Mas que bela vitória é a sua!”.

Para o homem amante de desafios, a fábula é oportuna.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 81

Esopo 45

O burro que carregava uma estátua

Um homem colocou uma estátua sobre um burro e o tocou para a cidade. As pessoas que deparavam com ele faziam reverências à estátua, mas o burro, crente de que eram para ele as reverências, pôs-se a zurrar, todo empolgado, e não quis mais seguir adiante. Quando o burriqueiro atinou com o que estava acontecendo, começou a surrá-lo com o porrete, dizendo: “Ô, cabeça oca, só me faltava essa! Um burro ser reverenciado por homens!”.

A fábula mostra que as pessoas que se engradecem com bens alheios se expõem ao deboche da parte daqueles que as conhecem.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 89

Esopo 48

O burro selvagem e o burro doméstico

Ao ver um burro doméstico num local bem ensolarado, um burro selvagem chegou perto e se pôs a felicitá-lo por ter um corpo vigoroso e alimento à disposição. Mais tarde, porém, ao vê-lo carregando fardos e o burriqueiro atrás dele a dar-lhe chicotadas, disse: “Eu não o felicito mais. Pois vejo que você tem fartura ao preço de grandes males!”.

Assim, não são invejáveis as vantagens alcançadas com perigos e sofrimentos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 92

Esopo 50

O burro, o corvo e o lobo

Um burro com uma ferida no lombo pastava num prado, quando um corvo pousou sobre ele e ficou dando bicadas na ferida. Enquanto o burro zurrava e saltava de dor, o burriqueiro, parado a uma certa distância, dava risada. Nisso, passava por ali um lobo, que, ao ver a cena, disse para si: “Pobres de nós! Se dermos uma única espiada, somos perseguidos, ao passo que o corvo ganha sorrisos”.

A fábula mostra conhecidos mesmo que os homens malfeitores são à distância.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 94

Esopo 277

O onagro e o burro

Ao ver um burro carregando um pesado fardo, um onagro se pôs a desdenhar de sua escravidão, dizendo: “Eu é que sou afortunado, pois vivo em liberdade, levo a vida sem fastios e tenho nas montanhas pastagem à minha disposição. Você, ao contrário, recebe alimento de outrem e vive continuamente submisso à escravidão e a pancadas”. Aconteceu, porém, que naquela mesma hora surgiu um leão, que nem chegou perto do burro, porque o burriqueiro o acompanhava; mas o onagro, que estava sozinho, ele atacou furiosamente e fez dele seu repasto.

Esta fábula mostra que os insubordinados e inflexíveis caem em desgraça de uma hora para outra, pois se deixam levar pela obstinação e prescindem de qualquer ajuda.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 395