Fedro 1.27

O cão, o tesouro e o abutre

{Este tema pode ser apropriado para os avarentos e para os que,

tendo nascido humildes, se esforçam por ser chamados de ricos.}

Desenterrando ossos humanos, um cão encontrou um tesouro

e, uma vez que violara os deuses Manes,

lhe foi incutida a cobiça das riquezas 5

para expiar sua culpa contra a sagrada religião.

E assim, enquanto vigiava o ouro, esqueceu-se do alimento

e morreu de fome; dizem que um abutre, pousando

sobre ele, falou: “Ó cão, jazes merecidamente,

tu, que de repente ambicionaste régias riquezas, 10

foste concebido numa encruzilhada e criado no esterco.”

Como citar este documento:
FEDRO. Fábulas esópicas. Tradução de José Dejalma Dezotti. Edição digital organizada por Lucas Consolin Dezotti. Araraquara: s.n., 2023. DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.7763266. Acesso em 23.mar.2023.

Esopo 34

O burro festeiro e o dono

Uma pessoa tinha um cão maltês e um burro, mas vivia sempre mimando o cão. Desse modo, se ia jantar fora, trazia algum bocado para lhe atirar quando o cão vinha a seu encontro abanando o rabo. Certa vez o burro, enciumado, correu ao encontro do dono e, ao saltitar, deu-lhe um coice. Então o dono perdeu a paciência e ordenou que, debaixo de pancadas, ele fosse levado para ser preso na estrebaria.

A fábula mostra que nem todos nasceram para tudo.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 75

Esopo 40

O burro e o cão que caminhavam juntos

Um burro e um cão seguiam juntos por um mesmo caminho, quando encontraram no chão uma carta selada. O burro pegou a carta, rompeu o selo, abriu-a e depois começou a ler para o cão ouvir. Mas as linhas tratavam de pastagens, isto é, de capim, de cevada e de palha. Enquanto o burro discorria sobre tal assunto, o cão foi se enfastiando e, a certa altura, disse-lhe: “Desce um pouco, meu caro, quem sabe você encontra alguns detalhamentos a respeito de carnes e de ossos”. Então o burro percorreu toda a carta e, como não localizou nada do que interessava ao cão, este replicou: “Jogue isso fora, amigo, pois não serve para nada”.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 82

Esopo 55

O cabrito e o lobo flautista

Um cabrito que ficou por último atrás do rebanho estava sendo perseguido por um lobo. Então ele se virou para o lobo e disse: “Lobo, estou conformado em ser sua comida. Mas, para que eu não morra de forma indigna, toque flauta para eu dançar”. E o lobo se pôs a tocar flauta e o cabrito, a dançar. Entretanto, os cães o ouviram e saíram no encalço do lobo. Então este se voltou e disse ao cabrito: “Isso é bem feito para mim, pois eu, que sou magarefe, não devia me pôr a imitar um flautista”.

Assim, aqueles que praticam uma ação sem levar em conta as circunstâncias perdem até o que têm em mãos.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 103

Esopo 60

O caçador e o cão

Um caçador viu um cão que vinha ao seu encontro e se pôs a atirar-lhe pedaços de pão, um atrás do outro. Então o cão disse para o homem: “Fulano, desista de mim. Sua extrema boa vontade me deixa, ao contrário, muitíssimo incomodado!”.

Essa fábula mostra que aqueles que oferecem às pessoas muitos presentes é claro que estão tentando solapar a verdade.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 111

Esopo 65

Os cães

Um homem que era dono de dois cães ensinou um a caçar e fez do outro seu cão de guarda. E, então, cada vez que o cão de caça saía a caçar e trazia alguma presa, o dono atirava um pedaço dela também para o outro. Indignado, o cão caçador passou a censurar o cão de guarda, pois, enquanto ele próprio vivia saindo e se estafando, o outro nada fazia e se deliciava com os frutos do esforço alheio. Então o cão de guarda lhe retrucou: “Mas não faça críticas a mim, e sim ao meu dono! Foi ele que me ensinou não a trabalhar, mas a desfrutar do trabalho alheio”.

Assim, também, as crianças preguiçosas não merecem censura, quando os pais as educam dessa maneira.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 119

Esopo 66

Os cães que estraçalhavam uma pele de leão

Uns cães encontraram uma pele de leão e puseram-se a fazê-la em pedaços. Ao vê-los, a raposa disse: “Se esse leão estivesse vivo, veriam que suas garras eram mais fortes do que os dentes de vocês”.

Essa fábula é clara para os que menosprezam as pessoas ilustres, quando elas despencam do poder e da glória.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 120

Esopo 67

O cão adormecido e o lobo

Um cão dormia diante de um estábulo quando um lobo o avistou e, depois de agarrá-lo, estava pronto para comê-lo, mas ele começou a implorar ao lobo que não o sacrificasse naquele momento. “Agora”, disse ele, “estou magro e mirrado. Mas meus donos estão para realizar uma festa de casamento e, se você me deixar livre agora, no futuro estarei mais gordo para você me devorar.” O lobo se convenceu e o soltou. Alguns dias depois ele voltou e encontrou o cão dormindo no alto da casa. Então ele parou e falou para o cão descer, lembrando-o do compromisso. O cão respondeu: “Mas se você, lobo, me vir dormindo de novo diante do estábulo, não mais aguarde casamento!”.

Assim, os homens sensatos, quando se safam de algum perigo, resguardam-se dele no futuro.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 121

Esopo 68

O cão convidado para jantar

Um homem preparava um jantar para receber à mesa um amigo íntimo. E o cão dele chamou outro cão, dizendo: “Amigo, vem jantar aqui comigo”. Ele foi e, enquanto contemplava feliz o grande jantar, exclamava intimamente: “Uau!, que alegria inesperada me apareceu bem agora! Vou me banquetear à farta e comer tanto que amanhã não terei fome nenhuma!”. O cão dizia isso para si e, ao mesmo tempo, abanava o rabo, confiante no amigo. Mas o cozinheiro, quando viu aquele rabo se movimentando para lá e para cá, agarrou o cão pelas patas e, num átimo, o arremessou para fora, pela janela. Após o baque, ele foi embora, ganindo muito. Então um dos cães que toparam com ele no caminho perguntou: “Como foi o jantar, amigo?”. Ele respondeu: “Exagerei na bebida e fiquei tão bêbado que nem mesmo sei por onde foi que eu saí”.

A fábula mostra que não se deve baixar a guarda diante daqueles que prometem benefícios a expensas de bens alheios.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 122

Esopo 69

O cão de caça

[A fábula mostra] Que não se deve, por amor ao luxo e à vanglória, atrair perigos para si, mas fugir deles.

Um cão criado em casa era adestrado para lutar contra animais ferozes. Mas, quando viu vários deles parados em fila, quebrou a coleira do pescoço e pôs-se a fugir pelas ruas. Então outros cães, vendo que ele era robusto como um touro, disseram: “Por que você está fugindo?”. Ele respondeu: “Sei que convivo com um exagero de comida e sacio meu corpo. Mas estou sempre a um passo da morte, quando luto contra ursos e leões”. Então eles comentaram entre si: “Vida boa é a nossa, ainda que pobre, pois não lutamos contra leões e nem contra ursos!”.

Esopo. Fábulas completas. Tradução de Maria Celeste Consolin Dezotti. São Paulo: Cosac Naify, 2013, p. 123