Esopo 36

O burro e a mula com cargas iguais

Um burro e uma mula faziam um mesmo trajeto quando o burro, ao ver que os dois levavam fardos iguais, ficou indignado e pôs-se a reclamar, dizendo que a mula, apesar de ser contemplada com uma dupla quantia de ração, nem por isso estava levando um peso maior. E, tendo eles avançado apenas uma pequena parte do trajeto, o burriqueiro notou que o burro não estava aguentando. Então, tirou-lhe uma parte da carga e depositou-a sobre a mula. E, depois de terem avançado mais um tanto, notou que o burro estava ainda mais extenuado. Então de novo repartiu a carga, até que a retirou toda do burro e colocou-a sobre a mula. Foi aí que ela olhou bem para o burro e disse: “E então, meu caro, você não considera justo que eu mereça uma ração dupla?”.

Pois é. Portanto, convém que também nós julguemos o modo de ser de cada pessoa não pelo princípio, mas pelo fim.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 78

Esopo 37

O burro e as cigarras

Ao ouvir cigarras a cantar, um burro ficou deleitado com tão melodiosa voz e perguntou-lhes, com inveja, de que elas se alimentavam para emitir uma voz como aquela. “Orvalho”, responderam elas. Ele ficou esperando o orvalho e morreu de fome.

Assim, também, os que têm aspirações contrárias à natureza, além de não realizá-las, ainda padecem enormes desgraças.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 79

Esopo 38

O burro e as rãs

Um burro atravessava um charco carregando um fardo de lenha, quando deu um escorregão e caiu. Como não podia se erguer, ficou gemendo e se lastimando. Então as rãs do brejo, ao ouvir os lamentos, disseram: “Se você, meu caro, que caiu há pouco, está gemendo dessa maneira, o que não faria se passasse aqui tanto tempo quanto nós?”.

Dessa fábula pode servir-se uma pessoa a propósito de um homem frouxo que reclama de ínfimas desgraças, enquanto ela própria suporta, sem dificuldade, desgraças enormes.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 80

Esopo 39

O burro e o burriqueiro

Um burro, conduzido por um burriqueiro, percorreu uma pequena parte do caminho e depois abandonou a estrada plana e meteu-se pelas escarpas. E já estava despencando na ribanceira, quando o burriqueiro o segurou pelo rabo e tentou fazê-lo contornar o abismo. Mas, como o burro oferecia vigorosa resistência, ele o soltou, dizendo: “Você venceu! Mas que bela vitória é a sua!”.

Para o homem amante de desafios, a fábula é oportuna.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 81

Esopo 40

O burro e o cão que caminhavam juntos

Um burro e um cão seguiam juntos por um mesmo caminho, quando encontraram no chão uma carta selada. O burro pegou a carta, rompeu o selo, abriu-a e depois começou a ler para o cão ouvir. Mas as linhas tratavam de pastagens, isto é, de capim, de cevada e de palha. Enquanto o burro discorria sobre tal assunto, o cão foi se enfastiando e, a certa altura, disse-lhe: “Desce um pouco, meu caro, quem sabe você encontra alguns detalhamentos a respeito de carnes e de ossos”. Então o burro percorreu toda a carta e, como não localizou nada do que interessava ao cão, este replicou: “Jogue isso fora, amigo, pois não serve para nada”.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 82

Esopo 41

O burro e o hortelão

Um burro, servo de um hortelão, comia pouco e estafava-se demais. Por isso, pediu a Zeus que o livrasse do hortelão e o confiasse a outro dono. Por intermédio de Hermes, Zeus deu ordens para que o vendessem a um oleiro. Mas ele tornou a ficar descontente, pois era forçado a carregar mais peso do que antes. Então suplicou de novo outro dono a Zeus, que, por fim, providenciou que ele fosse vendido a um curtumeiro. Ao ver as atividades do patrão, o burro disse, entre gemidos: “Mesmo carregando peso e passando fome, era melhor ter ficado com os donos anteriores do que estar com este, pois, aqui, se eu morrer, não terei nem sepultura!”.

A fábula mostra que os servos sentem saudade dos donos anteriores, sobretudo quando experimentam outros.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 83

Esopo 42

O burro em pele de leão

[A fábula mostra] Que você, que é pobre e gente comum, não deve imitar o comportamento dos ricos, para não ser alvo de caçoadas nem correr riscos.

Envolto numa pele de leão, um burro fazia todo mundo pensar que ele era um leão e, assim, punha em fuga homens e rebanhos. Mas, logo que soprou uma rajada de vento, a pele se despegou e o burro ficou nu. Aí, então, todos acorreram e o surraram com varas e porretes.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 84

Esopo 43

O burro que vestiu uma pele de leão

Um burro vestiu uma pele de leão e pôs-se a perambular, apavorando os animais irracionais. Ao avistar uma raposa, também tentou amedrontá-la. Então ela, que por acaso já tinha ouvido anteriormente a voz do burro, disse a ele: “Mas esteja certo de que eu também teria me apavorado, se já não tivesse ouvido você zurrar!”.

Assim, algumas pessoas ignorantes que, graças à empáfia, dão a impressão de serem as tais são desmascaradas pela própria tagarelice.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 85

Esopo 44

O burro que carregava sal

Um burro carregado de sal atravessava um rio quando escorregou e caiu na água. E, como o sal se dissolveu, ele se levantou mais leve e saiu todo contente. Tempos depois, estava com uma carga de esponjas quando chegou à beira de um rio e, supondo que, se caísse novamente, iria levantar-se mais ágil, escorregou de propósito. Aconteceu, porém, que as esponjas absorveram a água e ele, sem poder levantar-se, afogou-se ali mesmo.

Assim, também, certos homens não notam que se arrastam para desgraças, devido às suas próprias manobras.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 88

Esopo 45

O burro que carregava uma estátua

Um homem colocou uma estátua sobre um burro e o tocou para a cidade. As pessoas que deparavam com ele faziam reverências à estátua, mas o burro, crente de que eram para ele as reverências, pôs-se a zurrar, todo empolgado, e não quis mais seguir adiante. Quando o burriqueiro atinou com o que estava acontecendo, começou a surrá-lo com o porrete, dizendo: “Ô, cabeça oca, só me faltava essa! Um burro ser reverenciado por homens!”.

A fábula mostra que as pessoas que se engradecem com bens alheios se expõem ao deboche da parte daqueles que as conhecem.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 89